Todos ganham quando as escolas se tornam amigas da criança - e Angola mostra o porquê

Professores treinados e escolas com serviços de água e saneamento são condições para criar o ambiente que as crianças precisam para aprender

Heitor Lourenço, Oficial de Comunicação
Felicidade Bernarda e Domingas Gabriel, de 10 anos, estudantes da escola n.º 141 em Cuenha, Moxico
UNICEF Angola/2018/Marco Prates

23 Outubro 2018

Quando a Felicidade, de 10 anos, ingressou na escola nº 141, no bairro Cuenha, na província do Moxico, os estudantes eram forçados a levar água de casa para  beber. Não havia água corrente disponível na escola. As sanitas ficavam fechadas e cheiravam mal. A casa de banho era toda a área ao redor da escola.

"Hoje temos água que sai do tanque. Também usamos para irrigar as plantas", diz Felicidade, agora aluna da 3ª classe da Escola Amiga da Criança, uma abordagem apoiada pelo UNICEF e implementada em três províncias de Angola. No Moxico, cinco escolas fazem parte do programa.

Felicidade Bernarda está entre os 8.000 alunos beneficiados pelo projecto na província. Ela acorda diariamente por volta das 6 da manhã e começa a sua caminhada de 30 minutos até a escola depois do pequeno almoço. Ela não esconde a sua felicidade com o novo ambiente de aprendizagem: ela se sente amada pelos colegas e recebe a atenção dos professores.

Um ambiente saudável e acolhedor para as crianças é uma das condições prévias para melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem de acordo com a abordagem da Escola Amiga da Criança. O objectivo é criar um ambiente educacional onde todas as crianças possam adquirir experiências de aprendizagem positivas com a participação dos pais e da comunidade, num ambiente baseado nos direitos, academicamente eficiente, sensível ao género, seguro, protector e saudável.

Foco no professor

Além de promover o saneamento e o acesso à água, a abordagem dedica atenção aos professores, já que profissionais do ensino no país se vêem subitamente responsáveis ​​por salas de aula lotadas com crianças enérgicas, mas não têm o treinamento adequado.

"Eu costumava ir à escola sem me preparar. Eu vinha com os livros nas mãos e só dava as aulas", lembra a professora de Felicidade, Anabela Camisa, 42, que fez das salas de aula a sua segunda casa há mais de duas décadas.

Anabela Camisa, professora da Escola nº141 em Cuenha, Moxico, ensina a aluna Felicidade Bernarda, de anos. A instituição é uma Escola Amiga da Criança.
UNICEF Angola/2018/Marco Prates
Para a professora Anabela Camisa, os treinamentos profissionais sobre a participação dos alunos melhoraram o aprendizado das crianças em suas aulas

Mesmo já tendo longa experiência profissional, ela reconhece que através das formações aprendeu maneiras inovadoras de interagir com os alunos e envolvê-los nas suas aulas.

"Uma lição valiosa é que não é somente o professor que deve falar. Quando eu dou aos alunos a oportunidade de se expressar, a aprendizagem melhora"

Anabela Camisa, professora numa Escola Amiga da Criança

Tal como Anabela, mais de 140 professores da província do Moxico foram formados desde 2014 para melhorar os seus métodos de ensino e a participação dos estudantes, assim como em conteúdos tais como higiene, saneamento e saúde sexual e reproductiva dos adolescentes.

Esforço colectivo

Há um ditado africano que afirma que é necessário o esforço e a atenção de toda uma aldeia para educar uma criança, o que destaca a importância da comunidade na educação de todos os meninos e meninas.

A abordagem da Escola Amiga da Criança procura reforçar este aspecto, sendo um dos seus princípios a participação da comunidade e dos estudantes no desenvolvimento e melhoria da escola.

Por meio de reuniões regulares entre a escola, os pais e a comissão de pais, algumas actividades são definidas para a manutenção e gestão da instituição. "A vantagem é que a escola não pode decidir nada sem que os pais e professores também participem. Quando queremos fazer algo, sentamos juntos e vemos se podemos seguir em frente", diz Teresa da Conceição Muteji, directora da escola nº 174, localizada no bairro de Zorró, periferia do Luena e parte do projecto desde 2014.

Teresa da Conceição Muteji, directora da Escola nº 174, em Luena (Moxico), com os alunos da escola.
UNICEF Angola/2018/Marco Prates
A participação dos pais é um grande trunfo para a gestão escolar, segundo a directora Teresa da Conceição Muteji. Ela trabalha desde o início com a abordagem da Escola Amiga da Criança na província do Moxico, em 2014

As actividades desenvolvidas pelos pais e pela direção da escola estão listadas no Projecto de Educação Escolar, desenvolvido de forma participativa no início da implantação da Escola Amiga da Criança. Este projecto identifica os problemas e as soluções para os desafios da escola, bem como as responsabilidades a serem partilhadas entre os pais e a escola.

Para a escola de Teresa, o próximo desafio da direcção e da comissão de pais é construir um muro na parte de trás da escola para melhorar a segurança das crianças. Além disso, foi através da gestão participativa que tanto a escola quanto a comunidade ao redor, puderam beneficiar do tanque de água instalado no centro de ensino que funciona de forma integral.

A água permite que todas as Escolas Amigas da Criança mantenham espaços verdes disponíveis para as crianças cuidarem e brincarem. Felicidade e a sua amiga, Domingas Gabriel, de 10 anos, fazem parte do grupo de estudantes que ajudam os professores a manter os espaços verdes regando as plantas duas vezes ao dia.

Você pode pensar que essa é a parte favorita do dia para as meninas - ou até mesmo brincar nos intervalos - mas o que a Domingas mais gosta na sua escola é algo que ela recebe diariamente: informações preciosas para uma vida melhor. “Entre as várias coisas, a directora e a professora me ensinaram a importância de lavar as mãos”, lembra ela, afirmando que todo o conhecimento que ela ganha, leva para casa para o benefício da sua família.