“Descobri muitas coisas sobre mim”

Moradora de Itanhaém (SP), Lídia Carmo entende a educação como ferramenta para enfrentar as desigualdades e garantir uma vida melhor para jovens periféricos

UNICEF Brasil
Foto mostra o rosto de uma adolescente sorrindo.
UNICEF/BRZ/Fabio Hirata
23 agosto 2021

Lídia Stefani Silva Carmo é uma adolescente cheia de talentos. Sua mente é um terreno fértil para poesia, histórias, contos, música e artes visuais. Moradora de Itanhaém, no Litoral Sul paulista, desde criança, a adolescente de 17 anos sonha em ser escritora e publicar livros. Também está em seus planos trabalhar com projetos sociais, uma paixão que floresceu com as atividades da iniciativa Crescer com Proteção, da qual se tornou jovem mobilizadora há um ano.

Realizada pelo UNICEF, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Agenda Pública e o Instituto Camará Calunga, a iniciativa ocorre em oito municípios da Baixada Santista e do Vale do Ribeira no Sul de São Paulo: Cananéia, Iguape, Ilha Comprida, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e São Vicente. Até o final deste ano, o objetivo é fortalecer políticas de prevenção e enfrentamento das diversas formas de violência contra crianças e adolescentes por meio do fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos e fortalecimento da participação cidadã de adolescentes.

“Foi muito legal ver um projeto que escuta o jovem. A gente precisa combater a violência e correr atrás das políticas públicas que a gente merece. Queremos ter voz e usá-la para reivindicar nossos direitos, melhorar nossa cidade, mostrar nossa opinião e fazer a diferença. A gente precisa ter o direito de viver a vida”, diz com convicção.

Quando pensa em “viver a vida”, Lídia esbanja energia. Entre as várias atividades que gosta de fazer, está andar de bicicleta. Mais do que lazer, é uma solução alternativa à falta de mobilidade na região. Segundo ela, a distância do bairro onde mora até o centro da cidade é um desafio para quem trabalha e estuda.

Foto mostra uma adolescente andando de bicicleta
UNICEF/BRZ/Fabio Hirata

Ao se envolver nas atividades do Crescer com Proteção, Lídia compreendeu que a falta de oportunidades – como opções seguras de mobilidade – resulta num enorme obstáculo para a garantia dos direitos de meninas e meninos vulneráveis. Para ela, o acesso à educação de qualidade é uma das principais formas de enfrentar as desigualdades e assegurar uma “vida melhor” para jovens periféricos.

Não é de hoje que a adolescente vê na educação uma importante ferramenta para o desenvolvimento de crianças e adolescentes: “Eu sempre levei o estudo muito a sério. Minha mãe sempre falava muito sobre a importância dele para se ter uma vida melhor. Ela e a minha avó não tiveram essa oportunidade. Nunca foram atrás dos sonhos delas porque trabalhavam para sobreviver. Elas sempre me diziam: estude muito para você ter um futuro”.

Lídia conta que o ensino fundamental foi o período mais difícil, permeado pelo racismo que sofria na escola, gerando insegurança e ansiedade. Mas ela lembra com orgulho que aos 11 anos ganhou um concurso nacional de redação: “eu era boa aluna, tirava boas notas. Mas não acreditava em mim mesma”.

Enquanto cursava o 9º ano e se preparava para a seleção de ingresso na escola técnica, Lídia perdeu a mãe e não conseguiu a vaga que tanto queria. Apesar dos desafios, a adolescente se matriculou numa escola de ensino médio, onde passou a lidar melhor com a insegurança e fez novos amigos.

“Eu parei de me esconder e passei a fazer as pessoas me enxergarem mais. Deixei de ser uma sombra.”

Lídia Carmo, 17 anos, Itanhaém, São Paulo

Hoje, com o apoio do irmão, Lídia cursa design gráfico numa instituição de ensino superior a distância. É uma conquista que ela comemora.

Os processos de mudança continuam e, ao fazer parte do Crescer com Proteção, Lídia se percebeu uma jovem mais forte e mais consciente do seu papel na sociedade.

Junto com outros adolescentes, ela faz parte do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (Nuca), fomentado pelo projeto, e tem participado ativamente das atividades, como a intervenção nas ruas da sua cidade para falar das oportunidades que protegem adolescentes e crianças.

“Eu me encontrei. Já sabia quem eu era, mas eu descobri muitas coisas sobre mim. Eu já era a Lídia, mas, com o projeto, eu agora sou a Lídia por completo”, diz.