“Ter um espaço para a gente falar e ser ouvido”

A pandemia afetou os planos de estudo e trabalho de Geovana. Nesse momento, foi muito importante poder interagir e se engajar com outros jovens no projeto Geração que Move

UNICEF Brasil
01 junho 2021
A pandemia afetou os planos de estudo e trabalho de Geovana. Nesse momento, foi muito importante poder interagir e se engajar com outros jovens no projeto Geração que Move. Na foto, Geovana olha para a câmera. Ela usa a camiseta do projeto.
Arquivo pessoal – Geovana Nogueira

“Fiquei com muito medo de tirar uma nota ruim no Enem, então achei melhor nem tentar”, afirma Geovana Nogueira, 18 anos, jovem paulista, moradora de Jardim Ângela. Ela cursou o ensino fundamental em escola municipal de sua região e o ensino médio no Colégio Friburgo, instituição particular, na qual ingressou como bolsista. “Fui para lá porque eu queria ter uma formação melhor para cursar o que eu desejo”. Seu sonho é se graduar em Direito e atuar como desembargadora.

No começo, foi difícil acompanhar as aulas na nova escola, mas logo superou as dificuldades com extrema dedicação. O último ano, contudo, foi atravessado pela pandemia da Covid-19, que exigiu a conclusão dos estudos por meio do ensino remoto. “O ensino a distância da escola foi consideravelmente bom, mas depois de um tempo eu fiquei desanimada, parei de assistir às aulas... É muito ruim assistir à aula em casa, me desconcentro, não consigo prestar atenção, o corpo está distante e a cabeça vai junto”, reflete Geovana com certa tristeza por ver frustrados seus planos de estar hoje na faculdade.

Geovana mora com a mãe, o padrasto e dois irmãos mais novos. Divide o quarto com um dos irmãos, o que dificulta sua concentração. Embora tenha um smartphone e conexão banda larga em casa, a falta de um computador a obrigou a fazer os exercícios escolares em caderno e acessar todos os conteúdos pedagógicos pela tela pequena. “É difícil usar o Word e o PowerPoint do celular”, afirma ela, que precisava escrever tudo à mão e fotografar cada página do caderno para enviar à escola.

A quarentena imposta pelo novo coronavírus também afetou a rotina e a atuação profissional da jovem. “Eu tinha uma rotina super agitada, não tinha tempo de voltar para casa, ficava a semana toda fora, só tinha domingo para sair... Agora não faço mais nada, fiquei triste, entediada. O que mais senti falta foi do trabalho, tinha acabado de entrar, estava gostando muito”, afirma Geovana. Ela tinha conquistado recentemente uma vaga como jovem aprendiz e, com a mudança das atividades para a modalidade online, mal conseguiu seguir a atuação na empresa. No próximo mês encerra o contrato e recomeça a busca por um novo emprego – seu foco hoje é conseguir uma vaga como assistente administrativo.

Além do estudo e do trabalho, Geovana faz questão de ter uma atuação social. “Quando eu vi a oportunidade de entrar no Geramove, me inscrevi logo. Fiquei toda feliz quando vi meu nome entre os selecionados!”, conta entusiasmada sobre o projeto Geração que Move, iniciativa do UNICEF, da Fundação Abertis e da Arteris, em parceria técnica com a Viração, em São Paulo.

Para Geovana, o projeto proporcionou um ambiente de acolhimento fundamental nesse período, permitiu o contato com temas que a afetam no cotidiano e, principalmente, abriu um espaço para ser escutada e para conhecer visões de mundo de outros jovens.

“O Geramove foi muito importante pra mim. Ouvir a opinião de outros jovens, ter um espaço pra gente falar sobre o que pensa, saber que a gente é ouvido é surreal. Discutimos assuntos necessários sobre os quais não temos oportunidade de falar no dia a dia”

Geovana Nogueira, 18 anos, São Paulo

Entre os debates que mais tocaram Geovana, estão os que trataram de racismo e violência contra mulheres e jovens.

Na etapa final do projeto, Geovana implementou uma ação de formação audiovisual para adolescentes e jovens de seu território. “Na quebrada, existe pouco de tudo, muito menos audiovisual. Então a gente está fazendo esse projeto para abrir um espaço para incentivar e mostrar os talentos daqui”, conta, explicando que as oficinas terão como produto documentários sobre o território a partir das memórias dos moradores. Geovana planeja seguir a ideia, buscando financiamento com seu parceiro por meio de editais públicos.