Vacinação infantil começa recuperação após recuo causado pela COVID-19

Novos dados da OMS e do UNICEF revelam sinais promissores de recuperação dos serviços de vacinação em alguns países, mas, particularmente nos países de baixos rendimentos.

18 Julho 2023
Catambor Health Centre in Luanda, Angola, 2-month-old Rakia is held by her mother, Delma Deoma, while Nurse Quénia Pinto administers the pentavalent vaccine.
UNICEF /Angola/2023/Karel Prinsloo
Catambor Health Centre in Luanda, Angola, 2-month-old Rakia is held by her mother, Delma Deoma, while Nurse Quénia Pinto administers the pentavalent vaccine.

GENEBRA/NOVA IORQUE, 18 de julho de 2023 - Em 2022, os serviços de imunização a nível mundial chegaram a mais 4 milhões de crianças do que no ano anterior, uma vez que os países intensificaram os esforços para fazer face ao retrocesso histórico na imunização causado pela pandemia da COVID-19.

De acordo com dados publicados hoje pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundos das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em 2022, 20.5 milhões de crianças não receberam uma ou mais vacinas administradas por meio de serviços de imunização de rotina, em comparação com 24.4 milhões de crianças em 2021. Apesar desta melhoria, o número continua a ser superior aos 18.4 milhões de crianças que ficaram sem vacina em 2019 antes das interrupções relacionadas com a pandemia, sublinhando a necessidade de esforços contínuos de recuperação e reforço do sistema.

A vacina contra a difteria, o tétano e a tosse convulsa (DTP) é utilizada como marcador global da cobertura vacinal. Dos 20.5 milhões de crianças que não receberam uma ou mais doses de suas vacinas DTP em 2022, 14.3 milhões não receberam uma única dose, as chamadas crianças com dose zero. O número representa uma melhoria em relação aos 18.1 milhões de crianças com dose zero em 2021, mas permanece superior aos 12.9 milhões de crianças em 2019.

"Estes dados são encorajadores e um tributo àqueles que trabalharam tão arduamente para restaurar os serviços de vacinação que salvam vidas após dois anos de declínio sustentado na cobertura da vacinação", disse o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, Director-Geral da OMS.

"Mas as médias globais e regionais não contam a história toda e escondem desigualdades graves e persistentes. Quando os países e as regiões ficam para trás, as crianças pagam o preço."

As fases iniciais da recuperação da imunização global não ocorreram de forma igual, com a melhoria concentrada em alguns países. Os progressos registados em países com altos rendimentos e com grandes populações infantis, como a Índia e a Indonésia, ocultam uma recuperação mais lenta ou mesmo declínios contínuos na maioria dos países com baixos rendimentos, especialmente no que se refere à vacinação contra o sarampo.

Dos 73 países que registaram declínios substanciais* na cobertura durante a pandemia, 15 recuperaram para os níveis anteriores à pandemia, 24 estão em vias de recuperação e, o que é mais preocupante, 34 estagnaram ou continuaram a diminuir. Estas tendências preocupantes reflectem os padrões observados noutros indicadores de saúde. Os países devem garantir que estão a acelerar os esforços de recuperação e reforço, para que todas as crianças recebam as vacinas de que necessitam e - porque a imunização de rotina é um pilar fundamental dos cuidados de saúde primários - aproveitar a oportunidade para fazer progressos noutros sectores da saúde relacionados.

A vacinação contra o sarampo - um dos agentes patogénicos mais infecciosos - não recuperou tão bem como outras vacinas, colocando mais 35.2 milhões de crianças em risco de infecção por sarampo. A cobertura da primeira dose contra o sarampo aumentou para 83% em 2022, contra 81% em 2021, mas permaneceu abaixo dos 86% alcançados em 2019. Como resultado, no ano passado, 21.9 milhões de crianças não receberam a vacinação de rotina contra o sarampo no primeiro ano de vida - mais 2.7 milhões do que em 2019 - enquanto outros 13.3 milhões não receberam a segunda dose, colocando as crianças em comunidades sub-vacinadas em risco de surtos.

"Por detrás desta tendência positiva existe um aviso grave", afirmou a Directora Executiva do UNICEF, Catherine Russell. "Até que mais países corrijam as lacunas na cobertura da vacinação de rotina, as crianças de todo o mundo continuarão em risco de contrair e morrer de doenças que podemos prevenir. Vírus como o do sarampo não reconhecem fronteiras. Os esforços devem ser urgentemente reforçados para recuperar as crianças que não foram vacinadas, restaurando e melhorando ainda mais os serviços de imunização dos níveis pré-pandémicos."

Os dados indicam que os países com uma cobertura estável e sustentada nos anos anteriores à pandemia têm sido mais capazes de estabilizar os serviços de vacinação desde então. Por exemplo, o Sul da Ásia, que registou aumentos graduais e contínuos da cobertura na década anterior à pandemia, demonstrou uma recuperação mais rápida e robusta do que as regiões que sofreram declínios de longa data, como a América Latina e as Caraíbas. A região africana, que está a ficar para trás na sua recuperação, enfrenta um desafio adicional. Com uma população infantil crescente, os países têm de aumentar os serviços de vacinação de rotina todos os anos para manter os níveis de cobertura.

A cobertura da vacina DTP3 nos 57 países de baixo rendimento apoiados pela Gavi, a Aliança para as Vacinas, aumentou para 81% em 2022 - um aumento considerável em relação aos 78% registados em 2021 - com o número de crianças com dose zero que não recebem vacinas básicas a diminuir também em 2 milhões nestes países. No entanto, o aumento da cobertura da DTP3 nos países apoiados pela Gavi concentrou-se nos países de rendimento médio-baixo, sendo que os países de baixo rendimento ainda não aumentaram a cobertura - o que indica o trabalho que falta fazer para ajudar os sistemas de saúde mais vulneráveis a reconstruir-se.

"É incrivelmente reconfortante, após a enorme interrupção causada pela pandemia, ver a imunização de rotina a recuperar tão fortemente nos países apoiados pela Gavi, especialmente em termos de redução do número de crianças com dose zero", afirmou o Dr. Seth Berkley, Director Executivo da Gavi, a Aliança para as Vacinas. "No entanto, este importante estudo também deixa claro que precisamos encontrar formas de ajudar todos os países a proteger a sua população, caso contrário, corremos o risco de surgirem duas vias, com os países maiores e de rendimento médio-baixo a ultrapassarem os restantes."

Pela primeira vez, a cobertura da vacinação contra o HPV ultrapassou os níveis pré-pandémicos. Os programas de vacinação contra o HPV que começaram antes da pandemia atingiram o mesmo número de raparigas em 2022 do que em 2019. No entanto, a cobertura em 2019 foi muito inferior ao objectivo de 90%, o que se manteve em 2022, com coberturas médias nos programas de HPV a atingir 67% nos países de rendimento elevado e 55% nos países de rendimento baixo e médio. A recém-lançada revitalização do HPV, liderada pela Aliança Gavi, tem como objectivo reforçar a execução dos programas existentes e facilitar mais introduções.

Muitas partes interessadas estão a trabalhar para acelerar a recuperação em todas as regiões e em todas as plataformas de vacinas.

No início de 2023, a OMS e o UNICEF, juntamente com a Gavi, a Fundação Bill & Melinda Gates e outros parceiros da Agenda de Imunização (IA2030), lançaram "The Big Catch-Up", um esforço global de comunicação e sensibilização, apelando aos governos para que recuperem as crianças que não foram vacinadas durante a pandemia, restaurem os serviços de vacinação para os níveis pré-pandémicos e os reforcem no futuro:

  • Reforçar o seu compromisso de aumentar o financiamento para a imunização e trabalhar com as partes interessadas para desbloquear os recursos disponíveis, incluindo os fundos COVID-19, para restaurar urgentemente os serviços interrompidos e sobrecarregados e implementar esforços de recuperação.
  • Desenvolver novas políticas que permitam aos imunizadores chegar às crianças que nasceram imediatamente antes ou durante a pandemia e que estão a ultrapassar a idade em que seriam vacinadas pelos serviços de imunização de rotina.
  • Reforçar os serviços de imunização e de cuidados de saúde primários - incluindo os sistemas de saúde comunitários - e enfrentar os desafios sistémicos da imunização para corrigir a estagnação a longo prazo da vacinação e chegar às crianças mais marginalizadas.
  • Criar e manter a confiança e a aceitação da vacina através do envolvimento das comunidades e dos prestadores de cuidados de saúde

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Nota para os editores:

Considera-se um declínio substancial um declínio de 5 pontos percentuais ou mais em 2020 e/ou 2021 em comparação com 2019. As flutuações mais pequenas na cobertura não eram invulgares antes da pandemia.

Os dados indicam quantas crianças do grupo etário-alvo dos serviços de vacinação de rotina foram abrangidas em 2022. Não está estruturado para captar a recuperação das crianças que não foram abrangidas durante a pandemia, uma vez que muitas destas crianças terão "envelhecido" nos serviços de vacinação locais. No entanto, algumas recuperações podem ter sido registadas como serviços de "rotina" e reflectidas nos dados.

A OMS e o UNICEF estão a trabalhar com a Gavi, a Aliança para Vacinas e outros parceiros para concretizar a Agenda 2030 de Imunização global (IA2030), uma estratégia para todos os países e parceiros globais relevantes para alcançar os objectivos definidos de prevenção de doenças através da imunização e da distribuição de vacinas a todas as pessoas, em todo o lado, em todas as idades.

Sobre os dados

Com base em dados relatados pelos países, as estimativas da OMS e do UNICEF sobre a cobertura nacional de imunização (WUENIC) fornecem o maior e mais abrangente conjunto de dados do mundo sobre as tendências de imunização para vacinas contra 13 doenças administradas por meio de sistemas regulares de saúde - normalmente em clínicas, centros comunitários, serviços de extensão ou visitas de profissionais de saúde. Para 2022, foram fornecidos dados de 183 países.

Contacto para os media

Heitor Lourenço
Oficial de Comunicação
UNICEF Angola
Telefone: +244 936 836 015

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