Avançar na escola, avançar na vida

Dimas Martins, 16 anos, voltou a aprender por meio do Programa Travessia Amapá, parceria do estado com o UNICEF para garantir trajetórias de sucesso escolar

UNICEF Brasil
Foto mostra um adolescente de uniforme escolar olhando para a câmera. Atrás dele há um estante de livros.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss
12 abril 2022

É quinta-feira de manhã, Dimas Martins está sentado, concentrado nas tarefas durante a aula de espanhol da Escola Estadual Sebastiana Lenir de Almeida, em Macapá, capital do estado do Amapá. Na porta da sala, o papel sinaliza: 8º ano. Essa é uma conquista para o adolescente de 16 anos, que vinha de um histórico de atraso escolar e agora está conseguindo recuperar a aprendizagem e avançar. A escola em que Dimas estuda é uma das escolas-piloto do Programa Travessia Amapá, iniciativa da Secretaria de Educação do Estado do Amapá, em parceria com o UNICEF, para reduzir a distorção idade-série e garantir que cada estudante tenha uma trajetória de sucesso escolar.

Na primeira vez em que Dimas foi reprovado, ele estava no 5º ano do ensino fundamental. Na época, o adolescente vivia em um município no interior do estado. No ano seguinte, acabou sendo reprovado novamente. Depois, passou um ano fora da escola quando perdeu o avô. “Minha idade estava mais avançada que minha série, aí eu queria parar de estudar”, lembra.

Em 2020, Dimas decidiu que não desistiria da escola, e pediu à família para ir viver na capital, onde acreditava que teria mais oportunidades de aprender. “Aí eu falei pra minha mãe me mandar para morar com meu tio em Macapá”, conta. E assim foi.

Pouco tempo depois de se mudar, no entanto, veio mais um baque: a pandemia da covid-19. Sem celular, Dimas não conseguiu acompanhar as aulas online, e ficou mais um ano sem estudar. Em meio a tudo isso, o adolescente já estava com 16 anos, no 6º ano do ensino fundamental.

Em meados de 2021, as aulas presenciais voltaram em Macapá, e a Escola Estadual Sebastiana Lenir de Almeida começou a implementar o Programa Travessia Amapá. Nesse momento, Dimas viu uma nova oportunidade para avançar e retomar a aprendizagem. O adolescente, que ainda estava sem notas naquele ano por não ter conseguido participar das aulas, recebeu o apoio do professor de geografia Genivaldo Pereira para retomar as atividades do semestre anterior e realizá-las em uma apostila.

Foto mostra um homem sentado no braço de uma carteira escolar, dentro de uma sala de aula. Ele está olhando para a câmera sem sorrir.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss

“Ele gostou da ideia e começou a se abrir, falar mais comigo, contar um pouco da história dele”, relembra Genivaldo. “E aí eu falei para ele que aqui na escola estava sendo implantado um programa chamado Travessia, que trabalharia essa distorção idade-série, e nós faríamos de tudo para que ele tivesse, além de sua evolução, qualidade no seu aprendizado”, conta o professor.

Dimas se dedicou para entregar todas as atividades atrasadas, com apoio dos professores. Foi então que, em 2021, ele passou a frequentar as aulas do Programa Travessia Amapá, para que pudesse ter a oportunidade de aprender e avançar de série, sem dependências. “Ele passou a ser o primeiro aluno a entregar todas as atividades. E isso foi despertando nele um interesse muito grande”, diz Genivaldo.

“Quando o professor Genivaldo me falou do Programa Travessia, foi quando me incentivei mais nos meus estudos”, diz Dimas. E o resultado foi melhor do que ele mesmo esperava: Dimas voltou a aprender, avançou para o 8º ano, e está determinado a passar de ano e chegar ao ensino médio. “Este ano eu já vou passar, eu coloquei na minha cabeça que vou passar”, diz. “Escola para mim é um sonho, né? Se não fosse a escola, eu não sei o que seria de mim”, completa.

Foto mostra um mulher de perfil, segurando uma caneta em cima de um caderno aberto. Na frente dela, está um adolescente olhando para o caderno. Eles estão em uma sala de aula. Os dois estão de máscara.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss

Programa Travessia Amapá
Na Escola Estadual Sebastiana Lenir de Almeida, o Programa Travessia Amapá começou a ser implementado em 2021, com metodologias específicas voltadas a cada estudante que estava em atraso escolar. Dimas e outros estudantes conseguiram retomar a aprendizagem, com alguns avançando para a série seguinte e outros avançando até duas séries. “O que funcionou foi o básico que nós já tínhamos: materiais e objetos que foram construídos pelos próprios alunos na escola, e o aluno saiu daquela mesmice de estar só no livro didático, pesquisando na internet. Ele foi muito além”, conta o professor Genivaldo.

Para chegar até as metodologias e a implementação nas escolas, a Secretaria de Educação do Amapá realizou ao longo de 2020 avaliações diagnósticas, que levaram a escolha de sete escolas-piloto em três municípios, formações com professores e oficinas. “A construção foi uma parceria. O UNICEF participou de todo o processo, orientando quanto à metodologia e às possibilidades de arranjos pedagógicos que poderíamos fazer. Foi um processo bem participativo, dinâmico e respeitando muito a realidade do Amapá”, explica Neurizete Nascimento, secretária adjunta de Políticas da Educação do Amapá.

Em 2021, o programa começou a ser implementado pelas escolas-piloto. “O principal é a satisfação dos estudantes e o engajamento dos professores. As escolas já compreenderam a necessidade de ter esse olhar diferenciado para esses estudantes, que não eram vistos”, diz Neurizete.

Agora, em 2022, a iniciativa já está dando novos passos. Foi lançado o Programa Travessia Povos Tradicionais, com mesma metodologia, chegando a escolas quilombolas, indígenas e de campo, regiões em que o índice de atraso escolar é ainda maior. “Quando eu falo em Travessia, penso em garantia de direito à aprendizagem na idade certa. E pensar nas estratégias necessárias para isso, definir o que precisa ser feito, é responsabilidade nossa. Independente dos fatores que levaram esse estudante ao atraso, é preciso conhecê-los e ver de que forma conseguimos ajudá-los”, conclui Neurizete.

Foto mostra o corredor de uma escola. Na grade, em primeiro plano, está um banner do Projeto Travessia Amapá.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss

Sobre a estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar
A estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar é uma iniciativa do UNICEF, com Instituto Claro e outros parceiros, para o enfrentamento da cultura de fracasso escolar no Brasil. O objetivo é facilitar um diagnóstico amplo sobre a distorção idade-série no País, e oferecer um conjunto de recomendações para o desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o acesso à educação, a permanência na escola e a aprendizagem desses estudantes.

O site da estratégia disponibiliza materiais pedagógicos – com as experiências didáticas em texto e vídeos – e dados relativos às taxas de distorção, abandono escolar e reprovação, com recortes por gênero, raça e localidade, que mostram as relações entre o atraso escolar e as desigualdades brasileiras.