64% dos jovens que vivem com HIV aprovam o acolhimento que recebem nos serviços de saúde, mas estigma é principal barreira para aderir ao tratamento, diz UNICEF

Estudo mostra as condições de acesso, acolhimento, tratamento e retenção de adolescentes e jovens vivendo com HIV nas unidades de saúde

01 dezembro 2023

Brasília, 1º de dezembro de 2023 – No Brasil, dos 43.403  casos de HIV notificados em 2022 (último disponível), quase a metade deles (41%) era de pessoas de 15 a 29 anos de idade. Para ouvir a opinião dessas e desses jovens, o UNICEF lança nesta sexta-feira, Dia Mundial de Combate à Aids, a pesquisa “Nós somos a resposta: O que adolescentes e jovens que vivem com HIV/aids pensam sobre o acesso aos serviços de saúde no Brasil”, realizada com o apoio do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) e da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA), e parceria técnica da Oppen Social.

A pesquisa revela que a maioria das e dos jovens que vivem com HIV ouvidos (64,2%) avalia positivamente o acolhimento que recebem nos serviços de saúde, enquanto 35,7% o consideraram razoável ou ruim. O estigma ainda existente em relação ao HIV/aids foi apontado como a maior barreira para um acolhimento adequado e humanizado.

“Um ambiente acolhedor dentro do sistema de saúde é fundamental para que essa ou esse jovem possa ter seu direito à saúde garantido. Fomentar esse acolhimento inclui, entre outros pontos fundamentais, a garantia do sigilo sobre o diagnóstico e a não reprodução do estigma social”, explica Luciana Phebo, chefe de Saúde do UNICEF no Brasil.

Segundo dados qualitativos da pesquisa, o sistema de saúde é valorizado por todos os adolescentes jovens entrevistados. Entretanto, existem desafios em relação ao preparo dos profissionais de saúde para trabalhar com pessoas vivendo com HIV. Dados quantitativos revelam que em torno de um quinto dos(as) respondentes afirma já ter vivenciado, no sistema de saúde brasileiro, situações como desrespeito à privacidade, desconforto durante o atendimento ou sentimento de culpa ou vergonha por ser uma pessoa com HIV/aids.

Entre os participantes, 13% relataram que tiveram seu diagnóstico positivo revelado sem consentimento pela equipe de saúde e 20% foram orientadas a não ter relações sexuais. Esses são dados preocupantes e que trazem consequências importantes em relação a barreiras para adesão ao tratamento.

Outros pontos destacados pelos(as) adolescentes e jovens foram a escassez de informações e falta de clareza na comunicação sobre possibilidades de tratamento e processo de marcação de exames e consultas. Entre as pessoas entrevistadas, cerca de 30% sinalizaram que a equipe de saúde forneceu informações conflitantes sobre o tratamento. Nesse caso, os coletivos de jovens se mostraram importantes para a troca de experiências e acolhimento entre pares.

Apesar dos desafios revelados pela pesquisa, houve relatos de profissionais de saúde que atuaram de forma acolhedora e inclusiva, e até de profissionais que passaram de suas atribuições no serviço de saúde para apoiar adolescentes e jovens, como enfermeiras que realizaram busca ativa dos jovens para que continuassem o tratamento antirretroviral, garantindo o sigilo do diagnóstico.

Em relação à testagem, 89,4% das pessoas entrevistadas disseram que realizaram o teste de carga viral nos últimos 12 meses e estavam indetectáveis. A grande maioria (91,7%) diz também que a equipe de saúde conversou sobre o teste de carga viral. “As altas taxas de testagem e de indetectabilidade do vírus mostram a importância do sistema público de saúde para a universalização do acesso e da realização do tratamento, para que se possa ter uma vida saudável”, complementa Luciana Phebo.

“As políticas que disponibilizam o tratamento para todas as pessoas que vivem com HIV e os investimentos em prevenção podem ser considerados bem-sucedidos, entretanto situações de discriminação ainda existem, e deveriam ser completamente eliminadas. A discriminação impede o alcance de uma cobertura universal de saúde e leva ao agravamento de desigualdades. A não discriminação é um princípio fundamental e obrigação fundamental dos direitos humanos”, defende Claudia Velasquez, diretora e representante do Unaids.

O objetivo do relatório foi obter informações que possam guiar políticas públicas e outras ações capazes de transformar unidades de saúde em espaços acolhedores para adolescentes e jovens, e empoderar redes de adolescentes e jovens e conscientizá-los sobre seus direitos em relação aos serviços de saúde universais, humanizados e de qualidade.

Casos de HIV/aids no Brasil
Apesar da contínua redução de novos casos na última década, o Brasil ainda apresenta altas taxas de novas infecções por HIV, principalmente entre pessoas jovens. Os dados mais recentes do Boletim Epidemiológico HIV/Aids do Ministério da Saúde apontam que, no ano de 2022, foram 43.403 casos de HIV notificados no Brasil, sendo 17.802 entre jovens de 15 a 29 anos de idade.

Mesmo com o avanço das formas de prevenção e tratamento do HIV e outras IST, fatores sociais e institucionais que discriminam pessoas de acordo com o seu gênero, orientação sexual, raça, etnia, classe social e deficiência ainda inviabilizam o acesso à informação e aos serviços de saúde. Esses fatores e os estigmas ainda existentes em torno do HIV e da aids acabam resultando no afastamento das pessoas na procura por testagens e tratamentos.

Diante desse contexto, é fundamental que haja intervenções de promoção da saúde sexual focadas na população de jovens. O material traz algumas recomendações apontadas pelas e pelos adolescentes e jovens ouvidos pela pesquisa para a melhoria do atendimento no serviço de saúde para pessoas que vivem com HIV/aids:

  • Ampliar o acesso à informação;
  • Implementar o acompanhamento psicológico desde o diagnóstico;
  • Expandir os atendimentos para ampliação do acesso;
  • Humanizar os cuidados em saúde;
  • Criar e ampliar campanhas públicas para desconstrução do estigma do HIV/aids;
  • Incluir e ampliar a participação de adolescentes e jovens com HIV nas decisões de políticas públicas de resposta ao HIV/aids;
  • Elaborar um protocolo de comunicação do I=I (indetectável = intransmissível) para profissionais de saúde, educadores(as) e outros(as).

Sobre o estudo
O estudo “Nós somos a resposta: O que adolescentes e jovens que vivem com HIV/aids pensam sobre o acesso aos serviços de saúde no Brasil” é uma iniciativa do UNICEF em parceria com o Unaids e com o apoio da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids. A pesquisa teve por objetivo compreender as condições de acesso, acolhimento, tratamento e retenção de adolescentes e jovens vivendo com HIV nas unidades de saúde das capitais brasileiras.

Um questionário online foi respondido por 710 pessoas de 17 a 31 anos, sendo 488 residentes das capitais e 222 de outros municípios; sete rodas de conversa foram realizadas com 70 adolescentes e jovens de sete capitais (Belém, Fortaleza, Manaus, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Luís); sete entrevistas de profundidade com lideranças de coletivos foram realizadas nas mesmas capitais.

Acesse o estudo na íntegra aqui.

Contatos para a imprensa

Elisa Meirelles Reis
Oficial de Comunicação
UNICEF Brasil
Telefone: (61) 98166 1649
Luana Ribeiro Piotto
Oficial de Comunicação
UNICEF Brasil

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