Proteger as crianças mais vulneráveis do impacto do Coronavírus: uma agenda para colocar em acção

Precisa-se urgentemente de uma coordenação global para evitar que esta crise de saúde seja uma crise de direitos da criança

UNICEF
Acção urgente para a protecção da criança
UNICEF/UNI316644/Frank Dejongh
17 Abril 2020

A pandemia do coronavírus (COVID-19) está numa escala que muitas pessoas nunca tinham visto em toda a sua vida. A nível mundial o surto está a ceifar vidas e recursos a medida que os sistemas de saúde colapsam, as fonteiras são fechadas e famílias lutam para sobreviver.

Comunidades em todo o mundo mantêm-se firmes diante dos desafios – desde os trabalhadores de saúde que arriscam a sua vida para lutar contra o vírus, aos jovens que criam formas inovadoras de partilhar mensagens sobre saúde publica,

Até agora a medida que a proliferação do vírus reduz em alguns países o impacto social aumenta muito rápido. Em muitos lugares deverá custar caro para as crianças mais vulneráveis. 

 

Se não houver uma acção urgente, esta crise de saúde corre o risco de se transformar numa crise para os direitos da criança

Se não houver uma acção urgente, esta crise de saúde corre o risco de se transformar numa crise de direitos da criança. Rupturas nas sociedades têm um grande impacto nas crianças: na sua segurança, no seu bem estar, no seu futuro. Somente trabalhando juntos podemos manter milhões de meninos e meninas com saúde, seguros e a aprender - incluindo aqueles que deixaram as suas terras devido os conflitos, crianças com necessidades especiais e meninas em risco de sofrer violência.

O UNICEF apela para uma acção global urgente:

1. Manter a saúde da criança

Os esforços internacionais para fortalecer os sistemas de saúde - garantindo que os suprimentos e equipamentos de protecção cheguem às comunidades afectadas e treinando os profissionais de saúde para prevenir, diagnosticar e tratar a doença do coronavírus – terão ainda um longo caminho a percorrer para combater o vírus. Mas os sistemas de saúde sobrecarregados ameaçam mais os mais vulneráveis do que aqueles que adoecem com o COVID-19.

Nos lugares mais pobres do mundo, as crianças que precisam de serviços básicos, porém essenciais - incluindo aquelas que precisam de protecção contra doenças como pneumonia, malária e diarréia - correm o risco de não recebê-las. À medida que os sistemas de saúde se desdobram para dar resposta ao COVID-19, bebés e crianças perdem as suas vidas por causas evitáveis.

O UNICEF apela aos governos e parceiros para que apoiem os serviços de saúde materna, neonatal e infantil, que salvam muitas vidas. Isso significa continuar a atender às necessidades urgentes do COVID-19, enquanto se realizam intervenções críticas de saúde - como o financiamento para vacinação - que garantem que as crianças sobrevivam e prosperem. A resposta ao COVID-19 deve procurar fortalecer os sistemas de saúde a longo prazo.

2. Garantir água, higiene e saneamento para as crianças mais vulneráveis

Protegermo-nos a nós mesmos e aos outros através de práticas adequadas de higiene e lavagem das mãos  nunca foi tão importante. Mas muitas crianças ainda não têm acesso às instalações básicas com água e higiene.

Algumas crianças não têm acesso a água potável porque vivem em áreas remotas ou em locais onde a água não é tratada ou poluída. Outras crianças não têm acesso a instalações porque estão sem casa, a morar numa casas se condições mínimas ou na rua.

O UNICEF apela aos governos para que priorizem essas crianças. E pedimos urgentemente o financiamento e o apoio para que possamos alcançar mais meninas e meninos com instalações básicas de água, saneamento e higiene.

3. Manter o ensino e aprendizagem da criança

À medida que as escolas ao redor do mundo são encerradas para impedir a disseminação do COVID-19, pais, cuidadores e educadores têm respondido de forma positiva, encontrando novas maneiras de manter as crianças a aprender por meio de mecanismos inovadores. Mas nem todas as meninas e meninos têm acesso a alguns mecanismos inovadores com a Internet, livros ou material escolar.

Devemos fazer mais para garantir que todas as crianças tenham igual acesso à aprendizagem. O UNICEF pede aos governos que ampliem as opções de aprendizado em casa, incluindo soluções sem tecnologia e de baixa tecnologia, e priorizem a conectividade com a Internet em áreas remotas e rurais. Com mais de 800 milhões de crianças fora da escola, agora não é hora de retirar o financiamento nacional para a educação. O UNICEF e os parceiros continuarão a trabalhar juntos para reduzir o fosso digital e manter as crianças a aprender, não importa onde estejam.

Yuanyuan, de cinco anos (nome fictício), descasca uma laranja na enfermaria onde mora agora, num hospital em Wuhan, na China, em 17 de fevereiro de 2020. Yuanyuan era a única em sua família que não estava infectada pelo COVID-19. Ela ficou em casa até a equipa médica do hospital se oferecer para cuidar dela
UNICEF/UNI304657/Cui
Yuanyuan, de cinco anos (nome fictício), descasca uma laranja na enfermaria onde mora agora, num hospital em Wuhan, na China, em 17 de fevereiro de 2020. Yuanyuan era a única em sua família que não estava infectada pelo COVID-19. Ela ficou em casa até a equipa médica do hospital se oferecer para cuidar dela

4. Apoiar as famílias para suprir as suas necessidades e cuidar das suas crianças

O impacto socioeconómico do COVID-19 será sentido pelas crianças mais vulneráveis do mundo. Muitas já vivem na pobreza e as consequências das medidas de resposta ao COVID-19 correm o risco de mergulhá-las e as suas famílias em maiores dificuldades.

À medida que milhões de pais lutam para manter os seus meios de subsistência e renda, os governos devem ampliar as medidas de protecção social - programas e políticas que proporcionam as famílias cuidados de saúde, nutrição e educação que salvam vidas.

A protecção social inclui transferências de renda e apoio à alimentação e nutrição. Inclui governos a ajudarem a proteger empregos e a trabalhar com empregadores para apoiar adequadamente os pais que trabalham.

Sem uma acção urgente para mitigar o impacto social e económico da pandemia do COVID-19, dezenas de milhões de crianças que já vivem à beira da dificuldade cairão na pobreza.

5. Proteger a criança contra a violência, exploração e abuso

À medida que as comunidades entram em ruptura, as crianças que já correm risco de violência, exploração e abuso tornam-se ainda mais vulneráveis.

A turbulência social e económica aumentará o risco do casamentos precoce assim como a gravidez e a violência baseada no género entre as meninas. Com o isolamento, as crianças que enfrentam violência em casa ou on-line estarão terão mais dificuldades em obter ajuda. E o estresse e o estigma da doença e da tensão financeira tornarão o ambiente nas famílias mais propícios para a violência.

Devemos impedir que essa pandemia se transforme numa crise para a protecção da criança. Ao planear o distanciamento social e outras medidas de resposta ao COVID-19, os governos precisam ter em conta os riscos exclusivos por que passam as meninas e crianças vulneráveis, incluindo aquelas que enfrentam discriminação e estigma. Devemos apoiar as crianças que podem ser temporariamente separadas dos seus pais devido a doença e trabalhar juntos para nos prepararmos para uma onda de pessoas que procuram soluções de protecção e saúde mental, a distância.

6. Proteger as crianças refugiadas, migrantes e aquelas afectadas por conflitos

Todos os dias, crianças refugiadas, crianças migrantes e crianças afectadas por conflitos enfrentam ameaças indescritíveis à sua segurança e bem-estar e isso na ausência de uma pandemia. Para muitas dessas meninas e meninos, o acesso a cuidados e instalações básicas de saúde é extremamente limitado, enquanto as condições de vida restritas tornam inviável o distanciamento social.

As necessidades humanitárias não devem ser esquecidas durante a resposta do COVID-19. O Secretário-Geral das Nações Unidas pediu um cessar-fogo global para concentrar a nossa luta num inimigo comum, que não conhece fronteiras. Os sistemas de saúde nos países devastados pela guerra já estão à beira do colapso. Cabe à comunidade internacional unir-se  em apoio às crianças mais vulneráveis - aquelas que são arrancadas da suas famílias e lares - para defender os seus direitos e protegê-las da propagação do vírus.

Em 26 de março de 2020, crianças na cidade de Binnish, Síria, assistem a um membro da Defesa Civil síriaa  desinfectar um antigo prédio escolar, agora habitado por famílias deslocadas, como parte das medidas para impedir a propagação do COVID-19.
UNICEF/UNI316131/Haj Kadour/AFP
Em 26 de março de 2020, crianças na cidade de Binnish, Síria, assistem a um membro da Defesa Civil síriaa desinfectar um antigo prédio escolar, agora habitado por famílias deslocadas, como parte das medidas para impedir a propagação do COVID-19.

O que o UNICEF está a fazer?

A nossa resposta a pandemia do coronavírus deve contribuir para a construção de um futuro melhor para as nossas crianças. Em todo o mundo, o UNICEF está a trabalhar com as comunidades, governos e parceiros para reduzir a propagação do COVID-19 e minimizar o impacto social e económico nas crianças e nos seus familiares.

Comprometemo-nos em:

  • Trabalhar com os governos, autoridades e parceiros globais do sector da saúde para assegurar que suprimentos e equipamentos de protecção chegam as comunidades mais vulneráveis. 
  • Priorizar a entrega de medicamentos, suprimentos nutricionais e vacinas, e trabalhar próximo dos governos e redes de logística para mitigar o impacto das restrições de viagem na entrega deste suprimentos.
  • Trabalhar com os parceiros para assegurar disponibilização de instalações sanitárias, água e higiene as comunidade mais vulneráveis.
  • Distribuir mensagens e conselhos vitais de saúde pública para reduzir a transmissão do vírus e minimizar a mortalidade.
  • Apoiar os governos para manter as escolas seguras e garantir que as crianças continuem a  aprender mesmo em casa.
  • Fornecer aconselhamento e apoio aos pais, responsáveis e educadores para apoiar o aprendizado em casa e à distância, e trabalhar com parceiros para preparar soluções educacionais inovadoras.
  • Orientar os empregadores sobre a melhor forma de apoiar os pais que trabalham e planear novas soluções de protecção social que garantam que as famílias mais pobres possam aceder a financiamentos.
  • Proporcionar a partilha de informações entre jovens para apoiar a sua saúde mental e combater o estigma, a xenofobia e a discriminação.
  • Intensificar o nosso trabalho com crianças refugiadas e migrantes e com as pessoas afectadas por conflitos para garantir que elas estejam protegidas do COVID-19.