Catherine Russell, diretora executiva do UNICEF, informa o Conselho de Segurança da ONU sobre a situação humanitária em Gaza

30 outubro 2023
Uma mulher sentada a uma mesa fala para outras pessoas que não pode ser vistas na foto
UN Photo/Evan Schneider
Em 30 de outubro de 2023, Catherine Russell, diretora executiva do UNICEF, informa à reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a situação das crianças e dos adolescentes no Oriente Médio.

"Excelências,

Agradeço à embaixadora Nusseibeh e ao embaixador França Danese por convocarem esta reunião, e aos membros do Conselho de Segurança por esta oportunidade de falar com vocês sobre a situação humanitária na Palestina e em Israel.

No UNICEF, acreditamos firmemente que o verdadeiro custo desta última escalada [do conflito] será medido em vidas de crianças e adolescentes – aquelas que foram perdidas pela violência e aquelas que a violência mudou para sempre.

Depois de pouco mais de três semanas, a contagem devastadora está aumentando rapidamente, com violações graves e desenfreadas cometidas contra crianças e adolescentes. De acordo com o Ministério da Saúde da Palestina, mais de 8.300 palestinos foram mortos em Gaza, incluindo mais de 3.400 crianças e adolescentes, com mais de 6.300 meninas e meninos feridos. Isso significa que mais de 420 crianças e adolescentes são mortos ou feridos em Gaza todos os dias – um número que deveria abalar profundamente cada um de nós.

É claro que a violência perpetrada contra as crianças e os adolescentes estende-se para além da Faixa de Gaza. Na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, segundo relatos, pelo menos 37 meninos e meninas foram mortos. E, claro, conforme reportado, mais de 30 crianças e adolescentes israelenses foram mortos, enquanto pelo menos 20 permanecem reféns na Faixa de Gaza – os seus destinos são desconhecidos.

As infraestruturas civis também foram alvo de ataques ferozes.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde em Gaza, foram relatados 34 ataques contra instalações de saúde, incluindo 21 hospitais. Doze dos 35 hospitais de Gaza – que também estão sendo usados como abrigos para pessoas deslocadas – já não podem funcionar.

Pelo menos 221 escolas e mais de 177 mil unidades habitacionais foram danificadas ou destruídas.

Enquanto isso, a pouca água potável que resta em Gaza está esgotando-se rapidamente, deixando mais de 2 milhões de pessoas em extrema necessidade. Estimamos que 55% da infraestrutura de abastecimento de água necessita de reparação ou reabilitação. Apenas uma estação de dessalinização está funcionando com apenas 5% da capacidade, enquanto todas as seis estações de tratamento de águas residuais de Gaza estão agora inoperantes devido à falta de combustível ou energia.

A falta de água potável e de saneamento seguro está a ponto de se tornar uma catástrofe. A menos que o acesso à água potável seja restabelecido com urgência, mais civis, incluindo crianças e adolescentes, adoecerão ou morrerão de desidratação ou de doenças transmitidas pela água.

Como se isso não bastasse, as crianças e os adolescentes, tanto em Israel como na Palestina, estão sofrendo traumas terríveis – cujas consequências podem durar a vida toda.

Estudos demonstraram que a violência e a agitação podem induzir estresse tóxico em crianças e adolescentes, o que interfere no seu desenvolvimento físico e cognitivo e causa problemas de saúde mental, tanto a curto como a longo prazo.

Estamos fazendo o nosso melhor para chegar a todos os meninos e meninas necessitados, mas a prestação de ajuda humanitária – especialmente em Gaza – é agora extremamente desafiadora. Isso se deve tanto às atuais condições de cerco impostas a Gaza como às circunstâncias altamente perigosas sob as quais o nosso pessoal está operando.

Alguns de nossos funcionários perderam familiares próximos, incluindo cônjuges e filhos.

E é claro que estamos de luto com a UNRWA, pelos seus funcionários que foram mortos.

Dois dias atrás, perdemos contato com os nossos colegas em Gaza quando as telecomunicações caíram. Isso os deixou em risco ainda maior e tornou o seu trabalho para ajudar crianças e adolescentes ainda mais difícil de realizar.

Excelências, o UNICEF e os nossos parceiros estão empenhados em permanecer no local para ajudar as crianças e os adolescentes. Mas não se enganem, a situação piora a cada hora e, sem um fim urgente das hostilidades, temo profundamente pelo destino das crianças e dos adolescentes da região.

Mas nós, e vocês, temos o poder de ajudar a tirar as crianças e os adolescentes desta espiral de violência.

Imploro ao Conselho de Segurança que adote imediatamente uma resolução que lembre as partes das suas obrigações sob o direito internacional, exija um cessar-fogo, exija que as partes permitam o acesso humanitário seguro e desimpedido, exija a libertação imediata e segura de todas as crianças e todos os adolescentes raptados e inste as partes a proporcionar a meninas e meninos a proteção especial a que têm direito.

O Conselho de Segurança também deveria dar prioridade ao que é agora um agravamento da crise de deslocamento – com mais de 1,4 milhão de pessoas em Gaza, a maioria das quais são crianças, agora deslocadas.

Tal como disse o secretário-geral, a ordem para que 1,1 milhão de civis palestinos abandonem o norte de Gaza deveria ser rescindida. As exigências de evacuações hospitalares também devem cessar, dado o seu estatuto protegido pelo direito humanitário internacional.

Todas as partes devem acabar com a violência e prevenir quaisquer violações graves cometidas contra crianças e adolescentes.

Devemos ter acesso humanitário através de todas as passagens para a Faixa de Gaza, através de rotas de abastecimento seguras e eficientes. E as partes devem garantir a circulação segura e desimpedida de suprimentos humanitários e de pessoal em toda a Faixa de Gaza para a prestação de assistência humanitária, incluindo – mas não se limitando a – alimentos, água, medicamentos, combustível e eletricidade.

Finalmente, as medidas para impedir a entrada de eletricidade, alimentos, água e combustível em Gaza provenientes de Israel devem ser imediatamente revertidas, para que os civis possam ter acesso aos serviços de que necessitam para sobreviver.

Excelências, o UNICEF foi criado há quase 77 anos, das cinzas da Segunda Guerra Mundial. O nosso compromisso com a nossa missão nunca vacilou: defendemos os direitos de cada criança e cada adolescente.

Em nome de todas as crianças e todos os adolescentes vivendo neste pesadelo, apelamos ao mundo para que faça melhor. Quer sejam jovens participando de um festival de música ou crianças vivendo a sua vida quotidiana em Gaza, todos merecem paz. As crianças e os adolescentes não iniciam conflitos e são impotentes para impedi-los. Eles precisam que todos nós coloquemos a sua segurança na linha de frente dos nossos esforços e imaginemos um futuro em que meninas e meninos sejam saudáveis, estejam em segurança e tenham educação. Nenhuma criança, nenhum adolescente merece menos que isso.

Obrigada."

Contatos para a imprensa

Elisa Meirelles Reis
Oficial de Comunicação
UNICEF Brasil
Telefone: (61) 98166 1649
Luana Ribeiro Piotto
Oficial de Comunicação
UNICEF Brasil

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