Sofala: Gestores comunitários de sistemas de água capacitados para a sustentabilidade

“A formação foi importante para mim porque aumentei as minhas capacidades para melhor gerir os sistemas sob minha responsabilidade.”

Delfim Nhassavele
Sofala: Gestores comunitários de sistemas de água capacitados para a sustentabilidade
UNICEF Moçambique/2025/Delfim Nhassavele
26 Agosto 2025

Chicuecue, Chibabava - Em 2007, a comunidade de Chicuecue na província de Sofala enfrentava uma crise severa de água potável, sendo a única alternativa percorrer cerca de 45 km para conseguir água,  um fardo diário para dezenas de famílias.

Em busca de uma solução, Joaquim Lucas, morador da mesma comunidade, decidiu reabilitar um furo de água danificado, e obteve a devida autorização do Governo. Após realizar testes técnicos e instalar um sistema de bombagem com gerador e depósito de água, conseguiu restaurar a funcionalidade do furo e criar um sistema de abastecimento local. O que parecia impossível tornou-se o primeiro passo para um grande investimento que evoluiu gradualmente.

Hoje, Joaquim é responsável por sete sistemas de abastecimento de água comunitários, todos cedidos pelo Governo nas comunidades de  Chicuecue, Chissinguana, Estaquinha, Majibombo, Guacuanhe, Marrombe e Muxungue (T2).

Joaquim considera que o segredo do sucesso é simples: “respeitar a comunidade, reinvestir no negócio e partilhar os ganhos. Isso cria confiança e gera impacto duradouro”, e por isso mesmo dedica parte dos lucros em projectos sociais, como a construção em curso de uma maternidade em Chicuecue e um centro de saúde no distrito de Machanga, em prol do bem-estar das comunidades.

Capacitação para sustentabilidade

A partilha da experiência sobre a sua actividade foi feita no âmbito da capacitação de gestores de sistemas de abastecimento de água rurais, realizada de 4 a 6 de agosto, no distrito de Nhamatanda, província de Sofala, com financiamento do UNICEF e pela União Europeia que beneficiou 16 gestores privados, comunitários e de instituições (escolas e Centros de saúde).

“A formação foi importante para mim porque aumentei as minhas capacidades para melhor gerir os sistemas sob minha responsabilidade”, destacou Joaquim.

Durante a capacitação, os participantes aprofundaram temas essenciais para a sustentabilidade dos sistemas, como gestão financeira de sistemas comunitários, envolvimento da comunidade na tomada de decisões, operação de sistemas alimentados por energia solar, boas práticas de manutenção preventiva, bem como regulação e definição de tarifas. O foco principal foi garantir o acesso contínuo, seguro e sustentável à água potável, mesmo em áreas remotas, promovendo a resiliência comunitária e a autonomia local.

Para além da capacitação, Joaquim foi um dos  gestores selecionados para fazer parte de um Workshop sobre promoção da sustentabilidade de Fontes Dispersas e Sistemas de Abastecimento de Água Rurais, realizado nos dias 7 e 8 de agosto de 2025, no mesmo distrito para partilhar a sua experiência.

O evento, também apoiado pelo UNICEF e pela União Europeia, reuniu 38 participantes, entre técnicos do sector público, Técnicos da Direcção Nacional de Água e Saneamento, gestores comunitários e representantes institucionais, com o objectivo de reforçar capacidades locais, troca de experiência, definir mecanismos de assistência aos distritos e gestores locais, para garantir a gestão sustentável de sistemas de abastecimento de água rural e fontes dispersas.

Durante o workshop, o Director Provincial das Obras Públicas de Sofala, Orlando Jequecene Francisco, afirmou que a província possui actualmente 3.291 fontes dispersas e 280 sistemas de abastecimento, sendo que 389 fontes e 42 sistemas foram construídos entre 2019 e 2024, com apoio do UNICEF. Esse esforço conjunto permitiu um avanço significativo na cobertura de água rural: de 53,1% para 71,5%.

O workshop também promoveu o intercâmbio de experiências entre os gestores e a disseminação das políticas nacionais.

Impacto para mulheres, meninas e saúde pública

A chefe do Escritório Provincial do UNICEF, Dezi Mahotas, destacou o impacto das infraestruturas na resiliência das mulheres e meninas, reduzindo o tempo de busca por água e permitindo maior dedicação a outras actividades, como a educação.

“As infecções hospitalares, uma das principais causas de mortalidade neonatal, podem ser evitadas com acesso a água potável, saneamento seguro e boas práticas de higiene”, afirmou. “Estudos mostram que a taxa de sobrevivência de recém-nascidos aumenta em 44% quando há kits de parto limpo e lavagem das mãos nas unidades sanitárias. Foi neste âmbito que o UNICEF avançou com o projecto piloto de construção/reabilitação de infra-estruturas de água e saneamento em instituições, que beneficiou 23 centros de saúde”.

A história de Joaquim Lucas é um reflexo do poder da acção comunitária aliada ao conhecimento técnico. Com formação adequada, políticas públicas eficazes e o compromisso de agentes locais, é possível trazer mudanças significativas, construindo soluções sustentáveis localmente, para o bem das nossas crianças e mães.