“É importante que a gente seja a voz das favelas”

Em parceria com o UNICEF, coletivos de jovens do Rio de Janeiro se mobilizam para apoiar famílias vulneráveis no enfrentamento da pandemia de Covid-19

UNICEF Brasil
um grupo de pessoas conversa do lado de fora de uma casa. todos, menos a criança, usam máscara.
UNICEF/BRZ/Gabriel Oliveira
14 setembro 2020

Nos últimos meses, Lays dos Santos tem lançado um outro olhar para Palmeirinha, favela onde mora na Zona Norte do Rio de Janeiro. Com a crise emergencial gerada pela pandemia do novo coronavírus, a jovem de 21 anos e outros integrantes do projeto de mobilização social da juventude Eu Vivo Favela decidiram traçar estratégias para dar apoio à comunidade neste momento. Ao identificar as necessidades mais urgentes do território, o grupo se deparou com uma realidade desconhecida por eles: o recente surgimento de “subfavelas” dentro da própria favela, que agrupam pessoas vivendo sem saneamento básicas, em condições bastante precárias.

Diante da nova perspectiva, o coletivo pôs seu plano em ação e estruturou uma rede de apoio à população mais vulnerável morando nessas “subfavelas”. Uma das ações, realizada a partir de uma parceria estratégica entre UNICEF e empresas parceiras, consistiu na distribuição de kits de higiene e limpeza e cestas básicas com foco em famílias recém-formadas, de catadores de materiais recicláveis sem condições apropriadas de moradia e lares com grande número de crianças.

“A gente foi um suspiro de alívio para algumas famílias neste momento de caos. E de esperança também. Na entrega das doações, a gente tentava transmitir um sentimento de paz e esperança, de que tudo vai ficar bem”, conta Lays.

A família de Tatiane Leite Silva foi uma das atendidas pela ação dos jovens. Grávida e desempregada, ela garante o sustento dos dois filhos e da mãe com o trabalho de catadora. No pouco espaço disponível, a família precisa conviver com os materiais recicláveis que Tatiane recolhe para vender. “O difícil é que todo mundo mora num barraco pequeno. Mas aqui a gente se previne: lava as mãos e usa máscara quando sai na rua. Eu recebi álcool em gel e produtos de limpeza que eu não tinha em casa. Agora eu vou passar a usar”, diz.

A vulnerabilidade de famílias como a de Tatiane se agravou com a crise trazida pelo novo coronavírus. A maioria das pessoas atendidas pela distribuição de kits disse não receber benefício governamental ou auxílio emergencial. Muitos dos catadores identificados não dispõem de saneamento básico e, para sobreviver, passaram a buscar os materiais recicláveis cada vez mais distante do território, aumentando assim o risco de contaminação.

“O distanciamento social dentro da favela é uma realidade inexistente, já que muitos moradores são trabalhadores informais ou desempenham serviços considerados essenciais. Eles falavam: ‘ou eu paro ou eu passo fome’. Por conta da necessidade, não existe como optar pelo distanciamento e isso aumenta o grau de vulnerabilidade e o risco de contaminação”, diz Lays.

A jovem explica que Palmeirinha é uma favela relativamente pequena, mas inserida em contexto de muitas ausências. Por conta desse cenário de exclusão e invisibilidade, ela defende a importância de se promover uma mudança de pensamento nos moradores do local, buscando construir uma juventude consciente de seus direitos: “A gente entende que informar e empoderar o jovem significa proteger esse jovem”.

Lays começou a atuar na comunidade ainda adolescente após a perda de um amigo vítima da violência. A morte do jovem, seguindo tantas outras “que já não cabem nos dedos das duas mãos”, despertou nela vários questionamentos e o desejo de fazer algo que direcionasse os jovens da favela para um caminho de pertencimento, apropriação e proteção. Dessa vontade de construir diálogos, surgiram rodas de conversas em escolas. Assim, nasceu o projeto Eu Vivo Favela, que tem como bases a mobilização e a participação social da juventude. Um trabalho que segue firme durante a pandemia.

“É importante que a gente seja a potência, a voz das favelas. Precisamos ocupar nossos espaços de discussão, ser dono das nossas próprias falas”, diz. E o grupo já desenha estratégias para quando tudo passar. O próximo passo é concretizar a ideia de um podcast sobre saúde mental dentro da favela, oferecendo uma rede de apoio emocional com atenção especial à gravidez na adolescência.