Determinação, força e persistência de uma Agente Polivalente de Saúde
Os Agentes Polivalentes de Saúde (APS) constituem a ponte entre as comunidades e o Sistema Nacional de Saúde. É através deles que a saúde chega as crianças e famílias nas comunidades mais recônditas de Moçambique.
Gorongosa, Sofala - Os Agentes Polivalentes de Saúde (APS) constituem a ponte entre as comunidades e o Sistema Nacional de Saúde. Os APS prestam cuidados primários que incluem a promoção e prevenção de doenças, prestam primeiros socorros e encaminham os pacientes às unidades sanitárias, muitas vezes, são o primeiro e único recurso em locais remotos.
“Todos os dias eu me levanto muito cedo e vou à machamba. Por volta das 10 horas, quando a maioria das pessoas na minha comunidade regressa da machamba, aproveito a oportunidade, pego a minha criança ao colo, levo a minha pasta e começo a andar de casa em casa para fazer o meu trabalho como APS”, conta Zita Gonçalo Chico, uma mulher de 32 anos, mãe de três filhos, incluindo a pequena Emaculada, de apenas 5 meses. Zita vive em Nhabirira, uma comunidade do distrito de Gorongosa, na província de Sofala, com cerca de 4,670 habitantes. Trabalha como APS há aproximadamente 9 anos, desde que concluiu sua formação em 2015. Actualmente tem, ao seu cuidado, um total de 1,546 habitantes.
Zita foi escolhida pela própria comunidade para ser APS, um gesto que ela recebeu com imensa alegria, “a minha comunidade é que me escolheu e eu me senti muito feliz porque a minha família também me apoiou,” conta Zita enquanto um sorriso de orgulho se desenhava no seu rosto.
Mas a trajectória de Zita não foi simples. Inconformada com o seu nível académico, na altura, com apenas 8ª classe, decidiu continuar os estudos, mesmo em meio a uma rotina cheia de responsabilidades. Com duas crianças pequenas, trabalho na machamba, as tarefas de casa, o serviço comunitário e estudos, Zita enfrentou um verdadeiro desafio. “Durante o trabalho como APS senti que devia estudar mais, escolhi ensino à distância, até concluir a 12ª classe. Passei momentos muito difíceis para conseguir fazer tudo, mas sempre acreditei que podia. Por isso, fiz um plano semanal de actividades, cumpri com esforço e consegui terminar a 12ª classe em 2019.”
Os frutos do seu trabalho hoje são visíveis. “Antes, as pessoas da minha comunidade não sabiam quase nada sobre planeamento familiar, como e porquê construir as latrinas, o uso da rede mosquiteira, incluindo a importância de vacinação das crianças. Mas quando comecei a trabalhar, elas passaram a saber.”
Ela recorda com orgulho: “Antes, a malária e as diarreias eram muito frequentes na minha comunidade. Depois das minhas explicações sobre saneamento, limpeza e construção de latrinas, essas doenças diminuíram muito. A população segue as minhas orientações.” E novamente, o sorriso de Zita surge como testemunho do impacto transformador que tem causado.
Zita relembra, com emoção, um dos momentos mais marcantes da sua carreira, “durante uma das visitas, encontrei uma criança órfã em estado grave de saúde. Avaliei e percebi que ela estava com desnutrição e parecia grave. Os familiares disseram que ela já tinha sido levada ao centro de saúde de Canda umas 3 ou 4 vezes, mas nunca melhorava. Decidi referenciá-la directamente para o centro de saúde da vila de Gorongosa. Foi internada imediatamente. Alguns dias depois, voltou recuperada. Aquilo me tocou profundamente.”
Para melhorar a qualidade dos serviços dos APS, o Ministério da Saúde, com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e da Malaria Consortium, implementou a plataforma digital upScale. Essa ferramenta auxilia no registo de pacientes, diagnóstico, aconselhamento e referência nas comunidades.
Zita usa o sistema com facilidade: “Uso frequentemente o upScale e não tenho tido dificuldades. Já registei toda a população da minha comunidade, incluindo crianças. Todas as pessoas da minha comunidade estão no meu telefone (celular).”
Apesar de apenas 20 porcento dos 733 APS em Sofala serem mulheres, Zita destaca a importância e a coragem de outras mulheres seguirem este caminho, “apesar das nossas muitas responsabilidades como mulheres e donas de casa, vale a pena fazer o curso de APS. Ganhamos muita experiência, aprendemos muita coisa, salvamos vidas, inclusive da nossa própria família que estão na comunidade.”
Hoje, Zita sente-se uma profissional habilidosa, segura e respeitada. “No início, tive dificuldades para preencher o livro de registo, visitar muitas casas num só dia, e atender pacientes. Mas superei. Hoje a minha comunidade me respeita, ouve e segue os meus conselhos. Me sinto realizada. Valeu a pena a luta. Tenho o certificado da 12ª classe, experiência de trabalho, e vejo a saúde da minha comunidade melhorar.”
A história de Zita é a prova viva de que determinação, amor e compromisso são forças transformadoras. E ainda há muito a ser feito para que o trabalho dos APS seja mais valorizado, apoiado e reconhecido, afinal, é através deles que a saúde chega as crianças e famílias nas comunidades mais recônditas de Moçambique.