A jornada de Maiamba pelo seu direito a aprender

A mais velha entre duas meninas e dois rapazes, Maiamba é a responsável pela casa e pelos irmãos quando a sua mãe e avó, que são camponesas, estão a trabalhar

Lara Longe, Consultora de Comunicação
11-year old Maiamba and her best friend, Sofia, residents in Caboco, Angola
UNICEF/Angola/2018/Lara Longle

14 Dezembro 2017

Caboco, Angola - Maiamba tem 11 anos e está ano terceiro ano do ensino primário. Quer ser professora, médica e dançar ao som de Baki Makela & Socorro com os seus futuros filhos. Ela ajuda a mãe e a avó na lavra desde os sete anos. 

A mais velha de duas meninas e dois rapazes, Maiamba é a responsável pela casa e pelos irmãos quando a sua mãe e avó, que são camponesas, estão a trabalhar.  

“Estudo no segundo período, durante a tarde, quando a minha mãe e avó já estão em casa. Durante a manhã trato dos pratos, do chão e dos meus irmãos. Depois brincamos um pouco e jogamos à macaca e à bola e, às vezes, fingimos que temos uma bicicleta”, conta Maiamba, enumerando as brincadeiras pelos dedos da sua mão direita. 

Depois de terminar a quarta classe, Maiamba não sabe se vai continuar a estudar. Em Angola, sobretudo nos meios rurais, as meninas interrompem muitas vezes os seus ciclos escolares para ajudarem a cuidar dos seus familiares e assumirem as tarefas domésticas e do campo. Segundo os dados do Censo 2014, nesse ano, a nível nacional, apenas 11,36% das meninas frequentaram o primeiro ciclo do ensino secundário e 5,2% o segundo ciclo. Apenas 1,9% concluíram o ensino universitário e as opções profissionalizantes são pouco conhecidas. De acordo com a mesma fonte, em 2014, 28% das meninas angolanas dos 5 aos 18 anos estava fora da escola. 

Maiamba conta que as tarefas da lavra não são fáceis, que os produtos levam o seu tempo a crescer e que depois da apanha ainda é necessário tentar vender os produtos. “Se fosse mais fácil, se calhar eu ajudava primeiro na lavra, para os meus irmãos estudarem, e depois ia eu”, explica-nos, falando das conversas que tem com a sua mãe e avó.

A população rural em Angola depende sobretudo da agricultura, da caça e da pesca, incentivar a agricultura familiar num contexto rural pode reduzir a pobreza e vulnerabilidade das comunidades, criando mais oportunidades alimentares e comerciais para as famílias e aumentando a oportunidade de acesso a serviços e à educação, sobretudo no caso das meninas, as com menos acesso a uma lavra própria. 
 

11-year old Maiamba and her best friend, Sofia, residents in Caboco, Angola
UNICEF/Angola/2018/Lara Longle
Maiamba, à esquerda, e a sua melhor amiga, Sofia

Para ajudar as famílias como as de Maiamba na produção e comercialização agrícola e aumentar as oportunidades de acesso à Educação das crianças em zonas rurais, o UNICEF está a apoiar o Governo de Angola na implementação de um projecto-piloto de apoio à Protecção Social, o APROSOC, financiado pela União Europeia, do qual faz parte um modelo de descentralização da acção social, a sua municipalização. 

“A Municipalização da Acção Social prevê a contratação de activistas sociais que, nas suas comunidades, vão identificar as pessoas em situação de vulnerabilidade social e encaminhá-las para as soluções e serviços já disponibilizados ou previstos pelo Estado, a partir do Centro de Acção Social Integrada”, explicou Glayson Ferrari, chefe da secção de Políticas Sociais do UNICEF. 

“No caso da família de Maiamba, este apoio pode significar o acesso a associações de produção e venda viradas para o mercado, um incentivo à agricultura familiar especialmente desenhado para as mulheres”, esclareceu Glayson Ferrari, “reduzindo o ciclo de pobreza nas famílias e aumentando as oportunidades da realização dos direitos da Maiamba e das crianças a viverem em zonas rurais, tendo impacto também na diminuição do abandono escolar e aumento do acesso à Educação no nível médio e universitário”. 

“Se eu conseguir ser professora, posso ensinar muitas coisas aos meus irmãos, e se for médica posso ajudar a minha mãe e avó, que às vezes já têm alguns problemas. Vou ser feliz e dançar com os meus futuros filhos aquelas músicas todas do Baki Makela e do Socorro”.

A um ano e meio de terminar o ensino primário, Maiamba tem esperança que vai conseguir ir para o ensino médio com Sofia, a sua melhor amiga. Dividem a carteira da escola, as brincadeiras e as raras maçãs das quais tanto gostam. Não aceitaram não dividir o espaço desta fotografia.