Desvendando as mentes inquietas

Compreendendo o TEA e o TDAH para uma vida plena e cheia de cores

#tmjUNICEF
06 outubro 2023

Imagine um parque de diversões repleto de atrações emocionantes, cada uma com sua peculiaridade e intensidade. Agora, transporte essa imagem para o universo das mentes inquietas, onde o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) reinam. Englobados pelo guarda-chuva da neurodiversidade, o TEA e o TDAH são transtornos ligados ao sistema neurológico. Esses transtornos, embora diferentes, compartilham o mesmo fato de desafiar a forma como as pessoas pensam, interagem, percebem e imaginam o mundo ao seu redor.

TEA: Um mergulho no universo autista
O TEA é um transtorno neurológico que afeta o desenvolvimento, o comportamento, a comunicação e a interação social. A causa exata do transtorno ainda é desconhecida, porém, evidências sugerem que seja uma combinação de fatores genéticos e ambientais. O diagnóstico e o conceito foram desenvolvidos por Leo Kanner, um psiquiatra austríaco que descreveu comportamentos e características específicas em crianças com autismo, durante a Segunda Guerra Mundial. No início, existia uma narrativa que culpava as mães, responsabilizando-as pelas condições de autismo em seus filhos. Acreditava-se, ainda, que o TEA era um transtorno dominante apenas em meninos, o que, por muito tempo, levou à negligência e à invisibilidade de pessoas do gênero feminino e adultos.

No entanto, com o tempo, especialistas questionaram essa narrativa, levando a uma compreensão mais abrangente do autismo, com uma concepção de origens orgânicas e não causadas pelos pais. Eles descobriram que o cérebro das pessoas autistas têm uma programação única, com seu próprio “sistema operacional”, que processa e reage a estímulos de maneiras atípicas. Assim, como pintores, eles são capazes de enxergar e expressar as cores da vida de maneira surpreendente e única.

TDAH: A montanha-russa da atenção e hiperatividade
Descrito inicialmente por Alexander Crichton em 1798, o TDAH surge a partir de análises clínicas de um livro sobre doenças mentais, que conceituou o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade como “desatenção patológica”, mas que, ao longo do tempo, foi diversas vezes modificado e reclassificado, acompanhando assim o desenvolvimento da ciência. Mais adiante na linha cronológica, no século XX, o médico britânico George Still, por meio de suas observações, torna-se pioneiro na oferta de bases clínicas para o diagnóstico sobre a condição, além disso promove a categorização do TDAH como um defeito de “vontade inibitória moral e de autocontrole”, que construiu hipóteses para questionamentos posteriores de reformulação do conceito e culminou a partir dessa dinâmica a atual definição pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V). Logo, tem-se que, de acordo com a quinta edição deste material, os principais pontos da sintomatologia são: desatenção, que está relacionada frequentemente à perda de foco, de objetos; e também comportamentos relacionados à hiperatividade como a inquietação, estímulos motores contínuos de mãos e pés e dificuldade em esperar. Mesmo contando com as devidas especificidades de cada indivíduo, essas pessoas podem apresentar esses sintomas de forma combinada e inicialmente precoce em seu desenvolvimento do engajamento pessoal, social e cognitivo – coexistindo desde jovens com uma montanha russa entre a desatenção e a hiperatividade.

TEA e TDAH: A vivência do adolescente e do adulto
O TEA e o TDAH são transtornos que afetam o cotidiano das pessoas. Porém, é preciso lembrar que os indivíduos possuem potencialidades para além dos seus diagnósticos. Nesse sentido, a vida do adolescente e do adulto é cercada por responsabilidades com a escola, faculdade, trabalho, etc. Nesses lugares, todos enfrentam dificuldades, assim como é uma experiência singular para sujeitos sem o transtorno, também é para quem possui alguma dessas condições de existência, contudo, por vezes, a maior dificuldade desses indivíduos é o próprio ser humano. Diante disso, é preciso que pensemos que o desconhecimento e o preconceito fornecem barreiras ainda maiores do que as apresentadas pelos transtornos em si.

Em vista disso, apesar dos avanços nos processos terapêuticos que promovem uma melhora no estado de saúde de pessoas autistas, possibilitando lidar com as dificuldades de socialização, comportamentos repetitivos de autorregulação (a exemplo do balançar as mãos com frequência) e na comunicação, bem como das leis que garantem a sua participação ativa na sociedade, as pessoas com TEA ainda enfrentam inúmeras dificuldades para se inserir no mercado de trabalho. Logo, para além dos processos discriminatórios no ambiente de trabalho, é possível perceber que, em muitos casos, o espaço não é pensado para atender às necessidades dos diferentes perfis de colaboradores.

Assim, como ilustrado no drama coreano "Uma Advogada Extraordinária" e na série "The Good Doctor", às vezes, o ambiente de trabalho oferece desafios para a atuação, não apenas na estrutura dos prédios, por exemplo, mas também nas atitudes dos colegas de profissão que não acreditam nas potencialidades dessas pessoas e na existência de fatores sensoriais que podem desestabilizar esses indivíduos, como barulhos altos, luzes fortes, falta de local apropriado para descanso e até mesmo falta de acomodações necessárias para que o seu desempenho não seja prejudicado. Entretanto, assim como é apresentado no drama e na série citados, a advogada e o médico que estão no espectro autista demonstram que são sim capazes de trabalhar perfeitamente bem, independente do transtorno. Isso não é diferente fora das telas! Na realidade, as pessoas com TEA trabalham e atuam tão bem no mercado de trabalho quanto qualquer neurotípico, demonstrando, assim, que, com o apoio adequado, o autismo não é uma barreira e que todos possuem potencial para grandes feitos.

Pessoas com TDAH também enfrentam problemas que não estão apenas vinculados ao transtorno por si só. Nesse contexto, sabemos que, embora a desatenção e a hiperatividade, características do diagnóstico, sejam identificadas como aspectos de dificuldade para o desempenho acadêmico, a forma com que essas adversidades são tratadas na escola pode influenciar em um melhor ou pior cenário para o futuro dos jovens com o transtorno. Visto isso, durante a aula um adolescente com TDAH pode não conseguir se concentrar adequadamente para absorver o conteúdo da forma como ele é ministrado e, por isso, apresentar um baixo rendimento em algumas atividades escolares. Assim, na comunidade acadêmica, os professores e os outros colegas, por não compreenderem bem o TDAH, podem apresentar preconceitos e não valorizar esse estudante pelo seu baixo rendimento.

Somado a isso, a fragilidade do sistema de ensino também acaba por trazer desconforto a esses jovens estudantes, pois a ausência de mecanismos efetivos para dinamizar o ensino e favorecer o aprendizado gera consequências relevantes, com impactos ao longo da vida desses indivíduos. Logo, esses adolescentes tornam-se adultos e o seu déficit no aprendizado acadêmico vai influenciar em outros âmbitos de sua vida, como o âmbito profissional. Sendo assim, as atitudes das pessoas que cercam alguém com TDAH influenciam na piora e maior problematização dos impactos negativos do transtorno. É importante que os professores e a escola em geral busquem formas de envolver esses alunos, para que o aprendizado seja consolidado efetivamente e sem grandes prejuízos acadêmicos ou psicológicos para os estudantes.

Portanto, é necessário lembrar que TEA e TDAH não são doenças e que não precisam de "cuidados especiais", mas sim condições de existência que demonstram apoios diferentes e singulares, assim como as vivências de cada pessoa que também são exclusivas. Logo, é importante que os espaços escolares, acadêmicos e de trabalho sejam pensados para acolher as diversidades, mas principalmente que as pessoas nesses espaços estejam abertas para tanto compreender as diferenças individuais quanto fazer as acomodações necessárias para a inserção dos indivíduos neurodivergentes, além de ser conscientes a respeito das potencialidades de cada pessoa. Por fim, é possível concluir que independente de qualquer aspecto, nossas vivências são únicas e as habilidades de cada um são ricas em potencialidades que apenas necessitam de condições adequadas para se desenvolver.

Caso queira conhecer mais sobre esses transtornos, deixamos abaixo algumas dicas de séries, dramas e podcasts sobre o transtorno do espectro autista:

Uma Advogada Extraordinária
Em Uma Advogada Extraordinária, Woo Young Woo (Park Eun Bin) é uma advogada de 27 anos no espectro autista. Criada pelo pai solteiro, ela tinha apenas uma amiga na escola que a protegia dos colegas que praticavam bullying. Na vida adulta, Young Woo se tornou uma advogada excelente, conseguindo um trabalho em um grande escritório de advocacia, envolvendo-se com casos criminais incomuns e complexos. A série tem foco no crescimento de Young Woo como advogada e pessoa, enquanto ela conhece novas pessoas que vão fazer a diferença em sua vida.

Atypical
Em Atypical, Sam Gardner (Keir Gilchrist) é um jovem autista de 18 anos que está em busca de sua própria independência – começando por arrumar uma namorada. Nessa jornada repleta de desafios, mas que rende algumas boas risadas, ele e sua família aprendem a lidar com as dificuldades da vida e descobrem que o significado de "ser um pessoa normal" não é tão óbvio assim.

The Good Doctor
Em The Good Doctor, um jovem cirurgião diagnosticado com savantismo (distúrbio psíquico raro que acomete pessoas com autismo), é recrutado para trabalhar na ala pediátrica de um hospital de prestígio. Apesar do seu incrível conhecimento na área da medicina, esse médico não consegue se relacionar com o mundo à sua volta. Resta saber se essa dificuldade será um problema na hora de salvar vidas.

Podcast: Esquizofrenoias – Amanda no Espectro
Nesse podcast, a comunicadora Amanda Ramalho discute com diferentes convidados sobre questões acerca de saúde mental. Foi somente em 2023 que o quadro “Amanda no Espectro” foi criado, a partir do diagnóstico da própria podcaster, em que cada episódio conta com participação de pessoas no espectro, profissionais e ativistas da causa, falando sobre dificuldades cotidianas, processo diagnósticos e rede de apoio, com muito humor.

Podcast: Introvertendo
Como o próprio jargão de abertura define, o Introvetendo é um podcast onde autistas conversam. Com mais de 200 episódios no formato de roda de conversa, temas como saúde, relacionamentos, vida adulta, inclusão social e tantos outros são discutidos pela perspectiva de quem cresceu com o diagnóstico, quem teve diagnóstico tardio e aqueles que ainda estão sob avaliação.


Referências:

  • SOUSA, N. et al. Transtorno do Espectro Autista (TEA) na criança. Psicologia em Estudo, v. 41, p. 1-10, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pe/a/Gd3KgdZhpWFdTHrgbDRNr5S/. Acesso em: 9 de jun. de 2023.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Transtorno do Espectro Autista. Linhas de Cuidado. Disponível  em:  https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtorno-do-espectro-autista/definicao-tea/. Acesso em: 9 de jun. de 2023.
  • ADORO CINEMA. Uma advogada extraordinária, Atypical e The Good Doctor. Disponível em: https://www.adorocinema.com/. Acesso em: 9 de jun. de 2023.
  • RODRIGUES, Nara; LIMA, Suellen. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em adultos: uma revisão bibliográfica. Guajajaras: RUNA - Repositório Universitário da Ânima, 2021. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2023.
  • TALARICO, M. V. T. da S.; PEREIRA, A. C. dos S.; GOYOS, A. C. de N. A inclusão no mercado de trabalho de adultos com Transtorno do Espectro do Autismo: uma revisão bibliográfica. Revista Educação Especial, [S. l.], v. 32, p. e119/ 1-19, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/39795. Acesso em: 11 jun. 2023.
  • CALIMAN, V. Luciana. Notas sobre a história oficial do transtorno do déficit de atenção/ hiperatividade TDAH. Psicologia : Ciência e Profissão, SciELO  Disponível em : https://www.scielo.br/j/pcp/a/K7H6cvLr349XXPXWsmsWJQq/. Acesso em : 14 jun. 2023.
  • American Psychiatric Association (2003) DSM-5-TR:Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (ed.rev) Porto Alegre , RS : Artes Médicas. https://www.sanarmed.com/diagnostico-tdah-pospsq . Acesso em : 14 jun. 2023.
  • AGÊNCIA DE PODCAST. Esquizofrenoias | Amanda no Espectro. Entrevistadora: Amanda Ramalho. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/show/2g1dO4bAiWtx5Bdip8gQLk?si=db67b2c0385f4be2
  • SUPERPLAYER & CO. Introvertendo - Autismo por Autistas. Entrevistadores: Tiago Abreu, Luca Nolasco, Michael Ulian, Thaís Mosken, Paulo Alarcón, Willian Chimura e Carol Cardoso. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/show/2uxjsIM6Kfvp33iFRDZoCm?si=9b9cd333030b4533

Redação: Amanda Silva Araújo, Raquel Maciel da Costa, Rayandra M. Faria De Freitas, Thaiane Santana Santos, Ana Paula Cruz de Almeida, Glória Helen Amorim da Silva
Revisão: Gabriela Madalena Marques Pereira

Blog escrito pelas voluntárias e pelos voluntários do #tmjUNICEF, o programa de voluntariado digital do UNICEF. São adolescentes e jovens de todo o Brasil que participam de formações sobre direitos de crianças e adolescentes, mudanças climáticas, saúde mental e combate às fake news e à desinformação.

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