Vidas reais

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Escolas em risco: aprender com os erros

A Nércia e colegas de pé junto ao quadro da turma, marcado permanentemente com a linha de água das cheias de 2013
© UNICEF Moçambique/2013/Donna Goodman
A Nércia e colegas de pé junto ao quadro da turma, marcado permanentemente com a linha de água das cheias de 2013.

Por Donna Goodman (original em Inglês)

GAZA, Moçambique, 28 Junho 2013 - Ao fim de 3 dias, esfomeado e a sangrar, por causa dos arriscados esforços de sobrevivência, e preocupado com a ânsia de tomar conta de 6 alunos do secundário, ali ao pé da ponte, em Chókwè, Francisco Salomão, professor de educação física, ele próprio um jovem de apenas 29 anos, propôs-se afastar-se do grupo a nado, para procurar alguma coisa para comer.

Os alunos imploraram-lhe que não fosse, não o deixariam ir. Como é que haviam de sobreviver sem a sua orientação?

Ele ia a caminho de casa, quando as águas das cheias alagaram tudo. Numa fracção de segundos, os alunos (cinco rapazes e uma rapariga), que estavam em Chókwè para fazerem exame de acesso ao ensino superior, descobriram esta alma corajosa, que havia de salvar-lhes a vida.

É este papel de influência que cada professor exerce nas vidas dos nossos filhos, que edifica o tecido social.

Em Moçambique, qualquer que seja o dia, cerca de um terço da população total frequenta a escola. Para Francisco e os seus discípulos, isso significou mais um dia de fome até que alguns tomates e outros vegetais passassem por perto a boiar.

Só ao fim de cinco dias, é que conseguiram pôr o pé em terra firme.

Água a ferver e árvores a crescer

Não longe dali, na escola Primária Completa 24 de Julho, a directora-adjunta pedagógica, Olga Zita, disse-nos que “esta escola é sempre afectada pelas cheias. Apesar de não terem sido muito rigorosas, em 2013, mesmo assim, as crianças não tiveram aulas durante 6 semanas, porque tiveram de ser relocadas para uma zona alta, onde decorreram as aulas temporariamente.

Nesta escola, a partir da 3ª classe, facultam-se sessões de sensibilização, sobre a necessidade de ferver a água antes de a beber, e dão-se instruções sobre evacuação, em caso de emergência, destinadas também aos pais e aos restantes membros da comunidade.

Numa escola que funciona como centro de recursos e viveiro florestal, para outras escolas no distrito, os 6 ou 7 alunos dirigem o plantio e supervisionam a machamba de hortícolas, por uma questão de segurança alimentar local e prevenção da erosão do solo.

Dulce bila, de 10 anos de idade, garante que, na escola delas “gostam da horta porque quando estamos com muita fome, podemos vir cá e comer folhas, o que nos ajuda a mantermo-nos saudáveis.”

Em casos de cheias sazonais prolongadas, Dulce afirma que “aprendemos duas coisas: em primeiro lugar a procurar sítios altos e em segundo, que a cheia traz consigo cólera e malária, e destrói as nossas casas”.

A Dulce Bila e sua colega de turma Berta Mussa regam as hortícolas na machamba da escola.
© UNICEF Moçambique/2013/Donna Goodman
A Dulce Bila e sua colega de turma Berta Mussa regam as hortícolas na machamba da escola.

Aumentar a capacidade

Moçambique é um país costeiro, sujeito a uma crescente prevalência e severidade de catástrofes naturais.

O INGC-Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, refere mesmo um aumento acentuado nos últimos 10 anos. Para aumentar a capacidade do sector de Educação em dar resposta a essas situações de crise, o Ministério da Educação, com o apoio do UNICEF e da Save the Children, realizou, em Junho de 2013, durante 4 dias, um workshop de fortalecimento dessa capacidade, sobre minimização de riscos de calamidades e precaução em caso de emergência, no sistema escolar, em Moçambique. O workshop envolveu os representantes provinciais de educação-em-situação-de-emergência, num exercício de planeamento que permitisse identificar quais as medidas a tomar para reduzir os riscos relacionados com desastres naturais, como as cheias, as secas e os ciclones.

Essas medidas vão das mais simples, por exemplo: como encontrar um sítio seguro para guardar os registos dos alunos, até às mais complexas, de planeamento de contingências, como seja, o mapeamento das estruturas mais vulneráveis, o planeamento de evacuação das crianças e suas famílias, e prestação de alternativas temporárias de ensino.

Com 13 anos, Nércia, foi uma das primeiras a regressar do campo de desalojados, para onde fugira com a família à procura de segurança. Ela foi também uma das primeiras a voltar à escola, e, perante a falta de resposta organizada, foi forçada a ajudar a lidar com o rescaldo da cheia devastadora que lavrou pela sua aldeia.

“Eu ajudei a limpar a escola para que pudéssemos voltar”, diz ela, “já não havia água, mas estava tão escuro e mal-cheiroso”.

Muito precisa ser feito para garantir que Nércia e muitos milhares de crianças como ela, nunca mais precisem de enfrentar responsabilidades tão difíceis e adultas, em caso de calamidade natural, como afirmou o responsável do UNICEF, Dr. Roberto de Bernardi, durante o workshop “Precisamos criar um ambiente seguro e protector para as crianças, sobretudo em casos de emergência”.

Para mais informações, favor contactar: 

Patricia Nakell, UNICEF Moçambique, tel: (+258) 21 481 100; 
email: pnakell@unicef.org;

Gabriel Pereira, UNICEF Moçambique, tel: (+258) 21 481 100; 
e-mail: gpereira@unicef.org

 

 

 

 

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