Juntos novamente: Juana reencontra seus netos

Com a ajuda do UNICEF, Juana obteve a guarda dos quatro netos e recebe hoje uma transferência de renda para famílias de refugiados e migrantes reunificados

UNICEF Brasil
Foto mostra uma mulher rodeada de quatro crianças. Estão em pé em frente de uma casa.
Arquivo pessoal
23 abril 2021

"Eles estavam sem comida, sem sapatos, sem roupas... Não tinham nada". Eram nessas condições que se encontravam os quatro netos da venezuelana Juana de La Luz, na cidade de Pacaraima, cidade no extremo norte do País, na fronteira com a Venezuela. Foi uma angustiante jornada até o reencontro.

Com suas três filhas vivendo no Brasil, Juana sabia que não demoraria até ela também tomar a decisão e entrar nas estatísticas dos mais de 5,4 milhões de pessoas que deixaram a Venezuela por causa da crise no país. O motivo apareceu quando, no início de 2020, uma delas anunciou a gravidez do seu primeiro filho. Juana, prontamente, fez as malas e saiu da sua cidade Maracay, na Venezuela, rumo a Manaus, um longo trajeto de mais de 2.300 quilômetros.

A vontade de estar próxima da filha e dos netos, assim como a busca por melhores condições de vida, levaram Juana a cruzar a fronteira, mas a mudança seria mais dura que o esperado, para além das privações da viagem: logo após o nascimento de seu neto, a filha de Juana faleceu. O neto, ainda recém-nascido, foi morar com o pai e ela se viu sozinha novamente.

Ao mesmo tempo, a aproximadamente 15 horas de distância, na cidade de Pacaraima, a família sofria outro grande revés. Quatro de seus netos se encontravam sozinhos. A situação ali estava bastante complicada. O pai das crianças tinha morrido não havia muito tempo e a mãe, que sofre por questões relacionadas à saúde mental, acabou abandonando os filhos. Felizmente, uma vizinha escutou o choro das crianças e, logo, conseguiu contatar Juana, em Manaus.

Quando recebeu essa notícia, Juana não teve dúvidas: fechou o seu pequeno comércio de venda ambulante em Manaus e embarcou na viagem de ônibus ao encontro das crianças.

A reunificação familiar foi um momento de alívio e de alegria. Eliezer Moses (11), Eliazar Jesús (5), Ezequiel Eduardo (9) e Luissanny Betzabé (10) agora estavam sob os cuidados da avó.

"A minha avó é muito carinhosa e cuida muito da gente", conta Luissanny, hoje já na nova casa, na capital do Amazonas.

Mas a felicidade da reunificação logo trouxe novos desafios. O primeiro deles: regularizar a guarda das crianças. Foi então que, mais uma vez, Juana, agora com os quatro netos, fez as malas rumo a Boa Vista, capital de Roraima. Na cidade, dirigiu-se ao Posto de Interiorização e Triagem da Operação Acolhida em busca de informações. Logo, a família foi identificada pela equipe de Proteção à Infância do UNICEF, em parceria com a AVSI Brasil, e pôde receber todo o apoio para processos jurídicos para regularizar a guarda dos netos.

Documentação em mãos e outro desafio pela frente. Juana agora precisa cuidar de quatro crianças. Para isso, recebeu um cartão que lhe dá direito a uma transferência de renda mensal para complementar as finanças da família pelos primeiros três meses após a reunificação (renováveis por mais três a depender da situação).

"Está sendo de muita ajuda, porque nós não tínhamos dinheiro para alimentação e o que eu ganho é muito pouco para nós cinco. Se não fosse por esse cartão, estaríamos passando por muito mais dificuldades", conta Juana, 63 anos, para quem a recente reunificação com os netos foi mais um na lista de episódios desafiadores em sua vida – incluindo a chegada ao Brasil.

Foto mostra uma mulher rodeada de quatro crianças. Estão sentados dentro de uma casa. A mulher segura um cartão na mão.
Arquivo pessoal

Mudança

"Eu tenho a responsabilidade pelos meus netos e cuido muito bem deles. Eles são tranquilos, educados e estudiosos. Estão estudando e aprendendo português", conta.

Juana gosta do Brasil e pretende ficar. Trabalha vendendo água, sucos, lanches e doces em frente à sua casa, e o cartão com apoio financeiro tem ajudado nas compras de comida para complementação da alimentação das crianças. "Eliazar é o menor dos netos, mas já é o que mais come", brinca a avó.

Hoje, a maior aspiração de Juana é que as crianças trilhem um caminho mais seguro que o seu.

"Quero vê-los estudando e se preparando para a vida. Eles são muito inteligentes e espero que sempre tenham o interesse em aprender, ler e estudar. Aqui em casa temos livros sobre a história de Manaus e a cultura indígena. Eles precisam continuar aprendendo. Um deles quer ser médico, o outro, engenheiro, e a outra, advogada. Eles querem e podem ser alguém na vida", deseja a avó.

Sobre o programa de transferência monetária para reunificação familiar do UNICEF
A crise econômica intensificada pela pandemia rompeu os frágeis laços de crianças e adolescentes que tinham acabado de se reunir com as suas famílias. Houve um aumento no número de meninas e meninos desacompanhados – isto é, separados dos pais e sem tutela de um adulto – em Boa Vista e no interior do Brasil.

O UNICEF atua de forma preventiva com o monitoramento da situação dessas crianças e desses adolescentes, o que inclui programa de transferência de renda para aqueles reunificados e em risco de ficar desacompanhados. As famílias contempladas passam por um processo de triagem, que busca entender a situação da família e orientar sobre o uso dos recursos, que devem ser voltado para garantir a saúde, a educação e a alimentação de meninas e meninos. O UNICEF e seus parceiros fazem um acompanhamento quinzenal dessas famílias por meio de psicólogos e assistentes sociais que conversam com os cuidadores e com as crianças e os adolescentes.

O projeto é liderado pelo UNICEF com financiamento do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (Echo, na sigla em inglês).

Nos dois primeiro meses de 2021, 102 crianças e adolescentes receberam o benefício financiado pelo Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia, alcançando indiretamente 510 pessoas que convivem com eles.