Vidas reais

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Três irmãs órfãs ganham casa nova

Hoje, com idades entre os 8 e os 13 anos, as irmãs têm uma casa nova com zona de estar e dois quartos, inserida num bairro onde os vizinhos zelam e cuidam das três meninas
© UNICEF Mozambique/2012/Mark Lehn
Hoje, com idades entre os 8 e os 13 anos, as irmãs têm uma casa nova com zona de estar e dois quartos, inserida num bairro onde os vizinhos zelam e cuidam das três meninas

Glória e as irmãs falam pouco, mas os sorrisos dizem tudo. Há um tempo atrás, eram o rosto da tristeza. Depois de perderem os pais, em 2008 e 2009, passaram a viver sozinhas numa habitação precária, por duas vezes derrubada pelo temporal, no distrito de Sussundenga, província de Manica.

O agregado familiar esteve desmembrado com a partida de Glória para a cidade, onde trabalha como empregada doméstica; e da mais nova, para cuidar de um bebé recém-nascido. A irmã do meio ficou sozinha, sem alimentos. A intervenção concertada da Acção Social, UNICEF e parceiros de cooperação, com apoio do Governo local, comunidade e sociedade civil, trouxe de volta Glória, assegurou a localização da irmã mais nova e garantiu a reunificação do agregado.

Hoje, com idades entre os 8 e os 13 anos, as irmãs têm uma casa nova com zona de estar e dois quartos, inserida num bairro onde os vizinhos olham pelas três meninas. Estão integradas na alfabetização e têm em perspectiva um pequeno negócio para geração de renda.

«Estamos muito orgulhosos da colaboração que temos tido por parte da comunidade», reconhece Júlio Samundine, da Associação Kubatsirana, uma organização nãogovernamental, da província de Manica, que identificou o caso. Orientada para a prestação de cuidados domiciliários a seropositivos, a Associação já apoiava os pais das meninas e tomou conhecimento imediato do seu falecimento.

Durante a nossa presença, as três irmãs fizeram uma visita guiada à sua nova casa, mostrando o quarto da mais velha e o das mais novas, com um beliche de ferro coberto por uma rede mosquiteira. Na zona da entrada, tinham arrumado cuidadosamente os utensílios domésticos que receberam do INAS.

«Elas vivem numa casa sem muro, mas têm bens lá dentro. No entanto, elas sentem-se seguras, porque têm os vizinhos e sentem-se protegidas», observa Samundine.

A casa foi construída por um vizinho, com fundos da Associação Kubatsirana (apoiada pelo UNICEF) e apoio material do INAS (cimento, chapas e mobiliário). Na altura da nossa visita, faltava apenas pintar as paredes. «A tinta já têm, quando o vizinho voltar da machamba vai pintar a casa», assegura Samundine. «Quando trabalhamos com a comunidade, temos que ter paciência».

Para além da habitação, esta intervenção social compreende vários aspectos: apoio alimentar; emissão de cédulas de nascimento; enquadramento em aulas de alfabetização para preparar a entrada no ensino primário; e a identificação de um terreno para agricultura de subsistência. «Já identificámos uma zona baixa para fazerem hortas e vamos apoiar 10 famílias chefiadas por crianças com alguns insumos agrícolas, para poderem ter alguma produção», explica Horácio Zambo, Chefe da Acção Social no distrito de Sussundenga.

Além disso, o líder comunitário permitiu que as irmãs usassem o fontanário do bairro sem pagar pela sua utilização, como é hábito praticar-se entre as famílias beneficiárias. Com apoio do Governo e UNICEF, foi construído um fontanário - que tem uma comissão de manutenção - que reverte a favor da população. Para cobrir os custos de manutenção, cada utilizador contribui com um valor simbólico mensal. Este requisito não é aplicado aos membros mais desfavorecidos da comunidade, pelo que, Glória e as irmãs, estão isentas dessa taxa.

Paralelamente, o Comité Comunitário destacou um membro – que, por sinal, desempenha funções de Permanente do INAS – para acompanhar as crianças no diaa- dia e zelar pelo seu bem-estar. Por último, as irmãs foram enquadradas numa confissão religiosa para também serem acompanhadas pela comunidade de crentes.

«Este é um dos nossos motivos de orgulho», comenta Samundine. «Há coisas que nós, como associação, não podemos fazer. Só em ligação com as estruturas comunitárias e a Acção Social é que é possível».

Os próximos passos consistem em criar um projecto de geração de renda, para promover o auto sustento das crianças e assegurar a continuidade do seu bem-estar. Além disso, será necessário formalizar a posse do terreno onde se encontra a nova habitação.

«O que pensamos agora é legalizar o espaço para ficar em nome das meninas», esclarece Zambo. «Primeiro, vamos fazer uma carta para a Administração do Distrito a pedir isenção de custos, por se tratar de uma família chefiada por menores».

Antes de sairmos, as três irmãs fazem questão de nos convidar para o almoço que prepararam para as visitas: um delicioso prato de xima com matapa. Tudo é servido a preceito: uma bacia com água para lavar as mãos, seguido de pratos e talheres novinhos em folha.

«Uma lição, que aprendemos com este caso, é que a comunidade precisa de ser tocada para agir», resume Samundine. «Nós demos um empurrão e as coisas começaram a aparecer. A água existia, a escola também, mas não estavam a frequentar. É preciso uma mão – não para dar ajuda, mas para despertar: hei! acorda!».

A resposta, que o distrito de Sussundenga encontrou para este caso, mostra que é possível erguer e manter um sistema integrado de protecção das crianças, em Moçambique. Autoridades tradicionais, comité comunitário, sociedade civil, confissões religiosas, INAS, Acção Social (ao nível distrital e provincial), Administração do Distrito, Educação, Saúde, Registo Civil, Serviços Distritais de Economia e Agricultura, Planeamento e Infraestruturas – todos estes actores convergiram, para garantir uma resposta integrada que reduzisse a vulnerabilidade de três crianças órfãs.

 

 
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