Vidas reais

Vidas reais

 

Mãe deixa crianças para procurar sustento

Mãe deixa crianças para procurar sustento
© UNICEF Mozambique/2012/Mark Lehn
Raquel deixou os filhos para tentar a sorte nas minas de ouro. Ao fim de doze horas de trabalho, ganhava um balde de terra

Aos 40 anos, Raquel trabalhava doze horas seguidas, debaixo de um sol impiedoso, peneirando a terra em busca de pepitas reluzentes. Entre as 5h da manhã e as 17h, fazia uma pausa de cinco minutos para tomar uma refeição junto das suas companheiras de garimpo, naquela mina de ouro, na província de Tete. Ao fim do dia, deitava o corpo cansado numa tenda improvisada a partir de uma cobertura de plástico. «Tinha ido procurar formas de alimentar as crianças», diz esta mãe de três filhos menores, na sua casa de uma divisão, feita de tijolo de barro e tecto de colmo, no distrito de Changara.

Aquela província, contudo, apresenta ainda sinais de pobreza extrema, com mais de 64.000 crianças identificadas como órfãs ou vulneráveis. Entre essas, apenas 54.000 recebem algum tipo de assistência social, devido à falta de capacidade do Estado, ou dos parceiros de cooperação, de abranger todas elas.

Raquel deixou para trás os filhos e um pequeno negócio informal de venda de tomate para tentar a sorte nas minas de ouro.

Viajou durante dois dias, percorrendo os últimos 30km a pé, para penetrar na zona fronteiriça ao Malawi. Ao fim de doze horas de trabalho, ganhava um balde de terra. O ouro, que porventura apanhasse nesse recipiente, era variável e constituía a remuneração do seu trabalho. Aquilo que encontrasse era vendido aos donos da mina, por um valor que nunca ultrapassava os 100 meticais (menos de 4 dólares) por dia.

«Quando cheguei lá, vi que o trabalho era muito e era duro», recorda Raquel, que agora está de volta a casa. «Tem muitas mulheres a trabalhar lá».

Enquanto esteve fora, e incontactável, os filhos ficaram entregues à própria sorte. Samuel, de 17 anos, despertou para o dinheiro fácil, ajudando pessoas a atravessar clandestinamente a fronteira entre Moçambique e o Zimbabwe. O do meio, de 14 anos, saltita entre um país e o outro. Ambos abandonaram a escola e não têm grandes perspectivas de sair daquele ciclo vicioso. A mais nova, de 13 anos, é a única que parece interessada em estudar, tendo completado a 6ª classe. Durante a ausência da mãe, a menina fazia trabalhos domésticos em casa de uns vizinhos, mas estes despediam-na continuamente, achando que era um fardo para eles. A sua vulnerabilidade, numa vila de fronteira com um intenso tráfego de pesados, constituía uma enorme fonte de preocupação.

Para Raquel voltar a casa, o comité comunitário – em concertação com os serviços distritais e provinciais de Acção Social – exerceu uma grande pressão, procurando sensibilizá-la para os riscos que as crianças corriam se continuassem desprovidas da presença materna. Depois de identificar a situação dos menores, o comité localizou a mãe através de um contacto telefónico.

O presidente do Comité Comunitário falou pessoalmente com Raquel para persuadi-la a voltar para casa e, no dia em que finalmente chegou, ligou de imediato para os Serviços Distritais de Acção Social.

Por sua vez, estes alertaram a DPMAS de Tete e, no dia seguinte, uma brigada provincial estava no posto para procurar soluções, com vista a reter a mãe junto dos filhos. Para apoiar o rendimento familiar, Raquel e Samuel foram integrados no programa de Acção Social Produtiva.

«Estamos satisfeitos porque conseguimos recuperar as crianças. Elas estavam abandonadas, agora já estão amparadas», afirma um membro do Comité Comunitário.

A integração escolar é o maior desafio, dada a relutância dos filhos em frequentar a escola. A Direcção Provincial espera que este caso seja entendido pela comunidade como um sinal do importante trabalho que a Acção Social desenvolve, em concertação com o Comité Comunitário, para a protecção das crianças mais vulneráveis.

«Para esses serem um exemplo e o trabalho do comité ser aceite, depende muito da família. As crianças têm que aceitar ir à escola», resume Josela Ferrão, chefe do Departamento de Acção da DPMAS de Tete.

 

 
Search:

 Email this article

unite for children