Reconhecer e recomeçar

João Marcos Batista, de Manaus, vive com HIV há 10 anos e busca impulsionar o potencial jovem e o autocuidado na luta contra a aids

UNICEF Brasil
Foto mostra um jovem apoiado em um peitoril. Ele olha para a câmera sorrindo. Ao fundo, está a Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional em Brasília.
UNICEF/BRZ/César Tadeu
01 dezembro 2021

“Reconhecer e recomeçar é uma frase que me define bastante”, diz João Marcos Batista, de 26 anos. “Sou um jovem periférico amazônico que tem como pilar sempre acreditar em uma transformação social. Eu sempre acreditei que poderia ser o protagonista da minha história, e foi assim que transformei as minhas dores em fortalecimento”, completa. Há 10 anos, João vive com o HIV, algo que mudou a sua vida e o levou a entrar no movimento de luta contra a aids. Para contribuir com suas experiências, o jovem participou do encontro nacional Se Liga Jovem+, promovido pelo UNICEF, por meio do programa Viva Melhor Sabendo Jovem. O encontro foi realizado em novembro, em Brasília, e teve como foco discutir ações de resposta para o HIV.

O caminho até o encontro foi longo. Aos 15 anos, por conta de uma reportagem sobre o tema, João decidiu realizar a testagem para o HIV. “Fui fazer o teste, e deu positivo. Em 2010 existia muito a psicologia do terror. Principalmente quando se tratava de jovens ou adolescentes, eles ainda eram culpabilizados”, afirma. Naquele momento, ele enfrentou desafios como o preconceito da própria família, e, aos 18 anos, entrou em um estado de depressão. “Foi aí que fui entender o que era o HIV, que era algo grave e que eu precisava me cuidar”, lembra.

As coisas começaram a mudar quando, por meio do seu padrinho, ele conheceu e entrou para uma formação sobre saúde do adolescente. “Fui conhecendo e me transformei em um jovem multiplicador”, diz João. “Eu pensei que essas pessoas estavam lá, lutando por uma causa justa, uma sociedade diferente, e descobri que era isso que queria para minha vida”, conta. A partir daí, o jovem começou a sua luta pelo acesso à informação sobre o HIV/aids, contra o preconceito e para promover o autocuidado em adolescentes e jovens.

Foto mostra um jovem em frente a um flipchart falando em um microfone. Ele usa máscara e óculos.
UNICEF/BRZ/César Tadeu

Potencial e autocuidado
Com o passar do tempo, João apenas se fortaleceu. Decidiu cursar Serviço Social, entrou para a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens vivendo com HIV, e trabalhou como educador social: de formando passou a ser formador. Atualmente, ele também atua como coordenador da Rede Estadual de Adolescentes e Jovens vivendo com HIV e Aids do Amazonas.

Nascido e criado na comunidade Riacho Doce, em Manaus, durante a sua participação no seminário Se Liga Jovem+, João compartilhou suas experiências no Amazonas e levou a reflexão de como é possível que informação, políticas públicas e prevenção sejam adaptadas para a realidade desse território. “Por ser um jovem de periferia, eu não tive acesso à informação. Uma coisa é a informação existir, outra é chegar e ser entendida”, diz. “Temos que pensar nesses aspectos. Vamos buscar as estratégias pós-covid, e trazer experiências de antes. Vamos pensar a divulgação para adolescentes e jovens vivendo com HIV”, explica.

Além disso, todas as oportunidades que João teve dentro desses espaços têm transformado a sua família, quebrando o preconceito e os incentivando a, também, buscar os seus próprios caminhos. Vendo João ter voz e uma educação, ele conta que a mãe e os irmãos também decidiram seguir estudando. “Minha mãe parou de estudar na sexta série, e em 2018 voltou a estudar. Eu estou na reta final da faculdade, então isso inspirou ela e meus dois irmãos para que concluíssem o ensino médio juntos, e provavelmente vão entrar ano que vem juntos para a faculdade”, celebra.

Para ele, uma das mensagens mais importantes que destaca de sua história, além do poder da educação, é a do amor próprio, o qual aprendeu a cultivar a partir das oportunidades que teve e segue tendo. Por isso, deixa a mensagem: “Quando você entende seu amor próprio, você começa a pensar em si. Pegar o medicamento e colocar na boca, é um ato simbólico muito grande. É um compromisso individual com a nossa saúde”, diz. “Então a primeira coisa é olhar para si e dizer que se aceita, que se ama, porque é um processo que é doloroso, mas é possível”.