“O que mais gosto no Brasil são as aulas de futebol”

O esporte é uma importante ferramenta usada pelo UNICEF e a Visão Mundial para recuperação emocional, desenvolvimento de habilidades e integração de crianças e adolescentes migrantes, como Vitória Malave, 10 anos.

UNICEF Brasil
menina com uniforme de futebol está em posição de goleira na frente do gol. o campo é de terra. atrás da trave há um banner do unicef.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

20 março 2019

Vitória Malave carrega no nome a vontade de vencer. No Brasil desde outubro de 2018, a venezuelana de 10 anos encontrou no País uma nova paixão: o futebol. É no projeto esportivo apoiado pelo UNICEF e parceiros que Vitória aprende, apesar do pouco tamanho, a ser gigante entre as traves do gol. “Eu me apaixonei pelo futebol e ouvi falar que o Brasil é o melhor do mundo, então estou no lugar certo”.

Cerca de 100 crianças e adolescentes venezuelanos e brasileiros participam das aulas no campo improvisado no fundo da Rodoviária Internacional de Boa Vista. O projeto foi criado pelo ex-jogador da seleção venezuelana de futebol Luis Carlos Madrid. As Forças Armadas brasileiras ajudaram a organizar o espaço, e o UNICEF, em parceria com a ONG Visão Mundial, financia as práticas e os jogos que ocorrem cinco vezes por semana.

Os treinos de Vitória e do time começam com uma curta aventura na caminhada do abrigo em que vivem até o campo de futebol, sempre acompanhados pelo professor. Nem o intenso sol de Boa Vista desanima o grupo. “O sol é muito forte, mas quando estamos jogando a gente se distrai e não percebe”, explica a menina. Equipada com chuteira, caneleira e meião, Vitória não se intimida em um meio dominado pelos meninos. “Não desisto porque estou aprendendo e é isso que importa”.

A venezuelana costumava praticar esportes na escola e brincar na rua de casa com os amigos em Puerto La Cruz, cidade venezuelana em que vivia. No Brasil, ela mora em um abrigo para imigrantes com o pai e a mãe, que está grávida. A mudança é vista por Vitória com um sentimento de honra. “Mudamos da Venezuela para cuidar do meu irmãozinho que ainda vai nascer”.

Embora a menina explique a transição dessa forma, a mãe, Kelly Bonilla, 35 anos, conta que Vitória foi o motivo da migração. “Estávamos passando fome na Venezuela e chegou um dia em que não tínhamos o que dar de comer para ela”. Para mudar de país, a família vendeu carro, casa e uma loja, mas a hiperinflação enfrentada pela Venezuela acabou com quase todo o dinheiro. Quando chegaram à fronteira com o Brasil, não tinham praticamente nada.

menina chuta bola de futebol. ela está vestida com um uniforme amarelo e o campo é de terra
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

Um porto seguro no esporte
Depois de um período difícil de adaptação, Kelly ficou feliz quando a filha encontrou, nos amigos do futebol, um novo porto seguro. “Quando chegamos ao Brasil, ela ficou um pouco triste, chorava com saudade das amigas. Mas, quando viemos para o abrigo e ela viu que tinha uma equipe de futebol, ficou feliz e conseguiu fazer novos amigos. Ela é apaixonada pelo futebol”, conta a mãe.

Com os pais ocupados buscando trabalho no Brasil, as oportunidades para conhecer a cidade de Boa Vista, nova morada de Vitória, são poucas. Por isso, as idas ao campo de terra são tão valiosas para a futebolista, que faz planos para um futuro cheio de aventuras. “Quando crescer, quero ser aeromoça. Nunca voei de avião, mas não tenho medo. Gostaria de ver o mundo inteiro de cima”.

A coragem da menina contagia toda a família. Desde o final de janeiro de 2019, Vitória retomou os estudos, agora no Brasil. No primeiro dia de aula, ao perceber que a filha era a única venezuelana em uma turma de crianças brasileiras, Kelly conta que ficou com o coração apertado. “Antes de ir embora, ela me falou: ‘mãe, fica tranquila. Eu sou valente e sei me defender’. E como sei que ela aprende muito rápido e faz amigos com facilidade, fiquei tranquila”.

menina olha para a câmera através da rede do gol. ela veste um uniforme amarelo. o campo é de terra.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

Para cada criança
O esporte é uma importante ferramenta usada pelo UNICEF e pela Visão Mundial para a recuperação emocional, o desenvolvimento de habilidades e a integração de crianças e adolescentes migrantes com a comunidade local. No projeto de futebol do professor Madrid, são atendidos meninos e meninas que vivem em quatro abrigos da região; brasileiros e venezuelanos moradores do bairro no entorno e que vivem em situação de rua.

Além do futebol, Vitória também fez parte da estratégia do UNICEF de inclusão de crianças e adolescentes venezuelanos que vivem em abrigos de Roraima na educação formal. Nos meses de dezembro de 2018 e janeiro de 2019, desenvolveu-se uma estratégia de busca ativa que garantiu a matrícula de quase 700 meninas e meninos em escolas públicas.