PERSPECTIVA
Liberando o potencial de adolescentes:
Reforma educacional na região do Oriente Médio e Norte da África

por Xeica Mozah bint Nasser Al Missned, representante especial da Unesco para o ensino básico e superior

"Para liberar o potencial da futura força de trabalho – os adolescentes –, devemos garantir que sejam educados adequadamente para seguir uma carreira."

Em 12 de agosto de 2010, teve início o segundo Ano Internacional da Juventude, das Nações Unidas. Portanto, todos nós, interessados e defensores da infância, devemos voltar nossa atenção para os problemas que os adolescentes enfrentam atualmente. Na região do Oriente Médio e Norte da África, esses problemas são particularmente graves nas áreas de educação e emprego no futuro.

A região vive também um súbito crescimento na população de jovens, nunca antes registrado. Nos próximos 10 anos, 65% da população terá no máximo 24 anos de idade. Além da pressão demográfica, os jovens estão encontrando dificuldades cada vez maiores para ingressar no mercado de trabalho, principalmente devido ao grande número de novos ingressantes a cada ano. A força de trabalho da região vem crescendo rapidamente e, tanto desemprego como subemprego constituem preocupações importantes para os jovens que tentam ganhar a vida e sustentar a si e suas famílias. Quando um menino que hoje tem 13 anos de idade chegar aos 23, serão necessários nada menos que 100 milhões de postos de trabalho para absorver essa demanda crescente, o que significa criar 6,5 milhões de postos de trabalho por ano.

Embora alguns países do Golfo tenham registrado um aumento de riqueza ao longo das últimas décadas, tal aumento não foi totalmente benéfico para nossos jovens. Muitos adolescentes habituaram-se a um estilo de vida materialista que os desvia do caminho para alcançar seu potencial pleno. Do mesmo modo, a sedução do consumismo é uma armadilha que leva os adolescentes a uma busca insaciável por bens materiais e os estimula a negligenciar seu papel como cidadãos responsáveis pelo envolvimento na comunidade e por seu próprio desenvolvimento positivo. Além disso, o mercado de trabalho não consegue absorver o súbito crescimento da população jovem, o que os impede de alcançar independência financeira. Sem conseguir trabalho, esses jovens prolongam seus estudos, o que, por sua vez, adia o casamento e a paternidade.

É alarmante reconhecer que nossos jovens são mais consumidores do que produtores, mas a culpa não é apenas deles. Em parte, o sistema educacional nos países árabes é responsável pela crescente taxa de desemprego, uma vez que está mais concentrado em conceder diplomas aos estudantes do que em capacitá-los efetivamente em habilidades práticas. Não prepara os jovens para o mercado de trabalho mundial; tampouco estimula a versatilidade ou permite que apliquem um conjunto de competências diversas a toda uma série de disciplinas. No atual mundo tecnológico em rápida transformação, os jovens precisam desenvolver pensamento crítico, habilidades de escrita e flexibilidade – áreas praticamente ausentes no nosso currículo atual. Se não reformarmos nossas práticas atuais visando transformar os adolescentes de hoje em contribuintes criativos, produtivos e diligentes, nossas economias não serão capazes de competir em escala mundial.

Meu trabalho com a Aliança de Civilizações das Nações Unidas estimulou-me a lançar a Silatech, uma iniciativa para jovens cujo nome deriva da expressão árabe que significa "sua conexão". Particularmente ativa nos países do Golfo, a iniciativa visa estabelecer parcerias entre jovens e líderes, empresas e organizações, em escala global, com a finalidade de promover oportunidades de inovação e de atividade empresarial. Para liberar o potencial da futura força de trabalho – os adolescentes –, devemos garantir que sejam educados adequadamente para seguir uma carreira. Se não investirmos nesta geração, acredito que o ciclo devastador criado pelo desemprego continuará. Os adolescentes representam um ativo colossal para nosso futuro, e não devemos perder essa oportunidade histórica para atribuir-lhes poder e ajudá-los a desabrochar.

Xeica Mozah bint Nasser Al Missned é presidente da Fundação do Catar para Educação, Ciência e Desenvolvimento Comunitário; vice-presidente do Supremo Conselho de Educação; presidente do Supremo Conselho para Assuntos da Família; e presidente do projeto do Centro Médico e de Pesquisa Sidra. Criou a Iniciativa Silatech para ajudar a gerar novos postos de trabalho e oportunidades para jovens no mundo árabe.


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