O suave sol da tarde brilha sobre as crianças que chapinham em poças de água que surgiram em vastas extensões de campos de arroz verdejantes. As crianças pulam, nadam e riem entre os lírios violetas.
No entanto, Pedrito, de 10, lembra-se de como há dois anos, em vez de raios solares suaves, caíram fortes tempestades, que transformaram as poças de águas tranquilas em ondas gigantes mortíferas.
Naquele dia em 2015, a professora de Pedrito tinha avisado os alunos que não fossem à escola quando estivesse para cair uma tempestade; no entanto, a força da tempestade tinha sido subestimada. Era quase meio-dia; a chuva caía enquanto Pedrito brincava; a sua avó, Suzarina Arménio, cozinhava; e o irmão mais velho, André, 14, lavava a loiça. De repente, houve um rugido ensurdecedor, seguido de altas ondas que embateram contra a sua casa. Antes que pudessem entender o que estava a acontecer, a água chegava aos ombros de Pedrito. O medo apoderou-se de todos eles, especialmente porque só André sabia nadar. Fugiram para terras mais altas. Mas nem todos conseguiram. A tia-avó de Pedrito, que se encontrava nos campos de arroz, morreu afogada.
Quando as águas baixaram, Pedrito e a família voltaram apenas para encontrar que toda a casa tinha sido levada¸ assim como as galinhas e todos os seus pertences, incluindo roupa de cama, vestuário e livros escolares. “Eu chorei”, diz Pedrito.
Não só Pedrito não tinha livros escolares, como também se tinha perdido todo o mobiliário, livros e registos da escola e as aulas eram impossíveis pelo menos durante um mês, já que as salas de aula estavam cheias de lama.
O irmão e a avó de Pedrito participaram na limpeza. “Usámos pás, cascas de coco e as nossas mãos. Pedrito era demasiado pequeno para ajudar”, diz Suzarina, uma viúva, que cuidou de Pedrito desde que tinha 6 meses quando a mãe morreu. Eles moram em Iocata, a cerca de 100 quilómetros de Quelimane, a capital provincial da província da Zambézia que, à semelhança do resto do país, é propensa a desastres recorrentes.
Em 2015, Moçambique, juntamente com a República Dominicana e o Malawi, estava no topo da lista dos países mais afectados por desastres como secas, inundações, ciclones, epidemias e pequenos tremores de terra (Índice Global de Riscos Climáticos, 2017). Segundo dados oficiais, as inundações e ventos fortes de 2015 afectaram mais de 370.000 pessoas, ceifaram 163 vidas e resultaram em mais de 8.300 casos de cólera, inclusivamente na Zambézia. As tempestades destruíram ainda 2.200 salas de aula, afectando mais de 150.000 alunos (UN Habitat, 2015).
Devido a estes desastres recorrentes, o UNICEF, juntamente com parceiros como a UN Habitat, está a apoiar o governo nos seus esforços no sentido de reforçar a resiliência. Tito Bonde, Especialista de Emergências do UNICEF, destaca que “Embora garantir a sobrevivência seja um aspecto crucial durante uma emergência, também devemos garantir que todos os direitos das crianças sejam atendidos, incluindo o direito à educação. As crianças não devem ter a sua educação interrompida todos os anos devido à ocorrência de desastres. Sabemos que estes desastres são recorrentes e devido às mudanças climáticas, provavelmente tornar-se-ão ainda mais frequentes e graves. Também sabemos que os mais vulneráveis – incluindo os pobres, os órfãos e as crianças com deficiência – são os que mais sofrerão.”
Por essa razão, em 2016 foi criado um programa piloto de prontidão para situações de emergência nas escolas, introduzido em regime piloto em três províncias: Gaza no sul do país, Zambézia no centro e Nampula no norte. Mais tarde, o programa será alargado para todo o resto do país. Como parte do programa, UNICEF e a UN Habitat prestam apoio em termos de workshops de formação para comités de gestão de desastres em escolas constituídos por alunos, pais e encarregados de educação e membros da comunidade.
Bonde diz: “Nós ajudamos os comités a elaborar planos de emergência para as suas escolas. Estes complementam outras medidas de resiliência ou de redução do risco de desastres já existentes; no entanto, esses planos centram-se nas habilidades já existentes nessa comunidade e basear-se-ão na resiliência que os membros da comunidade já tenham demonstrado no passado. Trata-se de um exemplo de integração das actividades de preparação para emergências dentro do nosso programa de desenvolvimento de longo prazo.”
Bonde enfatiza que “as crianças devem participar nos comités e os planos não devem ser demasiado técnicos e devem ser relevantes para as realidades dessa comunidade e para as necessidades das crianças”. Por exemplo, ele diz que “os planos devem incluir rotas de evacuação, acções para proteger todas as crianças e medidas especiais para crianças com deficiência e devem analisar como proteger materiais escolares, incluindo os registos.”