"Vi esperança nos olhos das crianças refugiadas", diz o ator Liam Neeson em visita ao Brasil

Durante quatro dias no norte do País, o embaixador do UNICEF conheceu histórias de acolhida e integração de alguns dos mais de 220 mil venezuelanos que migraram para o Brasil

UNICEF Brasil
UNICEF/UNI268676/Hiller

16 janeiro 2020

Debaixo de um sol intenso, o embaixador do UNICEF Liam Neeson chegou ao ponto de entrada dos migrantes venezuelanos no Brasil: a cidade de Pacaraima, em Roraima. De pé em frente ao marco que divide os dois países, Neeson observava o movimento dos venezuelanos que cruzavam a linha e entravam no Brasil.

Ao longe, com o pequeno Thiago, de 3 meses, no colo, Diego Alejandro e Kimberly Moreno entravam no País. Contaram a Neeson que já vivem no Brasil há oito meses e estavam ali para renovar seus documentos e, com isso, dar a segunda dose de vacina para o seu filho. O embaixador acompanhou a família enquanto ela dava início ao processo de documentação. Despediram-se com um sorriso e seguiram viagem.

Esse foi um dos muitos encontros que marcaram a jornada de quatro dias do ator no Brasil. A convite do UNICEF, Neeson conheceu a trajetória de crianças, adolescentes e suas famílias que têm deixado a Venezuela em busca de uma vida melhor. "Conversei com famílias que cruzaram a fronteira, muitas delas com crianças e bebês", disse Neeson. "Eles estão exaustos, vulneráveis e ainda em choque por ter deixado tudo para trás. Como pai, fico com o coração partido ao ouvir suas histórias. Mas também vi esperança nos olhos de crianças refugiadas que aproveitaram todas as oportunidades para aprender em um ambiente seguro, crescer saudáveis e, eventualmente, reconstruir sua vida no Brasil".

Ao longo do trajeto, o ator visitou Pacaraima, Boa Vista e Manaus. Nas três cidades, conheceu as ações do UNICEF e de seus parceiros para o atendimento às crianças e aos adolescentes migrantes. Cada etapa dessa jornada é contada a seguir.

A chegada a Pacaraima, histórias de acolhida
Cruzar a fronteira em Pacaraima faz parte do trajetória da maioria dos recém-chegados. Após horas e até dias na estrada, os migrantes encontram o Posto de Triagem da Operação Acolhida – esforço conjunto das Forças Armadas, da Casa Civil, de agências da ONU e organizações da sociedade civil. Lá, recebem informações sobre pedidos de asilo e autorizações de residência, podem renovar os documentos e são vacinados, se necessário. 

UNICEF/UNI268693/Hiller
Liam Neeson dança com as crianças no Súper Panas no Posto de Triagem da Operação Acolhida.

Enquanto as famílias passam por todos os trâmites de documentação, o UNICEF e a Visão Mundial mantêm um espaço colorido e alegre para crianças serem crianças. Batizado por elas mesmas de Súper Panas – que quer dizer “super amigos” em espanhol –, o Espaço Amigável para a Infância e Adolescência oferece atividades recreativas, educativas e de apoio psicossocial, integrando os programas de educação e de proteção.  

Depois de visitar o Posto de Triagem, Liam Neeson se dirigiu ao abrigo Janokoida, casa de mais de 500 migrantes venezuelanos da etnia indígena warao. O abrigo também conta com seu Súper Panas, com um grande cartaz na porta escrito “Bem-vindo” em três idiomas: português, espanhol e warao. Em meio a desenhos, músicas e brincadeiras, meninas e meninos praticam a sua língua natal, aprendem português e têm a oportunidade de voltar à uma rotina escolar.

Após brincar com as crianças, o ator foi visitar outra frente essencial do trabalho do UNICEF: a atenção à saúde. Enquanto caminhava entre as redes entrelaçadas que compõe o abrigo, Neeson encontrou o pequeno Roderick, de 2 anos, que ia com o pai para mais uma consulta no Espaço de Saúde e Nutrição mantido pelo UNICEF e pela ONG ADRA dentro do Janokoida.

Foi aí que o ator entrou em cena. Na pequena sala colorida, celebrou os progressos na saúde do pequeno – que chegou ao Brasil em situação de má nutrição. Junto com a nutricionista, mediu, pesou, e registrou o acompanhamento do menino.

O acesso a educação, saúde e serviços básicos é fundamental para a acolhida imediata de crianças e adolescentes migrantes. Mas não é suficiente. É necessário garantir um direito essencial: a integração na comunidade de acolhida.

A vida em Boa Vista, histórias de integração
"Esta é a primeira vez que falo em inglês com alguém" foi a frase que Angie Martinez, de 19 anos, disse enquanto conversava com Liam Neeson no espaço montado pela Operação Acolhida na rodoviária de Boa Vista. A jovem venezuelana aprendeu inglês sozinha, pela internet, enquanto ainda vivia em seu país, mas nunca havia tido a oportunidade de praticar o idioma. Recém-chegada ao Brasil, em meio à adaptação e ao processo de integração, agora procura aprender português. 

Como milhares de meninas e meninos venezuelanos, Angie cruzou a fronteira terrestre em Pacaraima e chegou à rodoviária de Boa Vista. Com o grande fluxo migratório, a cidade passou a ter um espaço de acolhimento dentro da rodoviária, em que os migrantes podem tomar banho, dormir e comer.

Liam Neeson olha para uma criança que está sendo medida. Ao lado dele, na frente da criança, está uma mulher.
UNICEF/UNI268682/Hiller
Liam Neeson ajuda com a medição do pequeno Roderick Alcantara.

Além dele, Boa Vista conta com 11 abrigos da Operação Acolhida para crianças, adolescentes e suas famílias – todos com presença do UNICEF. Neeson esteve no abrigo Rondon 3, onde atualmente vivem mais de mil pessoas, metade delas, crianças. Ao chegar, bateu à porta da tenda da migrante venezuelana Jenny Perez, que o recebeu com um grande sorriso. Mãe do pequeno Luiferbeth, de 2 meses, ela mostrou, orgulhosa, sua nova morada, cheia de desenhos, um berço, cortinas e brinquedos. Como contou ao ator, Jenny pensou em cada detalhe. Era como estar em casa, mesmo longe de casa.

UNICEF/UNI268697/Hiller
Liam Neeson visitou a nova morada de Jenny Perez.

Contribuir para esse sentimento de pertencimento no novo país é um dos objetivos do UNICEF. Em cada abrigo, há um esforço para fazer com que crianças e adolescentes migrantes se sintam acolhidos, integrados e possam exercer seus direitos no Brasil. O conjunto de ações inclui educação, serviços de proteção à infância e à adolescência, e ações de saúde e nutrição, água, serviços de higiene e saneamento (WASH).

A interiorização, histórias de esperança
O último passo do processo de integração de muitos dos migrantes é a interiorização – realocação para outras cidades brasileiras. Em Boa Vista, Liam Neeson visitou o abrigo Rondon 2, onde vivem migrantes que estão esperando por esse processo. Na manhã em que o ator esteve lá, Paula Érica Martinez se arrumava para o grande evento da noite: em apenas algumas horas, ela, o marido e os filhos partiriam para São Paulo. Ansiosa, a jovem disse a Neeson que aquele era um passo importante para a família, era o começo de uma vida nova.

UNICEF/BRZ/Erico Hiller
Paula Érica Martinez se prepara para a mudança para São Paulo.

Essa nova vida já é realidade para muitos migrantes em diferentes cidades do Brasil. Para finalizar a visita, Neeson foi a Manaus conhecer Ulise Garcia, Carlos Alnardo e Wilfredo Lopez. No Brasil há mais de um ano, eles se estabeleceram na cidade e abriram uma barbearia. Hoje, junto com suas famílias, já estão criando raízes no país que os acolheu.

UNICEF/UNI270704/Hiller
Ulise, Carlos e Wilfredo em sua barbearia.

As histórias de cada migrante que Neeson conheceu são parte de uma realidade que permeia a América Latina e o Caribe desde o início da crise migratória venezuelana. Só ao Brasil já chegaram mais de 220 mil venezuelanos. Desses, estima-se que 30% sejam crianças e adolescentes.

Como o embaixador descobriu em seus quatro dias no País, cada menina, cada menino migrante carrega consigo uma história de desafios e privações, mas também de acolhida, integração e esperança. Nas palavras de Liam Neeson: "Durante minha visita ao Brasil, vi o poder da união de adolescentes venezuelanos e brasileiros. A amizade deles é um sinal de esperança para o futuro dos refugiados e migrantes venezuelanos e das comunidades locais". Que esse esforço conjunto contribua para garantir os direitos de cada criança e adolescente, sem exceção.


Você também pode ajudar o UNICEF em suas ações de emergência no Brasil e no mundo.