O meu desejo para as crianças de Moçambique por Hiris Jamal, 16 anos

"Eu penso que os direitos das crianças em Moçambique precisam de um grande empurrão na sua implementação."

Hiris Jamal
O meu desejo para as crianças de Moçambique por Hiris Jamal, 16 anos
UNICEF/2019

12 Novembro 2019

Eu penso que os direitos das crianças em Moçambique precisam de um grande empurrão na sua implementação.

Hiris Jamal, 16 anos

NAMPULA – “Eu penso que os direitos das crianças em Moçambique precisam de um grande empurrão na sua implementação, as normas estão escritas porém não estão a ser cumpridas.” Olá, eu sou a Hiris Jamal, tenho 16 anos de idade, frequento o primeiro ano do curso de Direito na Universidade Católica de Moçambique (UCM), sou também produtora e apresentadora de programas infanto-juvenis na Rádio Moçambique, deputada do Parlamento Infantil em Nampula, activista ambiental no programa LetsDoIt, e Vice-presidente do Núcleo dos Estudantes da UCM.

Eu amo a literatura moçambicana, por isso nos meus tempos livres eu gosto de ler, porque os livros ensinam-me sobre a liderança, e acredito que é capacitando as meninas que elas podem realizar o seu potencial todos os dias. Eu também gosto de passear ao ar livre por isso, desenvolvo acções para proteger o meio ambiente na campanha “Lixo no Chão Não”. Eu faço palestras sobre os direitos das crianças, com os meus colegas, nas escolas e no Parlamento Infantil. Vivo com os meus avós e irmãos, com quem compartilho as minhas vitórias e fraquezas, os meus familiares são os meus amigos.

Gosto do meu curso e apaixonei-me por assuntos relacionados a legislação e farei de tudo para que as leis sejam cumpridas efectivamente, porém o meu sonho é formar-me em Relações Internacionais e Diplomacia. Eu penso que é só com a educação que as raparigas podem se tornar capazes e assim injustiças como as uniões prematuras, a violação, o abandono escolar e a gravidez precoce vão acabar.

Eu vejo muitos direitos a serem violados, o empoderamento da rapariga, o direito a liberdade de expressão e principalmente o direito a Educação são os dos direitos mais violados em Moçambique. Algumas meninas são forçadas a se casar, acabando por engravidar cedo, depois têm de abandonar a escola, e as vezes são obrigadas a estudar de noite. Estas meninas nem podem opinar sobre o seu futuro.

Eu própria já tive um direito violado, a minha opinião não foi respeitada. O artigo 12 da Convenção sobre os Direitos das Crianças (CDC) diz que “As crianças têm o direito de serem ouvidas, de darem a sua opinião e de essa opinião ser respeitada e levada em conta em decisões que afectam a sua vida”. Com base neste artigo, eu tive de explicar o quão importante é as crianças participarem na tomada de decisão da sua vida.

Também conheço crianças que tiveram os seus direitos violados, e já ajudei algumas crianças que viviam nas ruas da minha cidade (Nampula) que fugiram de casa por maus tratos partindo dos encarregados de educação e outras ficaram órfãs e se viram sozinhas nesse mundo, algumas foram encaminhadas para Centros de Acolhimento tutelados pela Acção Social, e outras com uma conversa amigável entre eles e os encarregados foram aconselhadas a voltar para casa, senti me tão bem por poder ajudar e com isso descobri que o dialogo é a base da resolução de todos os problemas.

Quero que todas as crianças entendam que temos de trabalhar em equipa antes que seja tarde demais, este é o nosso tempo.
UNICEF/2019

Se eu fosse Presidente o que faria?

Se eu fosse Presidente eu desenvolveria estratégias de advocacia junto dos midias sobre os direitos das crianças, realizava mais palestras nas escolas sobre o combate as drogas, o assédio e violência sexual, promover campanhas de ressocialização de crianças da rua para centros infantis, e daria grande foco nas sanções da nova Lei  de Prevenção e Combate as Uniões Prematuras. Eu também focaria na promoção da auscultação das crianças no processo de tomada de decisão, e impulsionaria através de feiras infantis o talento das crianças do meu país.

Em 2019 celebramos os 30 anos da Convenção, e para mim este ano está ser muito bom porque o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) convidou-me para ser uma Jovem Advogada dos direitos das crianças em Moçambique (Youth Advocate). Aceitei fazer parte do Youth Advocate porque com essa oportunidade eu posso mudar o destino e a visão de muitas crianças, aceitei para servir desta e dedicar todas as minhas forças em prol dos direitos da criança e que isso possa servir de inspiração para outras crianças para juntos conseguirmos altos níveis de mudança em Moçambique.

Quero que todas as crianças entendam que temos de trabalhar em equipa antes que seja tarde demais, este é o nosso tempo.

O meu desejo para todas as crianças de Moçambique é a paz, o amor entre elas e o próximo para que consigamos colocar os direitos da criança e o empoderamento da rapariga em primeiro lugar, porque quando as meninas fazem melhor, todos nos fazemos melhor.