A má alimentação prejudica a saúde das crianças em todo o mundo, adverte o UNICEF

A pobreza, a urbanização, as mudanças climáticas e as más escolhas alimentares resultam em dietas prejudiciais para a saúde

18 Outubro 2019
A má alimentação prejudica a saúde das crianças em todo o mundo, adverte o UNICEF
UNICEF/MOZA2019-01191/Guy Hubbard

Pelo menos uma em cada três crianças menores de cinco anos no mundo sofre de desnutrição; 2 em cada 3 crianças menores de dois anos vivem mal alimentadas

MOÇAMBIQUE - Um número alarmante de crianças está sofrendo as consequências de má alimentação e de um sistema alimentar que não tem em conta as suas necessidades, advertiu o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), num novo relatório sobre crianças, alimentação e nutrição, divulgado na Terça-feira 15 de Outubro.

O Relatório A Situação Mundial da Infância 2019: Crianças, Alimentação e Nutrição (The State of the World’s Children 2019: Children, food and nutrition) revela que pelo menos 1 em cada 3 crianças com menos de cinco anos - ou mais de 200 milhões - está desnutrida ou com sobrepeso. Quase 2 em cada 3 crianças entre os seis meses e os dois anos de idade não recebem alimentos que potenciem um crescimento rápido de seus corpos e seus cérebros. Esta situação pode prejudicar o desenvolvimento cerebral, interferir com a sua aprendizagem, debilitar o seu sistema imunológico e aumentar o risco de infecções e, em muitos casos, de morte.

"Apesar de todos os avanços tecnológicos, culturais e sociais das últimas décadas, perdemos de vista esse facto fundamental: se as crianças comem mal, vivem mal", disse Henrietta Fore, Directora Executiva do UNICEF. “Milhões de crianças sobrevivem a uma dieta pouco saudável porque simplesmente não têm uma opção melhor. A maneira como entendemos e reagimos à desnutrição precisa mudar: não se trata apenas de conseguir que as crianças comam o suficiente; trata-se sobretudo de conseguir que comam os alimentos adequados. Esse é o nosso desafio comum hoje.”

O relatório fornece a avaliação mais completa sobre a desnutrição infantil do século XXI em todas as suas formas. Ele descreve uma ameaça tripla para a saúde das crianças: primeiro, a desnutrição, depois, a fome oculta causada pela falta de nutrientes essenciais, e, por fim, o excesso de peso ou obesidade entre crianças com menos de cinco anos, observando que em todo o mundo:

  • 149 milhões de crianças padecem de atraso no crescimento, ou são muito baixas para a sua idade,
  • 50 milhões de crianças sofrem de emaciação (emagrecimento extremo – peso demasiado baixo), ou são demasiado magras para a sua altura,
  • 340 milhões de crianças – quer dizer 1 em cada 2 - sofrem de carência (deficiência) em vitaminas e nutrientes essenciais, como vitamina A e ferro,
  • 40 milhões de crianças menores de cinco anos estão acima do peso ou são obesas.

Em Moçambique, o nível de atraso no crescimento moderado a grave é de 43% em todo o país, com os níveis de desnutrição caindo para 'sérios' em partes de Cabo Delgado e Zambézia. No entanto, em todo o país, particularmente nas áreas rurais, de difícil acesso, algumas comunidades estão a passos de condições críticas, caso um desastre ainda os atinja. Além disso, pela primeira vez em anos, Moçambique notificou casos de pelagra - uma doença ligada à deficiência de vitamina B3, que resulta da diversidade alimentar limitada. Mais de 800 casos já foram relatados.

O relatório alerta que más práticas alimentares e alimentares começam desde os primeiros dias da vida de uma criança. Embora a amamentação possa salvar vidas, por exemplo, apenas 42% das crianças com menos de seis meses de idade são amamentadas exclusivamente com o leite materno e um número crescente de crianças são alimentadas com substitutos de leite materno (ou fórmula infantil). As vendas de fórmula à base de leite cresceram 72% entre 2008 e 2013 em países de renda média alta, como Brasil, China e Turquia, em grande parte devido a uma comercialização inadequada e a precaridade de políticas e programas de protecção, promoção e apoio ao aleitamento materno.

Quando as crianças começam a fazer a transição para alimentos macios ou sólidos por volta dos seis meses, a muitas são administradas o tipo incorrecto de dieta, de acordo com o relatório. Em todo o mundo, quase 45% das crianças entre seis meses e dois anos de idade não são alimentadas com frutas ou verduras. Quase 60% não comem ovos, produtos lácteos, peixe ou carne.

À medida que as crianças crescem, sua exposição a alimentos pouco saudáveis ​é alarmante, devido em grande medida impulsionada à comercialização e à publicidade inapropriadas, à abundância de alimentos ultraprocessados ​​tanto nas cidades como também em zonas remotas, e ao aumento do acesso à comida rápida (fast food) e à bebidas altamente açucaradas.

Por exemplo, o relatório mostra que 42% dos adolescentes em idade escolar em países de baixa e média renda consomem refrigerantes com açúcar pelo menos uma vez por dia e 46% comem fast-food pelo menos uma vez por semana. Essas taxas sobem para 62% e para 49%, respectivamente, para adolescentes em países de alta renda.

Como resultado, os níveis de sobrepeso e obesidade na infância e na adolescência estão aumentando em todo o mundo. De 2000 a 2016, a proporção de crianças com sobrepeso entre 5 e 19 anos duplicou, passando de 1 em cada 10 para quase 1 em cada 5. Há 10 vezes mais meninas e 12 vezes mais meninos nessa faixa etária que sofrem de obesidade hoje do que em 1975.

O maior ônus da desnutrição em todas as suas formas recai sobre crianças e adolescentes das comunidades mais pobres e marginalizadas, observa o relatório. Apenas 1 em cada 5 crianças de seis meses a dois anos das famílias mais pobres come uma dieta suficientemente diversa para que o seu crescimento se considere saudável. Mesmo em países de alta renda como o Reino Unido, a prevalência de excesso de peso é mais do que o dobro nas áreas mais pobres como nas áreas mais ricas.

O relatório também observa graves crises alimentares causados desastres relacionados ao clima. A seca, por exemplo, é responsável por 80% dos danos e perdas na agricultura, alterando drasticamente os alimentos disponíveis para crianças e famílias, bem como a qualidade e o preço desses alimentos. A segurança alimentar piorou em Moçambique, afectando o preço dos alimentos básicos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o preço do milho aumentou e permanece mais alto em comparação com o mesmo período do ano passado nas províncias afectadas pelo ciclone em Cabo Delgado, Manica e Nampula.

Além disso, eventos climáticos como ciclones, inundações e secas já são comuns em Moçambique. Preocupações com as mudanças climáticas sugerem que ciclones com força recorde como Idai e Kenneth, que devastaram partes do centro e norte de Moçambique no início deste ano, podem se tornar a norma. Isso pode ter um efeito contínuo e prejudicial sobre as famílias vulneráveis ​​e sua capacidade de se sustentar.

Para lidar com essa crescente crise de desnutrição em todas as suas formas, o UNICEF está apelando urgentemente aos governos, ao sector privado, aos doadores, aos pais e às mães, às famílias e às empresas para que ajudem as crianças a crescerem saudáveis ​mediante as seguintes medidas:

  1. Mobilizar sistemas de apoio - saúde, água e saneamento, educação e protecção social - para melhorar os resultados em matéria de nutrição para todas as crianças.
  2. Colectar, analisar e utilizar periodicamente dados e evidências de boa qualidade para orientar a acção e acompanhar o progresso.
  3. Capacitar as famílias, as crianças e os jovens para que exijam alimentos nutritivos, inclusive melhorando a educação nutricional e utilizando legislação de eficácia comprovada - como os impostos sobre o açúcar - para reduzir a demanda por alimentos pouco saudáveis.
  4. Estimular aos fornecedores de alimentos a fazerem o que é certo para as crianças, incentivando o fornecimento de alimentos saudáveis, convenientes e acessíveis.
  5. Estabelecer ambientes alimentares saudáveis para crianças e adolescentes utilizando abordagens de eficácia demonstradas, como rotulagem precisa e fácil de compreender e controles mais estrictos sobre a comercialização de alimentos pouco saudáveis.

"Estamos a perder terreno na luta por dietas saudáveis", disse Fore. “Esta não é uma batalha que podemos ganhar por nós mesmos. É preciso que governos, sector privado e sociedade civil priorizem a nutrição infantil e trabalhem juntos para abordar as causas de uma alimentação pouco saudável em todas as suas formas.”

O argumento para uma boa nutrição não se limita a promover uma melhor saúde e desenvolvimento para as crianças. A desnutrição, de acordo com as evidências nacionais, restringe o desenvolvimento económico de Moçambique, prejudicando o potencial das pessoas para contribuir com maior produtividade do país, bem como contribuindo para uma perda de produtividade devido a doenças e absentismo no local de trabalho.

Embora tenha havido progresso na redução da mortalidade de menores de cinco anos; as taxas de desnutrição permanecem altas. A desnutrição crónica ainda é o problema nutricional mais importante de Moçambique. Para enfrentar essa crise, o UNICEF e os parceiros apoiam acções coordenadas entre os sectores - saúde, água, agricultura, educação, acção social e também o sector privado - para criar um melhor ambiente de alimentação e nutrição para todas as crianças e famílias. Desde Janeiro de 2019, o UNICEF apoia o Ministério da Saúde para treinar mais de 1.000 Agentes Polivalentes Elementares (APEs) – agentes comunitários de saúde – para fornecer serviços de saúde e nutrição que salvam vidas às comunidades rurais, incluindo aconselhamento sobre amamentação, alimentação de crianças pequenas e promoção de higiene. Isso eleva o número total de APEs em Moçambique para cerca de 6.400, com planos de expandir ainda mais o programa para comunidades mais remotas e vulneráveis.

 

 

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Para fotos, broll, o relatório completo (em Inglês), dados técnicos, gráficos e outro conjunto de dados, clique aqui. Depois de 00.01 TMG do dia 15 de Outubro, poderá navegar (browse) aqui no recurso interactivo especial no nosso website ou fazer o download do relatório aqui.

Sobre o UNICEF

O UNICEF trabalha em alguns dos lugares mais difíceis do mundo, para chegar às crianças mais desfavorecidas. Para salvar as suas vidas. Para defender os seus direitos. Para ajudá-las a alcançar o seu verdadeiro potencial. Presentes em 190 países e territórios trabalhamos para cada criança, em qualquer parte, todos os dias, para construirmos um mundo melhor para todos. E nunca desistimos. Para mais informação sobre o UNICEF e seu trabalho para cada criança, visite www.unicef.org.mz

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