Coração acelerado para o primeiro dia de aula

O primeiro dia de aula foi adiado por mais de um ano para Erika, de 4 anos, e cerca de 8 milhões de crianças pelo mundo. Com o apoio do UNICEF, essa retomada já ocorre em alguns locais, garantindo o direito ao desenvolvimento pleno de cada criança

UNICEF Brasil
Foto mostra a menina Erika olhando séria para a câmera. Ela está de uniforme e usa um laço no cabelo.
UNICEF/BRZ/Hugo Coutinho
14 setembro 2021

Na casa de Maria Graziele e Erika Gabriele, de 8 e 4 anos, três corações batiam mais acelerados na véspera do retorno presencial às aulas. Mãe e filhas estavam ansiosas. Depois de 18 meses de escolas fechadas por conta da pandemia de covid-19, chegou a hora da reabertura no município de Lagoa dos Gatos, no agreste de Pernambuco. Após a definição da data, Graziele contava os dias para rever a professora e colegas. Erika, que teve seu primeiro dia de aula na vida adiado por mais de um ano, não sabia bem o que esperar. Quando chegou a hora, ela colocou a mochila nas costas e o laço rosa nos cabelos, igual ao da irmã, e seguiu em direção à escola.

A separação no portão foi difícil. Erika chamou pela mãe, que, por conta dos protocolos de prevenção ao coronavírus, precisou aguardar do lado de fora. Na sala de aula, as músicas e histórias foram intercaladas pelo choro de Erika e de outras crianças. Todas estreantes. Uma espiada pelo corredor e lá estavam as mães, dando tchau e mandando beijos. “A gente fica com o coração apertado, ainda mais com esta pandemia e precisa esperar aqui fora. Mas sei que é o melhor pra ela”, conta a mãe, Erivonalda Maria da Silva, que deseja que as filhas possam concluir os estudos, indo além dela mesma, que só cursou parte do ensino fundamental.

Denise Rodrigues, professora de Erika, observou que o acolhimento das crianças menores foi mais difícil no atual contexto. “A gente não pôde acolher como estamos acostumadas, mas vamos adaptando”, pontuou, lembrando ainda do tradicional frio na barriga do primeiro dia também por parte dos professores. “Imagine com esta pandemia? Mas a gente conversou bastante, estamos adotando as medidas de prevenção e estávamos certos de que era importante voltar. De forma remota não rende para os pequenos”, disse. Para Erika, a dificuldade de adaptação foi superada já no segundo dia. “Ela não chorou mais e já pede para ir todo dia. Tenho muito orgulho das minhas filhas. Graziele é muito inteligente e Erika vai ser a mesma coisa”, vibrou.

Foto mostra o corredor de uma escola. Não há pessoas na foto. Em primeiro plano, estão um cartaz com dicas de prevenção a covid-19 e um display de álcool em gel com o desenho do Cascão da Turma da Mônica
UNICEF/BRZ/Hugo Coutinho

Comunicação como resposta – Erivonalda comentou que, apesar de triste pelo tempo que as meninas ficaram em casa, também estava com medo da volta por causa da pandemia. Mas destacou que os encontros realizados na escola antes da reabertura ajudaram. “A gente fica com medo e também alegre pela volta. Fica dividida. Mas falaram que teriam cuidado, do que precisava para ser mais seguro e fiquei mais tranquila. E elas também são sabidas, sabem se cuidar”. Os encontros citados pela mãe fazem parte da ação de resposta do UNICEF à pandemia no Semiárido, que busca apoiar municípios prioritários no processo de reabertura segura das escolas. Em Lagoa dos Gatos, a reabertura ocorreu em 26 escolas, atendendo 2.200 meninos e meninas.

Desde abril, com a parceria técnica da AVSI Brasil, o UNICEF vem atuando em 39 municípios da Bahia, do Ceará e de Pernambuco, atendendo 285 escolas e beneficiando um total de 82.428 meninas e meninos. Um dos destaques da atuação é a distribuição de material de comunicação e formação de profissionais, famílias e estudantes, disseminando informações sobre comportamentos adequados à prevenção do coronavírus. A expectativa é de que essas lideranças locais possam também atuar como agentes de mudança, multiplicando o conhecimento e possibilitando a continuidade de serviços essenciais para crianças e adolescentes. A ação inclui ainda a doação de kits de higiene, equipamentos de proteção individual e lavatórios de mãos.

A coordenadora do Núcleo de Apoio à Saúde da Família e Atenção Básica (Nasf AB), Ingrid Holanda, destacou que as formações favoreceram a criação de uma rede integrada pelo retorno das aulas. “A iniciativa plantou a sementinha e nos chamou para trabalhar junto, para ser agente multiplicador. A partir daí, passamos a atuar coletivamente e foi uma parceria para acontecer esse retorno seguro”, reforçou. Como Erika, cerca de 140 milhões de crianças tiveram o primeiro dia de aula adiado em diversas partes do mundo e aproximadamente oito milhões precisaram esperar – ou ainda seguem aguardando – por mais de um ano, segundo análises do UNICEF.

A diretora executiva do UNICEF, Henrietta Fore, destaca a importância do primeiro dia de aula na vida de uma criança. “É um momento marcante na vida de uma criança – colocando-a em um caminho de mudança de vida, de aprendizado e crescimento pessoal. Mas para milhões de crianças esse dia importante foi adiado indefinidamente”, disse, alertando que, à medida que as aulas são retomadas em muitas partes do mundo, milhões de alunos ainda esperam para ver uma sala de aula. “Para os mais vulneráveis, o risco de nunca entrar em uma sala de aula em sua vida está disparando”.