“Tenho um papel no lugar onde moro”

Moradora da zona norte do Rio de Janeiro, a adolescente Raissa Reis descobriu uma nova relação com seu território

UNICEF Brasil
Raissa e um jovem participante do projeto Geração que Move
UNICEF
18 fevereiro 2021

“Falta assistência onde eu moro. Não tem por exemplo ginecologista no serviço público”, afirma Raissa Reis, 17 anos, nascida e criada na comunidade de Pára-Pedro, em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro. As barreiras de acesso a serviços públicos básicos somadas às dificuldades financeiras da família impulsionaram Raíssa a começar a fazer pequenos trabalhos aos 12 anos. 

“Comecei fazendo trufas e vendendo na escola, na igreja, depois trabalhei com várias outras coisas. Fui ganhando um dinheiro para comprar as minhas coisas”, lembra ela, e completa com orgulho que, nos últimos anos, passou a contribuir também com as despesas da casa, o que a fez se reaproximar da família. “Agora minha meta é trabalhar de carteira assinada”, afirma. Seu objetivo é juntar recursos para montar a própria casa no bairro de Miguel Couto, Baixada Fluminense.  

Raíssa mora atualmente com a mãe, a avó, quatro irmãos e uma irmã. O pai faleceu quando era criança e a mãe assumiu a renda familiar. “Aos 9, 10 anos, foi um período em que minha mãe trabalhava muito e ficava cansada demais, nunca tinha tempo... eu não tinha espaço para compartilhar meus problemas, não tinha esse suporte, então acabei me fechando, e até hoje tenho dificuldade de expressão”, lamenta ela. A avó tampouco era presente por questões de saúde; e a irmã mais velha casou cedo.  

A ausência cotidiana das mulheres em casa colocou Raíssa em um lugar de desconforto no próprio lar, marcado pelo machismo. “Espera-se que a mulher faça as coisas de casa, os homens ficam descansando... eu não queria ficar em casa pra não ter que ficar trabalhando, então passava o dia todo na rua”. A falta de acolhimento ampliou a exposição da jovem a violências e afastou-a da escola. “Era para eu estar no terceiro ano do Ensino Médio, mas acabei me atrasando... A gente fica todo dia a mercê de uma escolha, e antes eu não decidia bem. A gente se sabotava”, relembra. A busca espiritual foi o principal motor encontrado por Raíssa para retomar os estudos e fazer outras escolhas de vida. 

Este ano, diante da necessidade de quarentena imposta pelo coronavírus, Raíssa percebe que a família mudou e se aproximou. “Eu passei a ficar mais em casa então tive que me forçar a lidar com as questões da família. No começo da quarentena foi obrigação, agora eu fico contente porque vejo que a pandemia não trouxe só coisas ruins”, reconhece.   

Para atravessar a quarentena, também foi importante a participação de Raíssa na iniciativa Geração que Move, promovida pelo UNICEF em parceria com a Fundação Abertis, a Arteris e Agência Redes para Juventude, no Rio. As atividades do projeto têm contribuído para ela rever seu olhar sobre sua própria trajetória.  

“No Geramove a gente tem incentivo para construir e partilhar a narrativa sobre a própria vida. Isso faz a gente entender como o jovem cresce nesse ambiente de periferia e ajuda a gente a resistir. Eu acho muito importante as pessoas saberem o que eu passei porque eu também precisei de outras pessoas falando sobre suas experiências para conseguir sair dessa, para fazer outras escolhas”.  

As formações oferecidas pelo projeto também despertaram em Raíssa o ativismo e o sentimento de pertencimento ao seu território. “No Geramove, consegui entender qual é meu papel aqui, entendi que eu tenho um papel. Antes eu não dava muito valor pro meu lugar, eu achava que era um lugar pouco importante”, reflete ela e conclui: “aprendi que é importante a união das pessoas”.   

Essa experiência de participação cidadã dos jovens reforçou o projeto de vida de Raíssa. “Eu tenho vários sonhos, mas tem um que eu não quero desistir: me formar em Direito. Eu acho uma profissão muito essencial porque as pessoas precisam de ajuda para reivindicar seus direitos”. A jovem sonha também em graduar-se em Psicologia, função que percebe como fundamental para o desenvolvimento humano e para a qual tem talento. “Sempre estive envolvida com ações de ajudar as pessoas, na igreja, na escola, por onde eu passei, e é esse o caminho que eu quero seguir.”