Moçambique: crianças que vivem em áreas afectadas por tempestades enfrentam a deterioração da insegurança alimentar e crise nutricional seis meses após o Ciclone Idai

Projecções do UNICEF indicam que mais de 38,000 crianças podem ficar desnutridas no início de 2020

14 Setembro 2019
Moçambique: crianças que vivem em áreas afectadas por tempestades enfrentam a deterioração da insegurança alimentar e crise nutricional seis meses após o Ciclone Idai
UNICEF Moçambique/2019/Dorothy Foote

MAPUTO, Moçambique / NOVA IORQUE - Quase um milhão de pessoas, incluindo 160.000 crianças menores de cinco anos, no norte de Moçambique estão enfrentando escassez de alimentos e uma crise nutricional, com condições que devem piorar nos próximos meses - disse hoje o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). A terrível situação é resultado directo da devastação causada pelos ciclones Idai e Kenneth, que atingiu, respectivamente, o centro e norte de Moçambique em Março e Abril deste ano. As duas tempestades provocaram inundações generalizadas, a destruição de quase 780.000 hectares (7.800 quilómetros quadrados) de culturas agrícolas e a deslocação de dezenas de milhares de famílias.

O número de crianças menores de cinco anos que enfrentam níveis de “crise” de insegurança alimentar deve subir para 200.000 em áreas afectadas por calamidades naturais até Fevereiro de 2020. Cerca de 38.000 crianças podem ficar extremamente desnutridas e em risco de morte no mesmo período.

"A devastação agrícola causada pelos dois ciclones piorou ainda mais os níveis já altos de desnutrição infantil", disse Marcoluigi Corsi, Representante do UNICEF em Moçambique. “Muitas crianças em áreas afectadas por calamidades naturais não têm acesso aos alimentos nutritivos de que precisam para seu desenvolvimento saudável. Seis meses depois, a perspectiva de mais sofrimento é muito real à medida que entramos na estação de seca. São urgentemente necessários mais recursos para apoiar os esforços humanitários em andamento.”

Antes dos ciclones ocorridos no país, a taxa de desnutrição crónica em crianças era de 43%. Sendo Moçambique um dos países mais pobres do mundo, a pobreza multidimensional significa que muitas crianças enfrentam condições que inibem o desenvolvimento físico e cognitivo normal.

A desnutrição também deixa as crianças em risco de desenvolver outras condições de saúde ou contrair doenças oportunistas. Pela primeira vez em anos, Moçambique notificou casos de pelagra - uma doença ligada à deficiência de vitamina B3 que resulta da diversidade alimentar limitada. Mais de 600 casos já foram reportados. Também é esperado o aumento sazonal habitual nos casos de malária e doenças diarreicas. Muitas crianças desnutridas ficarão mais vulneráveis ​​por causa do acesso precário aos serviços de saúde causado pela deterioração das estradas rurais durante a próxima estação chuvosa.

A insegurança alimentar e nutricional também tem implicações para a segurança das crianças. De acordo com a Organização das nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o preço do milho aumentou e permanece mais alto em comparação com os preços desta época do ano passado, nas províncias afectadas pelo ciclone em Cabo Delgado, Manica e Nampula. Há evidências de que os aumentos de preços estão levando algumas famílias a adoptar estratégias negativas de fazer face à situação, como empurrando seus filhos para o casamento prematuro (casamentos forçados) ou trabalho infantil.

Por exemplo, as missões de monitoramento recentes sugerem que a taxa de casamento prematuro está aumentando. O UNICEF e parceiros descobriram casos em que a idade das meninas casadas caiu abaixo da média pré-emergência de 13 a 14 anos.

O UNICEF e seus parceiros estão trabalhando para alcançar crianças e famílias que ainda sofrem com os ciclones. Alguns dos resultados:

  • Mais de 735.000 crianças menores de cinco anos foram rastreadas para desnutrição aguda, com mais de 400.000 a serem rastreadas até Fevereiro de 2020;
  • Quase 10.000 crianças desnutridas foram tratadas com suplementos alimentares terapêuticos;
  • A implementação de um programa conjunto de cupões, que ajudará pelo menos 100.000 pessoas afectadas pelo ciclone, bem como doações de crianças para 10.000 famílias, visa aliviar as condições imediatas de insegurança alimentar que podem levar a riscos de protecção; e
  • Apoio as brigadas móveis inovadoras do Ministério da Saúde de Moçambique, que alcançam comunidades remotas com serviços integrados de saúde e nutrição.

 “O impacto de dois ciclones que atingiram Moçambique em uma temporada foi devastador e sem precedentes, no entanto, é só agora que os efeitos residuais do desastre estão realmente começando a ser sentidos”, disse James McQuen-Patterson, Chefe de Saúde e Nutrição do UNICEF em Moçambique. “Atingir crianças desnutridas com grande necessidade é complexo. Só teremos sucesso com uma resposta coordenada entre os parceiros para garantir que as famílias afetadas pelo ciclone não sofram mais problemas”, afirmou ele.

Para implementar seus programas para mulheres e crianças, o UNICEF Moçambique requer US $ 102.6 milhões até maio de 2020. Até agora, apenas gorou recolher US $ 34.1 milhões. Isso deixa um défice de financiamento de US $ 68,5 milhões ou 67%.

 

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Nota para Editores

O impacto do ciclone Idai também foi sentido nos vizinhos Maláui e Zimbábue, com a subsistência e casas destruídas. No Zimbábue, o ciclone Idai agravou a situação humanitária precária. Estima-se que 270,000 pessoas, incluindo 129,600 crianças, ainda precisam de apoio nutricional urgente para salvar vidas, para que possam se recuperar do impacto das inundações.

No Maláui, o UNICEF prestou assistência humanitária a 731,879 pessoas afectadas pelas inundações, incluindo 219,195 crianças. O UNICEF está agora apoiando os esforços de recuperação de famílias e comunidades nos 17 distritos afetados pelas inundações.

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