Vindos da Venezuela, irmãos querem voltar a estudar

Os migrantes Carmen e Juan temiam não conseguir vagas em escola pública para seus três filhos. Depois de receber apoio da Busca Ativa Escolar, o casal quer focar na saúde da filha caçula, Daymar, que tem microcefalia

UNICEF Brasil
Foto mostra duas meninas. A maior segura a menor no colo. As duas estão sorrindo.
UNICEF/BRZ/Marco Prates
11 março 2022

Quando a venezuelana Carmen Andreina, 30 anos, buscou uma escola pública para saber como matricular os três filhos recém-chegados ao Brasil, foi logo tomada por um sentimento de desesperança. Na unidade de ensino, quem a atendeu não entendia o espanhol; ela mal consegue se expressar em português – menos ainda para entender trâmites burocráticos e pedidos de documentos. “Só consegui pensar: “meu Deus! meus filhos vão mesmo perder o ano”, lembra a mãe, que vive em um abrigo para refugiados e migrantes em Boa Vista, Roraima.

Há apenas quatro meses no País, Carmem e o marido, Juan Diego Losada, ficaram angustiados: como o sonho por uma vida melhor no Brasil poderia se concretizar com os filhos fora da escola? Ainda por cima, no momento que seria o início da jornada escolar da caçula da família, a Daymar, de 5 anos.

Com microcefalia leve, a menina – mimada pelos pais e irmãos – foi a principal razão da família ter decidido deixar uma casa própria, amigos e familiares para trás. “Chegou a um ponto em que eram os medicamentos dela ou comida, não conseguíamos bancar os dois”, diz o pai, relembrando a crise social, política e econômica pela qual passa seu país natal.

Foto mostra uma família: da esquerda para a direita, um home, um menino, uma mulher segurando uma menina no colo e uma menina sentada ao lado dela.
UNICEF/BRZ/Marco Prates
Juan, Diego, Daymar, Carmen e Kairelis (da esquerda para direita): a prioridade nº 1 dos pais para este ano é a educação das crianças. E continuar a cuidar da saúde da caçula, que tem microcefalia.

Foi com alívio que Carmem e Juan saíram do atendimento do mutirão da Busca Ativa Escolar no abrigo onde vivem, realizado pelo UNICEF em parceria com o Instituto Pirilampos.

Ali, Daymar e o irmão, Diego, 8 anos, já tiveram a pré-matrícula realizada por telefone com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Boa Vista. E os encaminhamentos foram dados para que a mais velha, Kairelis, 12 anos, fizesse a matrícula na rede estadual.

Com isso, a prioridade máxima da família para 2022 começou a ser resolvida. “Esse apoio foi essencial”, diz a mãe, que ainda conseguiu tirar foto 3x4 das crianças e fazer as cópias dos documentos antes de encaminhá-las para testes de nivelamento e conclusão da matrícula.

A segunda prioridade é seguir com os cuidados da Daymar, obtendo uma consulta com um médico neurologista e um agendamento para operar a catarata em um dos olhos da menina – cirurgia essa que aguardaram por anos em seu país natal. “Tenho fé de que com fisioterapia ela vai poder caminhar. Ela é muito esperta e reativa, compreende tudo, aplaude e sente falta quando alguém vai embora”, diz a mãe ao lado da filha, que se locomove em uma cadeira de rodas. A mãe inclusive está focando na fisioterapia e outros tratamentos da menina antes de concluir a matrícula escolar.

Foi Daymar quem mais sofreu no trajeto para o Brasil. Sensível a estímulos externos, a menina teve três episódios de convulsão no período de duas semanas a partir da saída da cidade natal até Boa Vista, quando as coisas começaram a se acalmar. Desde então, não teve mais crises.

Foto mostra uma menina sentada em uma cadeira de rodas. Atrás dela há outra menina em pé.
UNICEF/BRZ/Marco Prates
Daymar e Kairelis: a caçula se locomove numa cadeira de rodas, mas a mãe espera um dia vê-la andar. A estreia na escola – adiada um pouco enquanto ela cuida da saúde – será no Brasil.

“Nenhuma criança ou adolescente deve ficar fora da escola, não importa de onde ela venha. A educação é um direito que acompanha a criança quando ela deixa o seu país. Junto com as Secretarias Municipal e Estadual de Educação, o UNICEF, em parceria com o Instituto Pirilampos, trabalha para remover as barreiras que pais e cuidadores refugiados e migrantes enfrentam para acessar a escola. Uma criança é sempre uma criança, independentemente de sua nacionalidade e de onde vive”, afirma Julia Caligiorne, oficial de Educação do UNICEF em Roraima.

Acessar a educação em tempos de pandemia tira também um peso das costas dos pais. No caso de Carmen, a responsabilidade de fazer o papel de professora: a escola das crianças na Venezuela, assim como ocorreu na maior parte do Brasil, praticamente não teve aulas presenciais nos últimos dois anos, com efeitos no aprendizado e na saúde mental das crianças.

Hoje, Diego aguarda apenas o resultado do teste de nivelamento para saber a sua série e começar a estudar. Já no caso de Kairelis, a mais velha, a vaga obtida ficava muito longe do abrigo e a mãe está em negociação para garantir que ela possa ir às aulas em uma unidade mais perto de onde vivem.

De qualquer forma, para os três, a ansiedade de retorno às salas de aula se junta ao desafio de estudar num país diferente.

“Quero aprender português em três meses, mas é muito difícil”, diz Kairelis, para quem a escola será uma oportunidade de fazer amigos, mesmo com a ansiedade sobre como será o seu processo de integração.

De resto, enquanto o pai busca emprego e a família aguarda a oportunidade de se mudar para outro estado – dentro da Estratégia de Interiorização da Operação Acolhida, a resposta do Governo Federal, Nações Unidas e sociedade civil para o fluxo migratório da Venezuela –, Kairelis e Diego seguem sendo os irmãos protetores da Daymar: ficam bravos quando alguém chama a irmã por algum nome pejorativo e, quase todos os dias, competem para ver quem dormirá na mesma cama que a caçula. Para evitar conflitos, no entanto, a mãe prefere trazer Daymar para dormir na sua cama.  

Foto mostra uma menina sentada em uma cadeira olhando para uma câmera, enquanto um homem está tirando foto dela.
UNICEF/BRZ/Marco Prates
Daymar tira foto 3x4, documento necessário para efetivação da matrícula na rede municipal de ensino.

A busca por quem está fora da escola
O mutirão da Busca Ativa Escolar foi realizado entre os dias 1º e 4 de fevereiro no âmbito do projeto Súper Panas, espaços que oferecem atividades de educação não formal e de apoio psicossocial para crianças e adolescentes refugiados e migrantes da Venezuela. Os Súper Panas são mantidos por meio do apoio do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (Echo, na sigla em inglês) e do Escritório para População, Refugiados e Migração do Departamento de Estado dos Estados Unidos (PRM, na sigla em inglês). A ação teve o apoio do Subcomitê Federal de Acolhimento e Interiorização e da Força Tarefa Logística Humanitária da Operação Acolhida.

A Busca Ativa Escolar é uma estratégia presente em mais de 3 mil municípios e 20 estados do País, e que colabora com governos municipais e estaduais para enfrentar a exclusão escolar. Foi desenvolvida pelo UNICEF e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com o apoio do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). O objetivo é apoiar os governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão, para que cada menina, cada menino possa recuperar a aprendizagem e ter uma trajetória de sucesso escolar. Saiba mais em: https://buscaativaescolar.org.br/