Impacto da COVID-19 na saúde mental de crianças, adolescentes e jovens é significativo, mas somente a 'ponta do iceberg' – UNICEF

Novas análises indicam que transtornos mentais entre jovens acarretam uma redução de contribuição para a economia de quase USD$ 390 bilhões por ano

06 Outubro 2021
Mãe e bebe
UNICEF/ANG-2021/Luis Nicolau

Nova Iorque, 5 de Outubro de 2021 – Crianças, adolescentes e jovens poderão sentir o impacto da COVID-19 na sua saúde mental e bem-estar por muitos anos, alertou o UNICEF no principal relatório da organização que este ano está focado na saúde mental de crianças, adolescentes e cuidadores no século 21.

De acordo com The State of the World’s Children 2021; On My Mind: promoting, protecting and caring for children’s mental health (Situação Mundial da Infância 2021: Na minha mente: a promover, proteger e a cuidar da saúde mental das crianças – disponível em inglês), mesmo antes da COVID-19, crianças, adolescentes e jovens carregavam o fardo das condições de saúde mental sem um investimento significativo para resolvê-los.  Segundo as últimas estimativas disponíveis, calcula-se que, globalmente, mais de um em cada sete meninos e meninas com idade entre 10 e 19 anos viva com algum transtorno mental diagnosticado.

Quase 46 mil adolescentes morrem por suicídio a cada ano, uma das cinco principais causas de morte nessa faixa etária. Enquanto isso, persistem grandes lacunas entre as necessidades de saúde mental e o financiamento de políticas voltadas a essa área. O relatório constata que apenas cerca de 2% dos orçamentos governamentais de saúde são alocados para gastos com saúde mental em todo o mundo. 

"Foram longos, 18 meses para todos nós – especialmente para as crianças e adolescentes. Com os confinamentos nacionais e restrições de movimento relacionados à pandemia, as meninas e os meninos passaram anos indeléveis de sua vida longe da família, de amigos, das salas de aula, das brincadeiras – elementos-chave da infância", disse a Directora Executiva do UNICEF, Henrietta Fore.

"O impacto é significativo e é apenas a ponta do iceberg. Mesmo antes da pandemia, muitas crianças estavam sobrecarregadas com o peso de problemas de saúde mental não resolvidos. Muito pouco investimento está a ser feito pelos governos para atender a essas necessidades críticas. Não está a ser dada importância suficiente à relação entre a saúde mental e os resultados futuros na vida das crianças e adolescentes". 

Saúde mental das crianças durante a pandemia da COVID-19 

Na verdade, a pandemia cobrou o seu preço. De acordo com resultados preliminares de uma pesquisa internacional com crianças e adultos em 21 países, conduzida pelo UNICEF e o Gallup – que tem uma nota prévia apresentada neste relatório Situação Mundial da Infância 2021 – em média, um em cada cinco adolescentes e jovens de 15 a 24 anos entrevistados (19%) disse que, muitas vezes, se sente deprimido ou tem pouco interesse em fazer coisas. 

Enquanto a pandemia da COVID-19 aproxima-se do seu terceiro ano, o impacto sobre a saúde mental e o bem-estar de crianças e jovens continua a pesar muito. Segundo os últimos dados disponíveis do UNICEF, globalmente, pelo menos uma em cada sete crianças foi directamente afectada pelos confinamentos, enquanto mais de 1,6 bilhão de crianças sofreram alguma perda relacionada à educação.

A ruptura com as rotinas, a educação, a recreação e a preocupação com a renda familiar e com a saúde estão a deixar muitos jovens com medo, irritados e preocupados com seu futuro. Por exemplo, uma pesquisa online realizada na China no início de 2020, citada no relatório Situação Mundial da Infância 2021, indicou que cerca de um terço dos entrevistados relatou sentir medo ou ansiedade. 

Custo para a sociedade 

Transtornos mentais diagnosticados – incluindo transtorno do déficit de atenção com hiperactividade - TDAH, ansiedade, autismo, transtorno bipolar, transtorno de conduta, depressão, transtornos alimentares, deficiência intelectual e esquizofrenia – podem prejudicar significativamente a saúde, a educação, as conquistas e a capacidade financeira de crianças, adolescentes e jovens no futuro. 

Embora o impacto na vida deles seja incalculável, uma nova análise da London School of Economics, incluída no relatório, estima que transtornos mentais que levam jovens à incapacidade ou à morte acarretam uma redução de contribuições para as economias de quase US$ 390 bilhões por ano. 

Factores de protecção 

O relatório observa que uma mistura de factores genéticos, de experiência e ambientais desde os primeiros dias, incluindo o cuidado dos pais, relação com o ambiente escolar, qualidade dos relacionamentos interpessoais, exposição a violência ou abuso, discriminação, pobreza, crises humanitárias e emergências de saúde, como a COVID-19, molda e afecta a saúde mental das crianças ao longo da vida. 

Embora factores de protecção, como cuidadores amorosos, ambientes escolares seguros e relacionamentos positivos com colegas, possam ajudar a reduzir o risco de transtornos mentais, o relatório alerta que barreiras significativas, incluindo estigma e falta de financiamento, estão a impedir que muitas crianças tenham uma saúde mental positiva ou tenham acesso ao apoio que precisam. 

O relatório Situação Mundial da Infância 2021 pede que governos e parceiros dos sectores público e privado se comprometam, comuniquem e ajam para promover a saúde mental de todas as crianças, todos os adolescentes e cuidadores, proteger os que precisam de ajuda e cuidar dos mais vulneráveis, incluindo: 

  • Investimento urgente em saúde mental de crianças e adolescentes em todos os sectores, não apenas na saúde, a fim de apoiar uma abordagem intersectorial, incluindo toda a sociedade para prevenção, promoção e cuidados.   
  • Investir em serviços públicos de qualidade - integração e ampliação de intervenções baseadas em evidências nos sectores de saúde, educação e protecção social – incluindo programas para os pais que promovem cuidados responsivos e de atenção integral, e garantia de que as escolas apoiem a saúde mental por meio de serviços de qualidade e relacionamentos positivos.  
  • Preparar pais, familiares, cuidadores e educadores para abordar o tema da saúde mental como parte da saúde integral.   
  • Quebrar o silêncio em torno da saúde mental, fomentar a cultura da escuta sem pré-juízos - escuta empática - promovendo uma melhor compreensão da saúde mental e levando a sério as experiências de crianças, adolescentes e jovens.   
  • Valorizar a rede de apoio entre pares - promovendo e valorizando esse diálogo entre os próprios adolescentes sobre saúde mental. 

"A saúde mental faz parte da saúde física – não podemos continuar a vê-la de outra forma", disse Fore. "Por muito tempo, em países ricos e pobres, temos visto muito pouco entendimento e muito pouco investimento num elemento crítico para maximizar o potencial de cada criança. Isso precisa mudar". 

Incerteza sobre o futuro preocupa jovens angolanos

Num inquérito sobre Bem estar em tempos de COVID-19, realizado em Maio de 2021 com cerca de 14.000 rapazes e raparigas, por meio da plataforma SMS jovem, destacou que mais de 30 porcento dos respondentes manifestaram preocupação e inquietação pelo facto de não saberem como seria a vida com a COVID-19.

Trata-se de um sinal de que a pandemia mudou significativamente a rotina de vários jovens e as suas famílias, e  muitas restrições impostas como parte das medidas de prevenção tiveram impacto na sua saúde mental.

“Esta situação vem sublinhar uma vez mais a necessidade de junto com parceiros como a Organização Mundial da Saúde, governos, académicos e muitos outros, todos devemos mostrar compromisso com a liderança e investimento para melhor apoiar a saúde mental” sublinha Andrew Trevett, Representante Adjunto do UNICEF.

“Nos próximos meses, o UNICEF deverá reforçar o trabalho para ajudar o bem-estar mental de crianças e jovens em algumas das situações mais desafiadoras. Prevê-se a apoiar a realização de um Inquérito sobre Saúde mental para adolescentes e jovens com o Instituto Nacional de Estatística, apoiar a adaptação de instrumentos para a Formação de Educadores de pares e ainda apoiar o Ministério da Saúde no seu programa de saúde mental”, acrescentou Trevett.

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Notas para editores 

As estimativas das causas de morte entre adolescentes são baseadas em dados da Estimativas Globais de Saúde 2019, da Organização Mundial da Saúde (OMS). As estimativas sobre a prevalência de transtornos mentais diagnosticados baseiam-se no Estudo de Carga Global de Doenças de 2019, do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME). 

Os resultados da pesquisa sobre sentimentos de depressão ou pouco interesse em fazer coisas são parte de um estudo maior conduzido em conjunto entre o UNICEF e o Gallup para explorar a divisão intergeracional.

O projecto Changing Childhood entrevistou aproximadamente 20 mil pessoas por telefone em 21 países. Todas as amostras são baseadas em probabilidade e nacionalmente representativas de duas populações distintas em cada país: pessoas de 15 a 24 anos e pessoas de 40 anos ou mais. A área de cobertura é todo o país, incluindo áreas rurais, e a base de amostragem representa toda a população civil, não institucionalizada, dentro de cada coorte de idade com acesso a um telefone. As conclusões completas do projecto serão divulgadas pelo UNICEF em Novembro. 

Contacto para os media

Heitor Lourenço
Oficial de Comunicação
UNICEF Angola
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