“Ainda tenho muito espaço no cérebro para aprender coisas novas na escola”

Vivendo com a família em Boa Vista, Rodolfo, 10 anos, e seu irmão, Damian (8), foram encontrados pela Busca Ativa Escolar, ingressaram na rede pública e agora comemoram cada novo aprendizado.

UNICEF Brasil
menino vestido com uniforme escolar verde, com a mão segurando uma caneta posicionada sobre um caderno, olha para a câmera sorrindo
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

19 março 2019

O tradicional “Boa tarde, como vão? Todos almoçaram bem hoje?” da professora Lusinete de Melo Martins, 53, ganhou um complemento neste ano. Na turma do 1º ano do ensino fundamental, a conversa passou a incluir: “Buenas tardes, ¿Cómo están? ¿Almorzaron bien hoy?”. E não é só isso que mudou na rotina. Entre as músicas cantadas no início da aula, a canção do ‘sapo que não lava o pé’ é entoada em português e depois em espanhol pelo coro de alunos. É assim desde o início do ano letivo de 2019, quando Lusinete começou a ministrar aula para 20 alunos venezuelanos que ingressaram na Escola Municipal Pequeno Polegar, em Boa Vista, capital do Estado de Roraima.

Rodolfo Ramirez Gimenez, de 10 anos, é um desses novos alunos. Após três meses fora da escola, o menino garantiu vaga com ajuda de uma campanha de Busca Ativa Escolar promovida pelo UNICEF, em parceria com a Fraternidade – Federação Humanitária Internacional, nos abrigos para imigrantes venezuelanos em Boa Vista. O objetivo era localizar e pré-registrar crianças e adolescentes que estavam sem estudar formalmente. No total, 667 crianças foram matriculadas na rede pública de ensino como resultado da iniciativa.

Assim como milhões de venezuelanos, Rodolfo, seu pai, José Orlando Ramirez, 60, sua mãe, Rosalba Gimenez, 40, e seus irmãos, Damian, 8, e Isabella, 3, deixaram a terra natal em razão da instabilidade enfrentada pelo país.

Uma família posa para a foto. Da esquerda para a direita, a mãe com uma menina (3 anos) no colo, o filho mais velho (10 anos), o pai e o filho mais novo (8 anos). Em volta deles, uma rua de terra batida.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

“Tínhamos carro, televisão, ar-condicionado. Tudo que um venezuelano conseguia comprar trabalhando, mas a inflação veio derrubando o poder de compra do nosso salário”, explica o pai do menino. Desde a chegada ao Brasil, a família vive em um dos abrigos para imigrantes montados em Boa Vista. A expectativa é seguir para outros Estados do País, no processo de interiorização, e conseguir trabalho.

Garantir a vaga na escola para os filhos foi uma das primeiras e maiores conquistas da família Ramirez Gimenez no Brasil. É com a vivência escolar, um ponto de normalidade na vida de crianças migrantes, que Orlando e a esposa esperam que os filhos voltem a se sentir protegidos. “Quando conseguiram a vaga no colégio, eles ficaram muito felizes. Sentiram como se estivessem vivos de novo, e nós notamos a mudança”, diz Orlando.

“A escola representa para a criança uma vida normal. É um ambiente favorável, onde eles estão aprendendo. A escola é o mundo de uma criança.”

José Orlando Ramirez, pai de Rodolfo

Apesar de muito amigos, os irmãos Ramirez Gimenez são diferentes. Damian gosta de praticar esportes, soltar pipa, correr, e sonha ser jogador de futebol. Já Rodolfo tem o pensamento mais pragmático, sonha ser engenheiro para trabalhar com computadores. Embora tenha afinidade com a Matemática, é aprender Português que está deixando o menino mais empolgado com a nova escola. “Acho que 15% do meu cérebro já está ocupado com informação, mas ainda tenho muito espaço para aprender coisas novas na escola”.

Menino no Espaço de Aprendizagem montado pelo UNICEF e parceiro em Boa Vista (RR) olha para a câmera sorrindo. Ele segura uma caneta e tem a mão pousada no caderno. Ao seu lado uma monitora do espaço com a camiseta da iniciativa Fora da Escola Não Pode, do UNICEF.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

Por não ter a documentação exigida pelas escolas brasileiras para continuar na série em que tinha parado em seu país, Rodolfo teve que enfrentar outro desafio: começar o ano escolar no 1º ano, em vez de no 5º, sua última série na Venezuela. Após duas semanas, os alunos que estavam em situação semelhante fariam uma prova de reclassificação. Nervoso, o menino ia à escola pela tarde, e de manhã revisava os conteúdos que já tinham aprendido no Espaço de Aprendizagem montado no abrigo pelo UNICEF em parceria com a Fraternidade Internacional. Era nesse espaço que ele e Damian estudavam nos meses que ficaram fora da escola e aprenderam um pouco de português.

Com o apoio dos pais, a dedicação de Rodolfo e a ajuda dos educadores do Espaço de Aprendizagem, o resultado da prova foi um sucesso e ele avançou para a série correta. “Antes estava 95% feliz de estar de volta à escola. Os 5% eram porque queria avançar logo. Agora estou 100%”. A vitória do menino é a prova de que o conhecimento que adquirimos nos pertence de forma irrevogável. Ele nos acompanha aonde quer que vamos, seja à Venezuela, ao Brasil, ou a outras partes do mundo.

Damian, 8 anos, e Rodolfo, 10 anos, olham para a câmera e sorriem. Eles vestem o uniforme escolar, que é verde, e estão dentro de uma sala de aula. Ao fundo estão as carteiras escolares e o quadro.
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

Educação – O UNICEF e parceiros têm trabalhado para garantir o direito à educação de todas as crianças e adolescentes venezuelanos no Brasil. Atualmente, encontram-se em operação nos abrigos para migrantes, 12 Espaços de Aprendizagem, que já atenderam mais de 2,6 mil crianças e adolescentes. Os espaços funcionam como uma escola de transição e são usados em contexto de emergência. Eles não substituem a escola regular, mas ajudam a diminuir o impacto quando as crianças forem restabelecidas no ensino.

O UNICEF trabalha ainda para incluir, na educação formal, crianças e adolescentes que vivem em abrigos de Roraima. Nos meses de dezembro de 2018 e janeiro de 2019, desenvolveu uma estratégia de Busca Ativa Escolar de crianças e adolescentes vivendo nos abrigos que estavam fora da escola. Além disso, 443 kits escolares foram distribuídos para as crianças que foram matriculadas nas escolas municipais e já começaram as aulas.