“Passei a ter orgulho da minha ancestralidade”

Moradora de Peruíbe, Nauany Pótu-Coereguá superou a dificuldade de acesso à internet e à escola e foi aprovada no vestibular de medicina

UNICEF Brasil
Foto mostra uma jovem olhando para o lado. Ela tem pinturas indígenas no rosto.
UNICEF/BRZ/Fabio Hirata
03 setembro 2021

O sinal de telecomunicações é limitado na Aldeia Bananal, zona rural de Peruíbe, onde Nauany Pótu-Coereguá Gomes Pires, hoje com 18 anos, mora com os pais e dois irmãos mais novos. Filha de educadora, ela conta que praticamente nasceu dentro da escola da aldeia. Fez ensino infantil e uma parte do ensino fundamental tendo a mãe e os tios como professores, todos também moradores da comunidade indígena mais antiga da Baixada Santista.

Aos 11 anos, para dar seguimento à educação e cursar o ensino fundamental, a garota indígena da etnia tupi embarcou numa jornada diária de 1h30 de transporte até a escola, localizada na região urbana de Peruíbe. Nesse período, ela, que ainda era uma criança, precisou se adaptar a uma modalidade de educação que não incluía aula de língua indígena, de caça, pesca e artesanato e, o mais difícil, o constante preconceito por suas origens indígenas.

“Para uma criança de 11 anos era difícil. Eu tinha vergonha e parei de usar colar e brincos. Hoje eu penso diferente. Cursei ensino integral na escola técnica e lá eles cultivavam a diversidade. Daí eu me reencontrei e passei a ter muito orgulho da minha ancestralidade, das minhas raízes e fui me recuperando”, conta.

Em sua trajetória, foram muitos os momentos em que Nauany precisou ser resiliente para continuar estudando, tendo que driblar as dificuldades de acesso à internet, subindo morros ou ficando em pé no meio da estrada, além da distância da aldeia até a cidade. Mas ela não desistiu, pois entende a educação como uma oportunidade para que crianças, adolescentes e jovens se desenvolvam e estejam protegidos das diversas formas de violência.

O incentivo à educação é um dos focos da iniciativa Crescer com Proteção realizada pelo UNICEF, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Agenda Pública e o Instituto Camará Calunga, em oito municípios da Baixada Santista e do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo: Cananéia, Ilha Comprida, Iguape, Itanhaém, Mongaguá, Praia Grande, São Vicente e Peruíbe, onde Nauany vive. O objetivo é fortalecer a prevenção e o enfrentamento das diversas formas de violência contra crianças e adolescentes por meio do incentivo à educação, à inclusão de meninas e meninos no mercado de trabalho e à participação dos adolescentes e jovens na construção de políticas públicas.

Transformar a vida das pessoas é um sonho que Nauany nutre desde pequena. Inspirada no exemplo do avô, que era cacique e pajé da aldeia, a menina decidiu que seria médica para ajudar a comunidade. E não é para menos que a alegria parece transbordar de um coração acelerado quando ela comenta sua aprovação no vestibular de medicina.

“Eu me vejo como uma pessoa que pode fazer a mudança; me enxergo como uma peça fundamental na sociedade, como alguém que pode levar ideias, acrescentar e fazer a diferença.”

Nauany Pótu-Coereguá, 18 anos, Aldeia Bananal, Peruíbe, São Paulo

Ao longo de sua trajetória, a jovem de 18 anos conta que se moldou e remodelou, num constante processo de evolução, o que inclui sua jornada como mobilizadora da iniciativa Crescer com Proteção. Ela e outros adolescentes e jovens criaram os Núcleos de Cidadania de Adolescentes e Jovens (Nucas) em cada uma das oito cidades participantes da iniciativa e estão repassando o que aprenderam para cerca de 96 meninas e meninos da região.

Com a criação do Nuca de Peruíbe, Nauany apoiou os participantes na tomada de consciência sobre seus direitos e na elaboração de um posicionamento sobre diversas formas de violência. Junto, o grupo identificou a falta de acesso à cultura, à arte, ao esporte e ao lazer como um desafio a ser enfrentado e buscou parcerias com a gestão pública para solucionar essa questão. A primeira ação foi a criação de uma biblioteca virtual que disponibiliza livros gratuitos e de domínio público para os moradores da cidade. A intenção é trabalhar a literatura como forma de expandir o acesso dos jovens à cultura e ao conhecimento.

“Esse foi um projeto que construímos juntos em prol dos adolescentes e jovens, de nossos direitos, de nós mesmos. Entendi que não posso levantar a bandeira da juventude sozinha, porque a juventude não é uma coisa só. Mas eu estou dentro dessa bandeira. Eu sozinha não represento a juventude, mas as juventudes me representam. E eu sou alguém que quer lutar pelos nossos direitos”, finaliza.