“Estava com saudades até da sopa da escola”

Desde março, Crislaine voltou às aulas presenciais em sua escola na Maré, no Rio de Janeiro, numa nova rotina desafiadora, construída a cada dia pela equipe com as crianças e as famílias

UNICEF Brasil
Foto mostra uma menina usando máscara na frente de uma parede toda colorida. Ela está sorrindo e tem as mãos cruzadas em frente ao rosto.
UNICEF/BRZ/Fabio Teixeira
13 outubro 2021

Assim que chegou a notícia de reabertura da escola de sua filha, em março deste ano, Cosma dos Santos Felizardo não teve dúvidas: comemorou logo a novidade com Crislaine. Aos 9 anos, a menina tinha acabado de iniciar a quarta série na Escola Municipal VI Centenário, em Bonsucesso, na Maré, onde mora a família, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Desde então, todo dia é dia de escola.

“A carinha de felicidade da minha filha cada vez que ela vai para a escola me dá a certeza de que nós fizemos a coisa certa”, conta Cosma. “Era muito ruim não vir para a escola”, lembra Crislaine.

“Quando voltamos, foi uma alegria muito grande. Estava com saudades de brincar com as minhas colegas, de correr na quadra, da comida... até da sopa estava com saudades.”

Crislaine Felizardo de Sousa, 9 anos, Rio de Janeiro

“O ano passado foi todo muito difícil. Sem computador em casa, com internet ruim, tínhamos que ir à casa da minha irmã que tem WiFi para pegar as atividades da escola no celular. Fizemos o que foi possível. Nunca perdemos o contato com os professores. Poder voltar à escola foi um grande alívio”, lembra Cosma, que deixou de trabalhar durante a pandemia. Seu marido também perdeu emprego de cozinheiro e passaram a depender da renda de aluguel de dois pequenos apartamentos que eles têm na Maré, bem como do auxílio emergencial do governo. “Foi o pior ano de nossa vida”, sentencia.

Ao longo de todos os meses sem aula presencial, Crislaine lembrou e falou da escola o tempo todo. “Fazia as atividades que chegavam pelo celular, mas não era a mesma coisa”. A equipe de professoras e coordenadoras trabalhou muito para manter o contato com cada estudante. “O vínculo que mantivemos com as família durante o primeiro ano da pandemia foi essencial. Acompanhamos as histórias de perdas e dificuldades vividas por cada um. Mas, apesar de tudo, não deixamos de cobrar continuamente um retorno em relação às atividades das crianças. Isso foi essencial para termos sucesso na reabertura”, relata Alessandra da Cunha Aguiar, diretora da escola.

“Tinha dúvida de como ia ser, pois com certeza as crianças iam querer se abraçar, mas confiei que a escola ia ter regras e ia dar tudo certo”, fala a mãe de Crislaine. “Foi muito chato não poder emprestar o lápis de cor para quem esqueceu em casa e precisava dele. Eu também não gostei de ter que ficar longe, mas, com certeza, fiquei feliz em voltar”, lembra a menina.

Foto mostra uma menina em primeiro plano. Ela está sentada em um pátio, com as pernas cruzadas, mexendo em um estojo. Ela está usando máscara. Ao fundo vemos outras crianças sentadas, com distanciamento entre elas.
UNICEF/BRZ/Fabio Teixeira

Com 303 estudantes, da primeira à quinta série, a escola foi a primeira a reabrir na Maré, em março deste ano. “Estávamos prontas, com muito medo e dúvidas, mas decididas a reabrir. Já no início do ano começamos a ver as crianças na rua. Os adultos estavam retomando o trabalho, as atividades, e as crianças não podiam ficar mais sem escola”, explica Alessandra. Naquele momento, nenhum profissional estava vacinado, mas não era possível esperar.

A professora de Crislaine, Cristiane Mesquita, conta que teve muito medo, especialmente por ser hipertensa. “Mas escolhi voltar. Sinto que, como professora, tenho uma missão”. Nesse retorno, foi essencial “ninguém largar a mão de ninguém”. Em outras palavras, “a razão do retorno estar sendo seguro é a parceria da equipe, com as famílias e as crianças”.

Com uma boa estrutura, com todas as salas amplas e arejadas, a equipe se reuniu para fazer a marcação dos espaços para garantir o distanciamento. Foi definida uma nova rotina de higienização do chão, mesas e cadeiras; a entrada e a saída das turmas foram reorganizadas para evitar aglomeração. As refeições começaram a ser servidas nas salas de aula. Passou a ser procedimento obrigatório: o uso de máscara, medição de temperatura na chegada à escola e principalmente um contato permanente com as famílias via grupo de WhatsApp e reuniões na escola. Até final de setembro, nenhum surto aconteceu na escola.

A reabertura segura das escolas tem recebido atenção prioritária da Prefeitura do Rio de Janeiro desde o início deste ano, e o UNICEF tem participado ativamente das recomendações como membro convidado do Comitê Especial de Enfrentamento da Covid-19 da Cidade do Rio.

O desafio é permanente, recomeça a cada semana. Os sintomas dos alunos e funcionários são monitorados continuamente. “Por outro, ainda é necessário a reinventar muitas atividades”, destaca Alessandra, como as aulas de música, educação física. A sala de informática e a biblioteca também seguem suspensas. “Aos poucos, vamos resignificando e experimentando”.

Alguns desejos não mudaram: “Desejo que eu e minhas amigas possamos ficar juntas para sempre”, diz Crislaine. Ela quer também continuar aprendendo mais e mais. Crislaine gosta muito de música e educação física, mas sonha em ser enfermeira, médica ou, quem sabe, veterinária.

Foto mostra uma menina abraçada a sua mãe. As duas estão de pé e usam máscara. A menina está com uniforme escolar e uma mochila nas costas.
UNICEF/BRZ/Fabio Teixeira

“Falo sempre pra Crislaine que na escola a gente aprende muita coisa. Meu sonho é ela seguir firme e fazer a faculdade que eu não tive chance de fazer. Sempre falo para ela ser nosso orgulho. Mas, na verdade, ela já é.”

Cosma dos Santos Felizardo, Maré, Rio de Janeiro