Vidas reais

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Uma nova esperança para Gabriel

Gabriel
© UNICEF Moçambique/2012/Mark Lehn
Um dia, estando Gabriel a brincar com alguns amigos, três homens da sua aldeia – uma pequena localidade de 15 famílias – levaram-no para um sítio isolado e extraíram-lhe os olhos e os órgãos genitais. A sangue-frio. Abandonado num bananal.

Gabriel tinha apenas treze anos quando sofreu um ataque sangrento, perpetrado por dois vizinhos e, alegadamente, um familiar.

Gabriel era órfão de pai e vivia com a família paterna, juntamente com dois irmãos mais novos. A sua mãe – que sofre de deficiência mental – tinha sido obrigada a viver longe da aldeia após o falecimento do marido, seguindo a tradição da região da Zambézia, de onde é natural ("quando morre o homem, considera-se que a mulher também está morta", explica uma fonte).

Um dia, estando Gabriel a brincar com alguns amigos, três homens da sua aldeia – uma pequena localidade de 15 famílias – levaram-no para um sítio isolado e extraíram-lhe os olhos e os órgãos genitais. A sangue-frio. Abandonado num bananal, ninguém podia imaginar que Gabriel sobreviveria.

"Ficaram convencidos que ele, naturalmente, iria morrer e foram-se embora", explica José Diquissone, Director Provincial da Mulher e da Acção Social na província de Sofala."Tiraram os órgãos porque tinham um compromisso com um curandeiro".

Segundo a Liga dos Direitos Humanos (LDH) de Moçambique, a extracção de órgãos humanos, no país, está associada a "práticas tradicionais prejudiciais", em particular a feitiçaria, e não a transplantes.

Para a organização, o objectivo do uso de partes do corpo humano "é criar uma medicina tradicional poderosa, no alcance dos seus propósitos, que são, por exemplo, curar doenças, ajudar as pessoas a progredir economicamente, ou prejudicar os seus inimigos".

A dimensão desta prática é muito maior do que se possa imaginar. Conforme explica o técnico jurídico Manuel Mapendera, são poucos os casos que vêm a público. Na maior parte das ocorrências a vítima simplesmente desaparece.

Gabriel
© UNICEF Moçambique/2012/Mark Lehn
Após a recuperação da cirurgia, Gabriel passará algum tempo em Portugal, em convalescença, estando previsto o seu enquadramento em actividades de desenvolvimento intelectual e lúdicas

No caso de Gabriel, os atacantes estavam a executar uma encomenda de um curandeiro local, que lhes havia prometido cerca de 5.000 meticais pelos órgãos.

"Mata-se por muito pouco. Ainda teriam que dividir aquele valor entre os três", lamenta Mapendera, que acompanhou o caso na qualidade de secretário executivo da delegação regional da LDH.

Através da Liga, o processo jurídico foi acompanhado até à fase de julgamento, estando dois dos atacantes a cumprir agora a pena máxima, numa prisão em Quelimane. Um terceiro – que dizem ser primo do falecido pai de Gabriel – terá conseguido escapar.

Como consequência do ataque, Gabriel perdeu a visão e ficou sujeito ao uso permanente de uma algália, fazendo deslocações quinzenais ao hospital para substituir o dispositivo.

Inicialmente, foi levado para o Malawi, que fica a poucos quilómetros da aldeia, bastando atravessar o Rio Chire para lá chegar. No entanto, devido à complexidade do caso, a Direcção Provincial da Mulher e da Acção Social da Zambézia encaminhou-o para o Hospital de Quelimane e, posteriormente, concertou esforços com a Direcção Provincial de Sofala para o enquadramento de Gabriel no Instituto de Deficientes Visuais, situado na Beira.

Com a integração de Gabriel no Instituto, que está sob a tutela daquele Ministério, foram criadas condições para garantir o seu acesso à escola, a readaptação e a convivência com outras crianças que enfrentam os mesmos desafios. Aos poucos, foi recuperando a confiança e fazendo amigos. Um deles é Xavito, que nos mostra, muito orgulhoso, onde cada um dorme e onde guardam a roupa.

Apesar do ambiente seguro em que Gabriel passou a viver, demorou até que recebesse apoio psicossocial em consultas com pessoal qualificado. "É uma das lacunas que temos", admite o responsável do IDV, Padre Romão.

Quando Gabriel entra no gabinete do director, o seu sorriso ilumina a sala. "Padre Romão está aqui?", pergunta, sem saber que tem um leque de visitas à sua espera. Deslocando-se com as mãos à frente para guiar o caminho, vai tacteando o ar até encontrar o administrador do centro. "Está aqui mesmo!", exclama com satisfação.

Apesar da doçura que envolve os seus gestos, é incalculável o trauma que terá ficado gravado no seu íntimo, fruto da experiência que viveu.

"Quero ir no carro do Padre Romão à minha casa", afirma Gabriel em tom alegre e determinado.

Para os educadores, que diariamente lidam com o jovem, este é um grande passo.

"No primeiro ano em que aqui esteve, não manifestava nenhuma saudade. Agora já mostra vontade de ir", referem. Entretanto, a pedido da família, Mapendera tornou-se padrinho de Gabriel e sente-se pessoalmente responsável pelo seu futuro.

"Enquanto estiver vivo, nunca deixarei de visitar Gabriel e nunca deixarei de ser o seu padrinho", garante o técnico jurídico.

Conversando, no final de uma recente visita a Maputo, conta-nos que leva na bagagem brinquedos para oferecer a Gabriel, quando regressar à Beira. Já conhece os gostos do afilhado e sabe o que lhe dá mais prazer: um par de óculos escuros e auscultadores para ouvir as suas músicas preferidas.

Sensibilizados pelo caso particular de Gabriel, uma rede de parceiros e indivíduos solidários – abrangendo dois Estados (moçambicano e português), parceiros de cooperação (incluindo UNICEF), Ministérios, Direcções Provinciais, sociedade civil, confissões religiosas e cidadãos anónimos – mobilizou-se para que o menino pudesse beneficiar de uma cirurgia altamente especializada, em Portugal.

A intervenção tornou-se possível depois de Gabriel ter passado umas férias no Infantário Provincial, na cidade da Beira.

Tomando conhecimento do caso, o médico cirurgião que acompanhava os meninos daquele centro, Hélder de Miranda, e a DPMAS de Sofala estabeleceram uma panóplia de contactos a nível nacional e internacional, no sentido de se encontrar uma solução para melhorar a qualidade de vida de Gabriel.

Foi assim que, em Janeiro de 2013, Gabriel embarcou num avião em Maputo, na companhia de Miranda e Mapendera, a caminho de Lisboa para ser operado no Hospital Pediátrico D. Estefânia.

A cirurgia, autorizada pela Junta Nacional de Saúde e realizada ao abrigo de acordos bilaterais na área da Saúde, permitirá a reconstrução das vias urinárias e a colocação de próteses oculares. Com esta iniciativa reconhece-se a importância do investimento na acção social, bem como da mobilização do Governo e da sociedade para que as crianças vítimas de abuso e violência sejam vistas de forma indissociável do seu contexto familiar e comunitário, e possam ser readaptadas à vida social.

Pretende-se assegurar que as que são vítimas de violência e abuso tenham acesso a serviços de protecção integral, por meio de políticas públicas articuladas, com vista à plena garantia dos direitos, e possam vencer os seus medos, possibilitando assim a sua reinserção social.

Após a recuperação da cirurgia, Gabriel passará algum tempo em Portugal, em convalescença, estando previsto o seu enquadramento em actividades de desenvolvimento intelectual e lúdicas.

Com a mobilização dos parceiros, conseguiuse que Mapendera ficasse em Lisboa a acompanhá-lo, mesmo após o regresso à Beira do cirurgião Miranda, que despoletou a intervenção.

Assim, de Moçambique a Portugal, Gabriel vai contagiando todos com a sua espontaneidade e alegria de viver.

Para mais informações, favor contactar:

Patricia Nakell, UNICEF Moçambique, tel: (+258) 21 481 100;
email: pnakell@unicef.org;

Gabriel Pereira, UNICEF Moçambique, tel: (+258) 21 481 100;
e-mail: gpereira@unicef.org

 

 
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