Aprender sobre inclusão por meio da matemática

Equipe do Paraná produziu um aplicativo em que os estudantes do ensino médio tem contato com a cultura surda, ao mesmo tempo em que aprendem matemática

UNICEF Brasil
24 julho 2020

Participando pela segunda vez da Maratona UNICEF Samsung, a professora Viviane Fuly tinha uma proposta diferente para esta edição: trabalhar com educação inclusiva. Ela reuniu uma equipe com estudantes do ensino médio e um tecnólogo do Instituto Federal do Paraná para desenvolver um aplicativo (app) voltado ao ensino da matemática e que coloca pessoas surdas como protagonistas. Assim nasceu o MatemáTIC Libras, que trouxe de volta o mascote Thales, criado na edição anterior da Maratona (conheça aqui).

Desta vez, a equipe ganhou um novo membro, Carlos Eduardo de Carvalho, estudante do ensino médio integrado em mecatrônica. O jovem é surdo e está no último ano do curso. “Fiquei muito feliz em participar, também de poder interagir com os professores e alunos. Eu pude aprender sobre trabalho em equipe. Mesmo eu sendo surdo e meus colegas ouvintes, conseguimos nos comunicar por meio de redes sociais, ou com auxílio da intérprete, e, assim, desenvolver o app, participar da Maratona e mostrar que a tecnologia é um recurso importante na educação de todos”, destaca.

telas do aplicativo MatemáTIC
MatemáTIC

Inclusão dentro do app
O MatemáTIC Libras funciona assim: ao entrar no aplicativo, o estudante é guiado pelo mascote Thales e se depara com um mapa do Brasil, indicando as localidades onde ocorre cada desafio. Todos os desafios possuem uma atividade matemática relacionada à história de uma personalidade surda da região indicada.

O primeiro, por exemplo, é no Ceará. Ao iniciar, o estudante conhece a história de uma modelo surda nascida no estado. Em seguida, deve resolver uma questão sobre teoria de conjuntos envolvendo letras dos nomes de três cidades cearenses. Para responder, os estudantes devem arrastar na tela a resposta correta para dentro do diagrama que indica os conjuntos.

telas do aplicativo MatemáTIC
MatemáTIC

O primeiro protótipo do app traz três desafios, sendo dois de matemática e um terceiro para que o usuário reconheça sinais matemáticos em Libras. Nesse desafio, o usuário assiste a um vídeo em que Carlos faz o sinal de três conteúdos de conjuntos matemáticos, como o sinal que indica “interseção” e o que indica “união” de conjuntos. Para a professora Viviane, esse é um desafio importante para que os estudantes ouvintes comecem a entender e se interessar pela comunicação em Libras.

“Criar projetos que envolvam surdos pode ajudá-los a diminuir as dificuldades com a língua oral e também ampliar o interesse das pessoas ouvintes em conhecer o surdo e sua língua, se comunicando em sinais em diversos lugares como escolas, hospitais, supermercados, etc.”, complementa Carlos.

Inclusão fora do app
O aplicativo foi resultado de um trabalho em equipe, e impactou todos. Para Cecília Furtado, integrante da equipe, o trabalho em conjunto com os demais integrantes é uma grande lição que leva da Maratona. Apesar de querer seguir outras áreas profissionais fora da tecnologia, a estudante do ensino médio integrado em mecatrônica destaca que a oportunidade foi de grande crescimento pessoal. “Com essa experiência eu consegui me organizar e selecionar o que avalio como mais importante e com isso trabalhar melhor em equipe”, conta.

Willian Cligor, que já havia participado com a professora durante a primeira edição da Maratona, ficou responsável pelo desenvolvimento do MatemáTIC Libras. Para ele, além de o trabalho com programação, esta edição da Maratona trouxe um interesse a mais, algo que ainda não havia sido despertado por falta de oportunidade.

“Após o projeto tive vontade de aprender a língua de sinais, para me comunicar com pessoas surdas”, conta. Por isso, o estudante também espera que, no futuro, além de aumentar o número de desafios para o usuário, o app possa abranger mais assuntos, inclusive se tornando um espaço para que pessoas ouvintes possam estudar Libras.

Para a professora, esta edição também significou um despertar para as questões de educação inclusiva. Logo depois que participou da primeira Maratona, Viviane decidiu trocar um doutorado na área de modelagem matemática para estudar uso de tecnologias aplicadas à disciplina. “Esta nova edição da Maratona muda um pouco mais a minha pesquisa. Agora, com a participação do Carlos na equipe, estou focando em inclusão e uso da tecnologia no ensino”, conta, animada.

Já para Carlos, esta experiência não foi apenas importante para gerar interesse dos usuários do app pela cultura surda, mas para torná-la protagonista. “A inclusão de todos os alunos é extremamente importante porque vai ao encontro da política de equidade. Por isso, fazer com que os alunos com deficiência possam participar de projetos educacionais, interagir e produzir apps que garantam a acessibilidade por meio da tecnologia é também dar credibilidade e dignidade, permitindo que a sociedade possa nos ver como cidadãos capazes”, explica Carlos, feliz com o resultado.