Adolescentes se mobilizam para promover a alimentação saudável nos municípios em que vivem

Na Amazônia e no Semiárido, meninas e meninos se engajam em ações por uma boa nutrição, e envolvem, também, a gestão pública

UNICEF Brasil
um adolescente está em cima de uma balança e olha para os pés, ao lado dela uma professora também olha para o peso. eles estão dentro de uma sala de aulas
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

16 Outubro 2019

A má alimentação está prejudicando a saúde de milhões de crianças em todo o mundo. De acordo com o relatório Situação Mundial da Infância 2019, lançado pelo UNICEF dia 15 de outubro, uma em cada três crianças com menos de 5 anos – cerca de 250 milhões – está desnutrida ou com sobrepeso.

Para reverter esse cenário, é essencial capacitar crianças, adolescentes e suas famílias para exigir alimentos nutritivos; e mobilizar diferentes áreas, dentro da cada município, para melhorar a alimentação e a nutrição de meninas e meninos.

Essas são as linhas de ação propostas pelo UNICEF aos 1.924 municípios inscritos no Selo UNICEF na Amazônia e no Semiárido. Por um lado, eles são incentivados a trabalhar, fortemente, a participação de adolescentes no processo de escolha, conhecimento e compartilhamento de opções saudáveis na hora de comer. Por outro, são estimulados a promover políticas públicas voltadas à alimentação saudável.

Adolescentes em ação
Em cada município que participa do Selo UNICEF, há um Núcleo de Cidadania dos Adolescentes (NUCA), grupo de meninas e meninos mobilizados por seus direitos. Os NUCAs recebem orientações do UNICEF e são desafiados a realizar ações em oito temas principais. Um deles é a alimentação saudável.

"Cada adolescente que participa vem para as reuniões do NUCA e leva as ações para dentro da sua escola. Aí implementa as ações e traz os resultados de volta. Assim, aprendemos uns com os outros", explica Acássio Kauã, 14 anos, membro do NUCA de Horizonte (CE).

uma adolescente tem sua altura medida por uma professora. elas estão em sala de aula.
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

Para o tema da nutrição, o NUCA começou fazendo um cine-debate sobre alimentação saudável. Em seguida, os adolescentes se mediram e se pesaram, e organizaram uma roda de conversa sobre o que costumam comer, a relação com o corpo e a importância de cuidar da saúde. Os temas serviram de base para as ações que realizaram nas escolas.

A relação da comida com o corpo é um tópico importante. Por isso, os adolescentes dos NUCAS são convidados a discutir, com outras meninas e outros meninos, a imagem do corpo perfeito e o combate ao bullying.

Cada NUCA é incentivado, também, a fazer uma pesquisa em escolas do município para verificar que tipos de alimentos estão sendo oferecidos nas cantinas ou nos arredores das instituições, classificando cada um como alimentos in natura, minimamente processados, processados ou ultraprocessados. A partir do diagnóstico, os adolescentes têm o poder de propor às Secretarias de Educação um ambiente escolar mais saudável e gerar mudanças. Com os dados da pesquisa, é possível elaborar um plano conjunto de alimentação escolar com apoio de integrantes do Conselho de Alimentação Escolar (CAE) do município e/ou do Estado, profissionais da Secretaria da Saúde, nutricionistas e outros especialistas.

uma mulher está em frente a um cartaz feito de papel pardo com exemplos de alimentos
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

Como no Ceará, o NUCA de Pimenteiras (PI) também realizou o desafio da alimentação saudável. No município, o foco foram as comunidades de assentamentos e a Secretaria de Agricultura. Por meio da exposição sobre alimentos advindos da agricultura familiar, os adolescentes se propuseram a sensibilizar a sociedade e o poder público para a promoção da alimentação saudável e do consumo dos produtos agrícolas locais, também como uma forma de prevenir a obesidade.

Já em Mairi (BA), os adolescentes do NUCA resolveram inovar. Com um espaço na Rádio Comunitária, o programa Rádio NUCA mantém toda a população do município informada sobre os desafios e as atividades desenvolvidas pelo grupo. Em um dos programas, separaram espaço para falar sobre alimentação saudável e apresentaram dados sobre hábitos alimentares de crianças e adolescentes no Brasil.

São atitudes como essas que colocam o tema na pauta e fazem cada município ter um olhar diferenciado em suas políticas voltadas à alimentação desde a infância.

Políticas públicas em ação
Além da mobilização dos adolescentes, é importante que a gestão pública também abrace a causa e faça a sua parte. Como mostra o relatório Situação Mundial da Infância 2019, o baixo consumo de frutas e verduras é comum e um fenômeno preocupante, já que crianças que não consomem esses alimentos na infância têm maior tendência a seguir com o hábito quando adultos. Mas ainda é possível reverter essa realidade.

Em um contexto como esse, Pacujá, o terceiro menor município do Ceará – onde vivem pouco mais de 6.500 pessoas – resolveu mudar. Embora pequeno, o município apresentava um problema das grandes metrópoles: crianças menores de 5 anos com baixo alto para a idade. Esse indicador foi um dos trabalhados no Selo UNICEF e estava em vermelho em Pacujá no começo da edição. Ou seja, o município tinha números piores que a média de seu grupo. Foi aí que a intersetorialidade entrou em campo: Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf), escolas, famílias e até mesmo o pároco da cidade, sensibilizados pela temática e regidos pelo articulador do Selo UNICEF, Jorge Moura, deram início a uma campanha de sensibilização e de mudança cultural entre as crianças e a comunidade.

As escolas proibiram a venda de salgadinhos e produtos ultraprocessados nas calçadas e dentro das cantinas; a prefeitura ampliou a compra de produtos da agricultura familiar de 30% para 40%, inserindo no cardápio da rede de ensino alimentos saudáveis e orgânicos, ampliando a oferta de frutas e verduras; o padre passou a inserir o assunto nas homilias das missas voltadas para as crianças, dialogando com elas e suas famílias sobre as escolhas alimentares e suas consequências; as nutricionistas da Secretaria de Educação e do Nasf passaram a dar apoio e acompanhar a evolução do indicador. E os resultados já aparecem: no relatório de acompanhamento de meio período do Selo UNICEF, Pacujá saiu do vermelho nesse indicador, passando de 7,4% em 2016 para 6% em 2017 – alcançando a média do grupo.

"Apesar da grande dificuldade que os municípios enfrentam, principalmente os pequenos, que não têm arrecadação própria, a gente tem feito esse esforço para alcançar os indicadores do Selo UNICEF e vê que vale a pena. Trabalhamos como em uma orquestra em que o maestro é o nosso articulador", afirma o prefeito Alex Melo. Jorge de Moura, o "maestro", destaca a relevância do Selo UNICEF. "Esse trabalho do UNICEF muda mesmo, estimula a mudança concreta no município".

O Selo UNICEF
A Edição 2017-2020 do Selo UNICEF conta com a participação de 1.924 municípios de 18 Estados brasileiros, que assumiram perante o UNICEF o compromisso de implementar políticas públicas para redução das desigualdades e garantir os direitos das crianças e dos adolescentes previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

A experiência com as edições anteriores comprova que os municípios certificados com o Selo UNICEF avançam mais na melhoria dos indicadores sociais do que outros municípios de características socioeconômicas e demográficas semelhantes que não foram certificados ou participaram da iniciativa.