Mulher com albinismo luta pelos seus direitos em Moçambique

"Eu sou diferente, mas a minha condição, creio que é o que me torna especial, e por isso luto e vou sempre lutar para que as pessoas não se sintam em baixo só por terem alguma deficiência"

Claudio Fauvrelle
Cristina Alberto Humo, de 44 anos de idade, é um dos exemplos dessa luta. Ela é defensora dos direitos das pessoas com deficiência e no mínimo uma vez por semana, percorre escolas, hospitais ou lugares com aglomerado populacional para fazer palestras a volta da importância da inclusão e não a descriminação das pessoas com albinismo
UNICEF Moçambique/2019/Light for the World

02 Setembro 2019

Beira, Moçambique - Numa altura em que o mundo luta em prol da inclusão, um grupo de pessoas com albinismo se destaca e clama pelos seus direitos em Moçambique. Estas pessoas com ausência de pigmentação da pele vezes sem conta reclamam da violação do seu direito mais fundamental: o direito a vida.

Só no ano passado, dezenas de pessoas com albinismo foram raptadas e assassinadas ao longo do país, devido a mitos e crenças supersticiosas, que acreditam que este grupo de pessoas possui poderes mágicos e especiais para o enriquecimento rápido.

 

“É difícil ter albinismo em Moçambique. A exclusão fez me desistir da escola”

Cristina Alberto Humo, de 44 anos de idade, é um dos exemplos dessa luta. Ela é defensora dos direitos das pessoas com deficiência e no mínimo uma vez por semana, percorre escolas, hospitais ou lugares com aglomerado populacional para fazer palestras a volta da importância da inclusão e não a descriminação das pessoas com albinismo, trazendo sua história como um exemplo de vida.

“Tive 12 irmãos, dos quais três nascemos com albinismo. Minha infância, apesar de muitas vezes limitada pela minha condição, foi muito feliz, por que sempre tive aceitação dos meus país e irmãos. No entanto meu maior pesadelo iniciou quando entrei para a escola, onde tive que enfrentar para além da barreira de ser diferente, o facto de não conseguir enxergar o que os professores escreviam no quadro,” contou Cristina.  

Ainda no ensino médio, na 10ª classe, Cristina foi obrigada a desistir da escola devido a exclusão por parte dos seus professores. “Quando estava na sala, pedia ao professor para me aproximar do quadro devido a minha baixa visão ou dificuldades de enxergar, que é também comum entre as pessoas com albinismo, e os professores me ignoravam.”

Para evitar que mais crianças com albinismo passem pela mesma situação, Cristina Humo tornou-se activista da Organização de Reabilitação Baseada na Comunidade (OREBACOM), uma associação apoiada pela Light for the World na província de Sofala, que conta com fundos da Cooperação Austríaca para o Desenvolvimento e do Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF).

“Estou a nove anos na OREBACOM. A necessidade de me sentir socialmente incluída foi o principal motivo para abraçar a causa do activismo social. Tento sempre sensibilizar e levar para além de reabilitação física, apoio moral para as pessoas com deficiência. Eu sou diferente, mas a minha condição, creio que é o que me torna especial, e por isso luto e vou sempre lutar para que as pessoas não se sintam em baixo só por terem alguma deficiência. E é isso que tento passar para as restantes crianças que estão na mesma condição que eu,” disse Cristina.

 

“Viver entre o medo e receios”

Cristina conta que devido a onda de violência ligada a mitos sobre pessoas com albinismo, a sua vida nos últimos tempos é carregada de terror. “Vivo a vida entre medo e receios. Até para conversar com as pessoas dá um certo medo. Ficamos todos chocados com os inúmeros relatos de pessoas assassinadas e esquartejadas em nome de mitos e crenças.”

Apesar de sorridente, Cristina conta com lágrimas nos olhos, que fica muito triste quando passa pela rua e as crianças cospem nas roupas, e outras ainda, gritam dinheiro e riqueza.

Cristina conta que o seu maior sonho é poder sair livremente a rua sem ter medo, “o meu maior sonho é, para além de retornar os estudos, poder sair para caminhar, passear sem recear os perigos que corro por ser uma pessoa com albinismo, num contexto de desinformação sobre poderes que não tenho,” concluiu Cristina.