“Enxerguei meu potencial”

Moradora de Cidade Tiradentes, Bruna descobriu que tem direito a oportunidades e poder de dividir o que aprende. Ela foi uma das participantes do Engaja, iniciativa realizada pelo UNICEF, a Saint-Gobain e o Cieds em São Paulo.

UNICEF Brasil
Foto mostra adolescente sentada em sofá de casa. Ela segura um caderno e uma caneta nas mãos. Olha para a câmera sorrindo.
UNICEF/BRZ/Fabio Hirata
26 maio 2021

Imersa no mundo das letras, Bruna Jesus transporta da alma os versos que dão voz aos seus sentimentos. Para a adolescente de 17 anos, a escrita é uma forma de descarregar o peso de algumas vivências sobre seus ombros. É uma maneira de ajudar as pessoas, seja compartilhando suas poesias, seja participando de projetos sociais na biblioteca comunitária de sua região.

Moradora de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, Bruna se juntou aos 300 participantes do Engaja, iniciativa realizada pelo UNICEF, a Saint-Gobain e o Cieds em cinco regiões da capital paulista: Brasilândia, Cidade Tiradentes, Grajaú, Jardim Ângela e Tremembé. Com o objetivo de diminuir a distância entre jovens moradores de periferia e o mundo do trabalho, o projeto buscou a inclusão produtiva de meninas e meninos na sociedade, indicando caminhos e oferecendo capacitação para que eles acessem novas oportunidades. O Engaja ofereceu cursos e rodas de conversa online em que os jovens debateram sobre identidade, território e futuro, além de terem desenvolvido soluções para desafios vividos em suas comunidades.

“Eu li só o comecinho do edital e já me inscrevi. Me chamou a atenção o público. Eu vi que era um ambiente em que eu estaria confortável para participar. Estaria entre jovens como eu. Fique muito feliz quando soube que fui selecionada. A gente se pergunta se é verdade quando recebe uma oportunidade dessas... E eu aproveitei ao máximo”, conta. A adolescente disse ainda que conseguiu se engajar por meio da ajuda financeira oferecida pelo projeto para viabilizar o acesso dos jovens à internet.

Com os pés no presente e o olhar para o futuro, ainda criança, Bruna saiu da Bahia rumo a São Paulo, para viver com sua tia, em busca de novas oportunidades de estudo. Para ela, é preciso sair do padrão: “Ficar dentro do cubo não é pra mim. Quando a gente cria um objetivo de vida, a gente vai atrás. Mesmo sendo criança, eu tinha aquela mente de futuro”. E a cabeça cheia de perguntas: “Desde pequena, eu me questionava por que ele pode e eu não posso. Por que ela tem determinada coisa e eu não. Eu entendi que a resposta era porque eu não tinha oportunidades”, explica.

Bruna chegou a São Paulo sonhando ser dançarina ou professora. Agora se interessa pelos cursos de Letras e Direito. A adolescente acredita que os sonhos estão sempre em movimento, se moldando com o tempo e com as possibilidades. E esse foi seu principal aprendizado com o Engaja. A partir da experiência com a iniciativa, ela viu se abrir um leque de possibilidades. E viu crescer dentro de si o desejo de fazer muitas coisas.

“O que mais chamou a atenção foi o debate sobre identidade, sobre como eu me vejo na sociedade. Por que a gente se vê como o mínimo, não se enxerga como merecedor. O Engaja me permitiu reconhecer quem eu sou e saber quem eu posso me tornar. Enxerguei meu potencial. Ele me deu uma esperança para o futuro, um futuro que eu mereço”.

Na reta final do Engaja, Bruna deu cursos de capacitação e promoveu rodas de conversas para falar de identidade: “Aprender e saber falar sobre identidade é algo incrível. Afinal, somos diversos!”, diz.

Fome de futuro
Com a pandemia do novo coronavírus, Bruna se afastou das atividades culturais que preenchiam o tempo quando ela não estava na escola. Ficou mais díficil acompanhar as aulas remotas e a menina viu os problemas da periferia onde mora se agravarem. Ela também perdeu a renda que ganhava como trancista, habilidade que desenvolveu procurando conhecimento na internet.

Devorando vídeos na internet, ela aprendeu a fazer tranças para ajudar mulheres negras com a transição capilar. A adolescente não via futuro em seu ofício, mas, ao entender que atitudes empreendedoras se aplicam tanto à vida profissional quanto à esfera pessoal, acadêmica ou financeira, ela percebeu que “seu bico” podia ir além. E agora planeja capacitar outras mulheres e passar para frente o conhecimento adquirido.

Como parte das atividades desenvolvidas no Engaja, Bruna e seus colegas foram estimulados a criar um projeto na comunidade onde vivem. Além de problemas com esgoto, buracos na rua, violência, falta de lazer e cultura, a adolescente percebeu que a fome se tornou uma das principais preocupações de muitos dos moradores de Cidade Tiradentes. Por isso, o grupo montou um plano para encontrar parcerias e ajudar as famílias que enfrentam dificuldades econômicas, seja por meio da doação de cestas básicas ou realização de bazares, como promovendo capacitações sobre geração de renda. O nome do projeto é “Do que você tem fome?”.

“A gente tem fome de esperança, de futuro e de oportunidades.
Quando você tem uma oportunidade, a esperança cresce
dentro de você.”

Bruna Jesus, 17 anos, São Paulo

Assim como era quando pequena, Bruna encara o futuro bem aterrada no presente. Matriculada no 3o ano do ensino médio, a adolescente se prepara para o Enem e decidiu que, nesse momento, vai estudar Direito e pensa em trabalhar na Delegacia da Mulher.

“O Engaja nos fez criar um projeto de vida. E nos estimulou a ajudar também, a ver a importância da solidariedade, empatia, sororidade. O que eu aprendo eu preciso passar pra frente, ou ensinando ou ajudando”, diz.

Poema escrito pela adolescente sobre sua participação no Engaja:

Luto e não me calo!
Desse sistema não vou mais ser escravo
Não aceite o fundo do poço
Olhe sua trajetória
Foi tudo conquista do seu esforço
Você acha que é fácil, irmão?
Ser preta periférica
conseguir entrar numa faculdade
lutar contra desigualdade
E difícil, sabia?
Ser trans e lutar pra sobreviver
contra o homofobia
Ser lésbica gay travesti
e não poder me montar
e não poder me vestir
glamourosamente
Você não sabe como a gente se sente
Ver a cada 23 minutos o pretinho morto inocente
Só queremos oportunidade
E temos, sim! Capacidade
Temos, sim, potencial
O essencial pra chegar nas alturas
Te convido pra te propor
cultura, oportunidade
vamos te ensinar sororidade, empatia
o Engaja veio na minha vida
e me trouxe alegria, conhecimento
tirou todas àquelas insegurança
e me fez enxergar meu talento
o meu potencial mostrando que tenho lugar
e tenho vez, e falar
pra essa sociedade tóxica
que não somos mais seus freguês