“Só quem pode ditar sua realidade é você”, diz a monitora Larissa, em Boa Vista

Ela faz parte do projeto Geração em Movimento e trabalha para que crianças e adolescentes em Roraima, migrantes e brasileiros, tenham uma trajetória menos sofrida do que a sua

UNICEF Brasil
Larissa olha para a câmera sorrindo. Ela usa uma blusa amarela estampada e um colar. Ela está no interior de um edifício.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

17 dezembro 2019

“Meu nome é Larissa e, desde muito pequena, entendi o que sente uma criança que chega a um lugar que não é o dela. Hoje, aos 20 anos, trabalho com o Coletivo Mosaico e com o UNICEF no projeto Geração em Movimento (G-Move) para garantir que nenhum adolescente migrante que vive em minha cidade, Boa Vista (RR), precise sentir o que eu senti e para que eles, assim como fiz, aprendam a romper com a realidade dura que muitas vezes nos é imposta, seja pela pobreza, cor de pele, sexualidade ou nacionalidade.

Nasci sem a presença do meu pai e, quando tinha 4 anos, minha mãe teve que mudar de cidade para fazer um tratamento contra o câncer. Como não tinha condições de levar meu irmão e eu, nós fomos separados na casa de parentes. Viver na casa de outras pessoas é bom no primeiro, segundo, terceiro dia, depois começa a ser “punk” porque a casa dos outros não é nosso lar. O dia mais feliz da minha vida foi quando minha mãe ligou dizendo que estava voltando para Boa Vista curada. Lembro que voltei para casa, mas mesmo assim nossa vida não se estabilizou porque não tínhamos muito dinheiro.

Nesse período, eu não estava indo para a escola, mas encontrei minha primeira forma de romper com a realidade que me era imposta: desenhar. Um pacote de lápis de colorir, hidrocor e um caderno conseguiam me fazer escapar daquela realidade. Eu sonhava em estudar, conversava com minhas amigas perguntando sobre como eram as aulas, mas foi só aos 7 anos que fui para a escola pela primeira vez. Lembro que, quando cheguei à sala, não entendia nada. Seguia o desenho das vogais e consoantes, mas não sabia o que significavam. Ninguém nunca se preocupou em parar e me perguntar ‘Larissa, por que você não sabe juntar as letrinhas?’.

foto mostra as mãos e parte do cabelo de Larissa. Ela está desenhando um papel, reproduzindo o logo do projeto Geração em Movimento.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

A minha segunda fuga conheci já no final da adolescência. A arte é a minha paixão, mas foi na educação que encontrei minha vocação. Ainda na escola participei de um projeto incrível feito pela minha professora de português, em que eram ministradas aulas de pintura. Quando o pintor que atuava como professor saiu, uma amiga e eu assumimos o comando e tudo que aprendemos ensinávamos para os outros alunos. Tenho muito orgulho disso e acho que foi aí que comecei a pensar em ser professora.

Hoje, estudo geografia e me dedico o máximo para levar os conteúdos da melhor forma que posso aos alunos. Quero fazer diferente e melhor do que vivi na maior parte da minha vida escolar. Nos estágios, me identifico muito com o sentimento que alguns alunos venezuelanos das escolas públicas relatam. Na faculdade estudamos muito sobre globalização, crises econômicas e políticas, mas viver isso é diferente. Meu primeiro emprego foi como garçonete em uma pizzaria nos fins de semana, e lá passei por um episódio de xenofobia com um cliente que achou que eu era venezuelana. Entre as coisas que ele me disse, chegou a afirmar que eu era uma ‘pessoa baixa’ e que nunca seria nada na vida. Ele não sabia minha história, não sabia que eu sou professora, que faço faculdade, não sabia que eu estava ali trabalhando para ter dinheiro para o ônibus. Não se preocupou em saber quem eu era, independente de eu ser migrante ou não.

As pessoas podem dizer que você nunca vai conseguir, que você não é capaz, mas a única pessoa que pode lhe impor uma realidade é você mesmo. Eu sou sim pobre, não tenho casa, eu não tenho carro, não tenho nada, mas sei que posso conquistar tudo.

Larissa está de costas para a câmera e de frente para vários adolescentes que estão sentados em roda. Os adolescentes estão desfocados. Larissa usa uma camiseta preta com os logos do UNICEF e seu parceiro Coletivo Mosaico
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

Transformando realidades
A prova disso é que hoje nossa vida passou por mudanças muito grandes. Minha mãe está terminando a faculdade de nutrição, meu irmão está estudando direito e gestão empresarial e eu estou terminando a faculdade de geografia. Você vê a diferença enorme? A nossa família nunca teve um diploma. Nós estamos levando os primeiros. Estamos tentando mudar a nossa realidade e é essa reflexão que tentamos fazer com os alunos migrantes no Geração em Movimento.

Acho que o que estamos fazendo nas escolas é incrível porque esses diálogos não existem. Ninguém ouve a voz dos alunos, pergunta aos adolescentes ‘quem é você? Qual a sua história? O que vocês gostam de fazer? Sobre o que querem debater, conversar?’. Eu quebrei o sistema e, se essas meninas e esses meninos começam a perceber o quanto eles são importantes e o poder que eles têm nas mãos, eles também podem.

Eu vim de um projeto escolar e isso mudou a minha vida e sei que o G-Move também vai mudar a deles. No começo, alunos brasileiros e venezuelanos não conversavam porque existiam barreiras muito fortes, mas agora eles já falam, perguntam, têm curiosidade. Eles podem se abrir comigo, mas também com os colegas, falar as opiniões. Ainda existem barreiras para desconstruir, mas estamos trabalhando nisso da forma correta. Eu não quero 30 adolescentes chorando por conta dos problemas comigo, eu quero 30 meninos e meninas construindo algo e pensando como a gente pode melhorar nossa vida e ajudar os outros”.

O G-Move – O Geração em Movimento é um projeto desenvolvido pelo UNICEF em parceria com o Coletivo Mosaico e o Instituto Federal de Roraima. Criando em 2019, as ações visam mobilizar e integrar adolescentes brasileiros e migrantes que frequentam 24 escolas públicas da capital Boa Vista. Por meio de oficinas, atividades multiculturais e esportivas, capacitações profissionais e educação entre pares, os alunos são convidados a refletir sobre questões relevantes e atuais para a juventude, como migração, preconceito, xenofobia, gênero, sexualidade, políticas sociais, empreendedorismo, tecnologia e protagonismo juvenil.


Conheça o trabalho do UNICEF Brasil pelas crianças e pelos adolescentes migrantes venezuelanos.


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