“Este amparo é fundamental para prevenir a contaminação”

UNICEF e Águas de Manaus doam kits de prevenção à Covid-19 para comunidades indígenas e ribeirinhas na capital do Amazonas

UNICEF Brasil
Uma mulher usando máscara está em pé entre uma menina e um menino em uma clareira, com árvores atrás; o menino segura uma sacola plástica com produtos de higiene e o logo do UNICEF e da Águas de Manaus.
UNICEF/BRZ/Juliana Pesqueira
05 abril 2021

Jucirene Brás dos Santos é indígena do povo kokama e tem 11 filhos. Com a chegada da pandemia, a família passou por momentos difíceis quando ela perdeu o emprego que tinha em casas de famílias. “A pandemia chegou e perdi meu trabalho”, conta Jucirene. “Eu sempre vou me lembrar do que passamos. Eu peguei a Covid-19, mas, graças a Deus, estou aqui de pé, todos os meus filhos ficaram doentes, mas todos estão comigo na luta”, afirma.

Jucirene é moradora, desde sua fundação, da comunidade Parque das Tribos, localizada no bairro Tarumã, Zona Oeste de Manaus. Em parceria com Águas de Manaus, o UNICEF doou kits de higiene para ajudar na prevenção da Covid-19 às famílias que integram o primeiro bairro indígena da capital amazonense. Os kits são compostos de sabonetes, sabão em pedra, água sanitária, detergente líquido, álcool em gel, absorventes e máscaras de tecido. Os kits trazem, também, folhetos com orientações sobre a Covid-19 e cuidados com crianças e adolescentes neste momento.

uma mulher usando cocar está sentada em meio a várias sacolas com produtos de higiene; ela segura uma dessas sacolas que têm o logo do UNICEF e da Águas de Manaus
UNICEF/BRZ/Juliana Pesqueira

“No início da pandemia, acreditávamos que era apenas uma gripe, mas as pessoas foram ficando doentes e algumas acabaram falecendo, como foi o caso do nosso cacique, Messias Kokama”, explica a cacica do povo kokama, Lucenilda Ribeiro Albuquerque. Messias era o cacique da comunidade e, em maio de 2020,  faleceu aos 53 anos depois de oito dias internado por complicações ocasionadas pelo coronavírus. O diagnósticoassustou todos da comunidade: o maior líder do Parque das Tribos foi a primeira vítima do vírus no local.

Desde então, o bairro buscou apoio para arrecadar alimentos e kits de higiene. “Hoje, estamos com medo da contaminação. Então, precisamos manter o distanciamento, usar máscara e álcool em gel para não levar o vírus às outras pessoas. Por isso, essa doação feita pela Águas de Manaus e pelo UNICEF nos deixa satisfeitos. Para nós indígenas, essa ajuda é fundamental, já que não temos dinheiro para comprar esses produtos”, declara Lucenilda.

Saudade da sala de aula
Na comunidade, o espaço cultural Wakenai Anumarehit – na língua arawak, wakenai significa “a origem”, e anumarehit quer dizer “grande guerreiro” – também funciona como um Centro Municipal de Educação Escolar Indígena (CMEEI). Antes da pandemia, mais de 80 alunos estavam matriculados e aprendiam a língua nheengatu, além de atividades como artesanato, pinturas e teatro.

Atualmente, com as aulas suspensas devido à pandemia da Covid-19, as cadeiras estão empilhadas, e o espaço modesto, erguido com madeira e lona, ficou disponibilizado para receber doações destinadas a amenizar os impactos do coronavírus no bairro. “Hoje, somos 35 povos e 14 línguas falantes, mas cinco delas são predominantes no local, nheengatu, tikuna, tukano, kokama e baniwa. E estamos ansiosos para que, quando tudo isso passar, possamos receber novamente nossas crianças e nossos adolescentes neste espaço de promoção e fortalecimento da cultura indígena”, assegura o professor Joilson da Silva Paulino, do povo karapãna.

O educador ajuda na distribuição das doações juntamente com a cacica Lucenilda e outras lideranças. Ele se emociona ao ver tantos kits de higiene que ajudarão na prevenção da Covid-19 no bairro. “Este amparo é fundamental para prevenir a contaminação pelo vírus. Perdi meu pai, meu irmão, tios e primos para essa doença. Por pouco, eu não morri”, comenta Joilson.

uma sacola com produtos de higiene e os logos do UNICEF e da Águas de Manaus está em cima de uma plataforma de um barco; ao fundo estão o rio e a floresta
UNICEF/BRZ/Juliana Pesqueira

“É a primeira ajuda que recebemos em mais de um ano de pandemia”
Outra comunidade beneficiada com os kits de higiene disponibilizados pela Águas de Manaus e pelo UNICEF foi a comunidade ribeirinha Paraná do Xiborena, no Rio Solimões, zona metropolitana de Manaus. Nesse local, as casas são construídas no formato de palafitas, um tipo de habitação erguida sobre troncos. Durante o ano, a comunidade passa seis meses na cheia e os outros seis na vazante.

Hoje, 115 famílias fazem parte da comunidade, segundo a agente de saúde Silmara Alves Neves, que desempenha o trabalho na área da saúde há pelo menos 16 anos. Muitas vezes, mesmo sem combustível para as visitas domiciliares, Silmara custeia do próprio salário o monitoramento, principalmente dos doentes crônicos. “Quando falta combustível para as visitas, não penso duas vezes e, por conta própria, faço o acompanhamento. O importante é saber como estão, principalmente nesta pandemia”, explica.

Segundo Silmara, na comunidade não houve nenhum óbito, entretanto, muitos moradores ficaram enfermos. “As pessoas passam necessidade por estar doentes e não poder realizar as atividades a que eram acostumadas, como a agricultura e a pesca. Em mais de um ano de pandemia, é a primeira vez que recebemos uma doação desse tipo”, diz.

Maria Helena Gomes da Silva, 65 anos, é vice-presidente da comunidade do Xiborena, e mora no local há mais de 40 anos. “Cheguei aqui com meus 17 anos e, independente das dificuldades, consegui criar meus oito filhos”, conta. Ela foi uma das pessoas da comunidade que foram afetadas pela Covid-19, e afirma que a doença é perigosa. “Quando peguei a Covid-19, usei fralda geriátrica. Fiquei semanas na cama, acreditei que ia morrer. Por isso, acho maravilhoso receber um kit como este. Muitas vezes, não temos condições de comprar esses produtos, então, quando recebemos, nós temos que agradecer”, afirma.