Escola do Bié contribui para a mudança de hábitos de higiene das crianças

No município do Cuíto, uma Escola Amiga da Criança causa mudanças nos hábitos de higiene dos alunos

Heitor Lourenço, Oficial de Comunicação Digital
Student Graça Francisco washes his hands in a tip tap of a Child Friendly School in Cuito, Bié Province
UNICEF/Angola/2017/Heitor Lourenço

28 Agosto 2017

Cuíto, Angola - É comum dizer-se que a escola é a segunda casa de uma criança, por isso, a segunda casa deve possuir as condições básicas para que a criança se sinta confortável, segura e desenvolva o seu pleno potencial.

No município do Cuíto província do Bié existe uma escola onde este propósito tem servido de motivação para a Direcção, professores e encarregados de educação. Trata-se da escola Joaquim Capango localizada no bairro Cavanga I. A Escola do ensino primário lecciona da iniciação a sexta classe e no presente ano lectivo matriculou 1070 alunos divididos em dois períodos. É uma das cinco escolas inseridas no projecto das Escolas Amigas da Criança, do Ministério da Educação e apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

O conceito das Escolas Amigas da criança promove seis princípios: 1) baseada nos Direitos de todas as crianças; 2) Escola segura e protectora 3) Escola Saudável e Higiénica 4) Sensível a questão de género 5) Com ensino e aprendizagem de qualidade e 6) de participação comunitária. O princípio número três engloba dentre outros aspectos o acesso a condições de água e saneamento. Devido a implementação deste princípio, começam a ser verificadas mudanças no comportamento de algumas crianças quanto aos hábitos de higiene e saneamento.

“Antes, quando a comida estivesse na mesa, saiam da brincadeira e comiam com as mãos sujas, mas agora já não. Elas pedem para lavar as mãos”

Matilde Chova é coordenadora da comissão de pais e encarregados de educação há dois anos, e tem duas filhas a estudar na Escola Joaquim Capango. Ela sente-se satisfeita porque já nota os resultados da colaboração para as acções de promoção da higiene e saneamento tanto na escola quanto em casa. A coordenadora afirma que houve uma mudança no comportamento das suas filhas, em casa. “Antes, quando a comida estivesse na mesa, saiam da brincadeira e comiam com as mãos sujas, mas agora já não. Elas pedem para lavar as mãos”.

Matilde reconhece que todas as mudanças devem-se a colaboração entre a escola e os pais que se reúnem trimestralmente para discutir os assuntos da escola e definir um plano conjunto para a direcção, os encarregados e professores.

Matilde Chova is coordinator of the Commission of parents of a Child Friendly School in Cuito, Bie Province
UNICEF/Angola/2017/Heitor Lourenço
Matilde Chova é coordenadora da Comissão de pais e encarregados de educação e está satisfeita com a mudança no comportamento das suas filhas

As mensagens sobre higiene e saneamento que as crianças colocam em prática na escola e em casa, são passadas por professores como Estevão Bango que lecciona no programa de aceleração escolar. “Digo ao meus alunos que, para preservar a nossa saúde não podemos estar em contacto com o lixo, não devemos defecar perto das escolas da comunidade e ao ar livre, porque causa moscas e estas moscas quando pousam nos nossos alimentos, causam-nos doenças”.

O professor de 26 anos de idade beneficiou de uma formação no âmbito das Escolas Amigas da Criança proporcionada pelo UNICEF em 2015, dentro de uma parceria com a Direcção Provincial da Educação do Bié. Nesta formação a questão da higiene e saneamento foi bastante debatida. Para além das mensagens sobre a importância do acesso à água, higiene e saneamento na escola, professores e membros do corpo directivo receberam ferramentas para que pudessem trabalhar com os alunos e a comissão de pais e encarregados de educação, para em conjunto melhorarem as condições de saneamento da sua instituição.

Professor Estevão Bango teaches his students about hygiene in a Child Friendly School in Cuito, Bié Province
UNICEF/Angola/2017/Heitor Lourenço
Por meio das aulas o Professor Estevão Bango passa algumas mensagens sobre a promoção da higiene aos seus alunos

Os desafios causados pela falta de água e de instalações sanitárias adequadas

Apesar dos avanços, a Escola Joaquim Capango enfrenta ainda alguns desafios nesta área de acesso à água, higiene e saneamento, que podem perigar os resultados já alcançados. Segundo um estudo realizado em 2016 pelo UNICEF, 43.06% não possuem instalações sanitárias funcionais e apenas 28,43% das escolas primárias do Bié possuem água. Na maior parte das escolas a água é disponibilizada através de poços ou rios distantes. No caso da Escola Joaquim Kapango, a água é obtida em cacimbas que distam cerca de 2 km da escola.

“A escola ainda não tem água e as condições das casas de banho precisam ser melhoradas”, lamenta a Directora pedagógica, Natália Bento. “Hoje a escola conta apenas com uma pequena casa de banho com dois compartimentos mas a loiça não é das mais adequada e o cheiro algumas vezes é um incómodo”, acrescentou a gestora da escola.   

A dificuldade para obter a água, além de condicionar a higiene e saneamento condiciona a manutenção dos espaços verdes. A escola possui um pequeno canteiro mas devido a falta de água as plantas estão a secar prejudicando assim a beleza do espaço.

Espera-se que daqui há alguns meses as dificuldades sejam ultrapassadas. Com o apoio do UNICEF a escola beneficiou de um furo de água para posteriormente ser construído um sistema de água que deverá abastecer a instituição. Para além disso, estão a ser construídas novas infraestruturas para servir de instalações sanitárias para alunos e professores.  

Apesar da dificuldade de abastecimento de água a Escola promove a higiene das mãos com a instalação junto a casa de banho, de um ponto de lavagem das mãos usando um bidon, uma torneira e um pedaço de sabão. Desta forma os alunos cuidam da higiene das suas mãos sempre que usam as instalações sanitárias.

Graça Francisco frequenta a sexta classe, e usa frequentemente este ponto depois de usar a casa de banho. Conta que começou a ganhar o hábito de lavar as mãos porque a directora da escola falou várias vezes sobre isso. Para o adolescente não basta lavar as mãos. “Os meninos também devem se preocupar com a higiene pessoal, como lavar os dentes, tomar banho, pois assim evitam-se muitas doenças” aconselha.

Com a disponibilização de mais água as crianças poderão cuidar melhor da sua higiene, beneficiar de espaços verdes e não terão de se preocupar em pegar água distante da escola como tem acontecido actualmente. Daqui há mais alguns meses todas crianças terão instalações sanitárias adequadas para fazerem as suas necessidades, pois destes elementos dependem parte do seu desempenho escolar e qualidade da sua educação.