Formas tradicionais de comunicação facilitam a promoção dos serviços sociais em Angola

Um relato sobre o impacto da tradição das narrativas orais no país

Lara Longle, Consultora de Comunicação
Seven boys from Moxico Province smile
UNICEF/Angola/2017/Lara Longle

30 Outubro 2017

Chegámos ao Moxico de madrugada. O nosso avião aterrou na capital da província angolana, Luena, mas rapidamente nos fizemos à estrada para um dos seus municípios, o Lucusse, a 113 chuvosos quilómetros.

Viemos encontrar-nos com os protagonistas da Municipalização da Acção Social, os activistas sociais, para juntos entendermos como falar de Acção Social às suas gentes. Os activistas sociais são mulheres e homens da região que, com o apoio das autoridades tradicionais e líderes religiosos, vão identificar nas suas comunidades casos de pessoas em situação vulnerável e encaminhá-los para as soluções de protecção social existentes no País.

A Municipalização da Acção Social, um modelo do projecto APROSOC (Apoio à Protecção Social), tem como principal objectivo a descentralização dos serviços de acção social. Levar esses serviços para mais perto da população, através dos activistas, é o seu principal objectivo. Um projecto do Governo de Angola, o APROSOC é financiado pela União Europeia e está sob a responsabilidade do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, que conta com o apoio técnico e de implementação do consórcio Louis Berger e do UNICEF.

The pre-selected social activists from Kamanongue, Moxico, Angola
UNICEF/Angola/2017/Lara Longle
Os activistas sociais pré-seleccionados de Kamanongue, Moxico, Angola

A Municipalização da Acção Social tem por objectivo levar os serviços de acção social para mais próximo das comunidades

O Moxico é uma das províncias onde se irá desenvolver o projecto-piloto deste modelo, e foi onde conhecemos os activistas pré-seleccionados do Lucusse e de Kamanongue. Em todas as comunidades que visitamos fomos recebidos com umas calorosas boas-vindas em Tchokwe, uma das principais línguas locais.

Ligar ao vídeo no seu sítio de origem
UNICEF/Angola/2017/Lara Longle
As boas vindas em Musseringinge

Em Angola, apesar da língua oficial ser o Português, existem mais de 20 línguas nacionais e dezenas de dialectos. Nesta província, a de maior expressão é o Tchokwe, com muitos falantes de Luvale e Umbundo também. Todos se entendem, existe alguma semelhança entre estas línguas nacionais e quase toda a população domina o Português. As gargalhadas e os abraços são quase sempre em Tchokwe. É a língua de casa, dos afectos. E terá de ser também uma das línguas da Municipalização, prevendo assim a tradução do material informativo e dos manuais para a formação de activistas.

A proximidade e a confiança devem ser características fundamentais da protecção social e dos seus agentes locais, os activistas. Foi com eles que, através de diferentes dinâmicas de grupo e jogos relacionados com a forma de comunicar, chegámos a um dos mais poderosos canais de transmissão de mensagens em Angola, a tradição.

O impacto da tradição das narrativas orais em Angola

No país, para entendermos a comunicação a nível local é necessário falar de autoridades tradicionais: os sobas. Das grandes cidades às pequenas aldeias, os sobas são gestores sociais que juntamente com as administrações locais orientam as populações. Homens e mulheres geralmente mais velhos, os sobas têm mantido a tradição de narrativas orais em Angola, convocando os ondjangos, encontros comunitários que pelo Moxico, e em Tchokwe, se designam de txota!

Angolan Soba
UNICEF/Angola
Em Angola, as autoridades tradicionais, como os soba, desempenham um papel essencial na transmissão de informações

Em Musseringinge, uma regedoria de Camanongue que nos recebeu nesta visita, funciona assim:

O regedor, que recebe informação actualizada da administração comunal, mantém encontros periódicos com os sobas das aldeias, que as passam à comunidade. Existem duas formas distintas de transmissão de mensagens, os “ondjangos”, para os quais a comunidade é convocada (às vezes por megafone) e, debaixo de uma sombra, se reúnem para conversar com o soba; ou através dos “mensageiros”, mulheres e homens que, porta-a-porta, transmitem as mensagens importantes.

Os métodos também são válidos para saber as últimas notícias do país e do mundo. Sem acesso, ou com acesso limitado a energia eléctrica, o que condiciona a utilização da rádio ou da televisão, muitas aldeias sabem as novidades através do fluxo de comunicação tradicional.

UNICEF meeting with citizens from Lucusse and Kamanongue, Moxio, to discuss the APROSOC project
UNICEF/Angola/2017/Lara Longle
Os ondjangos são reuniões comunitárias que muitas vezes acontecem à sombra de uma árvore

O primeiro contacto com os serviços de Acção Social começa no momento em que o Activista Social cumprimenta a comunidade, identifica casos de vulnerabilidade e sabe adaptar a sua narrativa aos interlocutores, ouvindo, dialogando e promovendo a participação. Para encaminhar um caso para os diferentes serviços sociais é preciso entender e ser entendido, tornando assim óbvia a necessidade de utilizar o fluxo de comunicação tradicional para o trabalho dos activistas.

Habituados à transmissão oral de conhecimentos, os mais-velhos em Angola têm um poder narrativo muito grande, são praticamente especialistas na transmissão de mensagens, contando histórias com uma linguagem simples e expressiva. O seu conhecimento e técnicas de narrativas tornam-se essenciais para cumprir a proximidade e confiança que os activistas devem ter junto às populações vulneráveis.

Foi a Tradição que nos apontou o caminho para a transmissão efectiva de mensagens a nível local: unir a energia e domínio de novas ferramentas de comunicação dos mais jovens com o poder da tradição oral dos mais-velhos.

Municipal technicians consult families for the production of the vulnerability diagnosis of the APROSOC project, in Kissenguele village, Uige Province
UNICEF/Angola/2016/Vinicius Carvalho
As narrativas orais são mantidas em Angola pelos mais velhos, especialistas em contar histórias

Assim, o UNICEF e os activistas de Kamanongue e do Lucusse vão preparar ondjangos com as autoridades tradicionais e líderes religiosos para discutirem a Municipalização e, através do fluxo de comunicação tradicional já existente, levar os serviços de Acção Social às comunidades. Marcaremos também encontros com professores, técnicos de saúde e catequistas para, debaixo da sombra de um imbondeiro, falarmos da importância da protecção social. Passaremos a informação através da tradicional roda de conversa e contamos com a ajuda de todos os megafones dos mensageiros dos sobas.

Regressar a Luanda, a capital do País, deixa muitas saudades do Moxico, seus municípios, regedorias e aldeias — das suas pessoas. Depois de comprar os deliciosos cogumelos e mel da zona e de teclar os longos relatórios, esperando já pela decolagem do avião, as mensagens vão chegando através de uma das ferramentas mais poderosas da comunicação: a simpatia.

Originalmente publicado no Medium.