“A coisa mais impressionante que já fiz na vida foi começar a escrever meu livro”

Criativa e determinada, Patrícia Gutierrez, 17 anos, encontrou, na literatura, a força para seguir em frente. Hoje, a adolescente venezuelana vive em um abrigo em Roraima e sonha em publicar seu livro.

UNICEF Brasil
adolescente olha para a câmera. ela usa óculos, está sorridente e segura um caderno. atrás dela aparece um pedaço de um mapa.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

18 Janeiro 2019

Vanessa, Mariano, Isabella, Angélica, Mariangel e Hannah são alguns dos personagens criados por Patrícia Gutierrez, uma venezuelana de 17 anos que vive no Brasil. No País há seis meses, a adolescente colocou na mala coragem e confiança para correr atrás de seus sonhos. “A coisa mais impressionante que já fiz na vida foi começar a escrever meu livro. Agora, sonho em terminá-lo, publicá-lo e sempre continuar escrevendo. Mas também quero me tornar arquiteta”.

Patrícia e a família vivem em um dos 11 abrigos para imigrantes venezuelanos que existem em Boa Vista, capital de Roraima. Os pais vieram para o Brasil atrás de trabalho. Ela terminou os estudos na Venezuela e, desde então, os livros viraram seus companheiros. Os primeiros foram os de Paulo Coelho e John Katzenbach. Depois, a obra de cabeceira passou a ser a que ela própria começou a escrever: ‘Nem todos os finais são felizes – Embora você acredite que sim’.

“Sou muito criativa e adoro escrever frases, poemas, desenhar, enfim, amo criar. Estava escrevendo frases quando coloquei no papel ‘Nem todos os finais são felizes’. Gostei e decidi que tinha que continuar escrevendo sobre isso. No primeiro dia, escrevi 16 páginas e gostei muito dos personagens que construí”, conta. O nome do livro, ela confessa, é uma estratégia para chamar a atenção do leitor.

“Apesar do título, eu acredito, sim, que há esperança. Mas, às vezes, o que acontece no final não é o que esperávamos”, explica Patrícia.

Além de escrever, Patrícia tem usado sua criatividade em favor da vida comunitária no abrigo. Em uma atividade de comunicação para o desenvolvimento e água, saneamento e higiene (WASH na sigla em inglês), realizada pelo UNICEF, ela se destacou na produção de reportagens. Os jovens foram desafiados a criar um telejornal – que recebeu o nome de Noticiero Venezuela – e divulgar notícias sobre uso consciente da água e limpeza do abrigo. “Foi na atividade de higiene e comunicação que pude colocar para fora minha criatividade pela primeira vez aqui no Brasil. Fizemos reportagens com vídeos, entrevistas e fotos sobre a limpeza no abrigo”, conta ela.

A aliança deu certo e vem rendendo frutos. Após as atividades, Patrícia conta que a limpeza no abrigo está melhor. “Aqui era muito sujo, as pessoas não colaboravam muito. Agora, temos supervisão para a limpeza. Os banheiros, a área de lavagem de roupa e as áreas comuns estão sempre limpos. Mudou completamente”.

Apesar de ter colocado o pé no jornalismo, a adolescente garante que a literatura e a arquitetura são suas paixões. “Escrever sobre a Vanessa, que é a protagonista, se tornou uma terapia para mim. Quando escrevo, esqueço que estou longe da minha família, dos meus amigos, que não estou na minha casa. E isso me faz sonhar em publicar o livro”. A história de ‘Nem todos os finais são felizes’ tem todos os elementos necessários para conquistar o público teen: um primeiro encontro clássico entre o casal apaixonado, reviravoltas, muito drama e lições de vida, entre elas sobre a valorização da família.

Assim como o de Vanessa, o futuro de Patrícia não está escrito. Ela não sabe a que lugar chegará na jornada como migrante pelo Brasil, mas, com a perseverança e esperança que carrega, é fácil imaginar que Patrícia – e por que não Vanessa? – encontrará sim um final feliz.

Comunicação para o desenvolvimento e WASH
As oficinas realizadas com 113 adolescentes venezuelanos fazem parte da estratégia de comunicação para o desenvolvimento (C4D, na sigla em inglês), usada pelo UNICEF em emergências. O C4D prevê o envolvimento da comunidade afetada pela crise na identificação de problemas, na proposta de soluções e o engajamento em ações. Globalmente, a tática é usada em três eixos: advocacy para a construção de políticas públicas; para a mobilização da população; e para a promoção de mudança social e de comportamento. Em Roraima, o trabalho desenvolvido com os adolescentes em parceira com o programa de WASH busca promover a mudança de hábitos.


Conheça o trabalho do UNICEF Brasil pelas crianças e adolescentes migrantes venezuelanos.