Vidas reais

Vidas reais

 

Concentre-se no que podemos fazer, não no que não podemos

Laura Machava
© UNICEF Mozambique/2013/Marie-Consolee Mukangendo
“Algumas escolas não têm a paciência para lidar com crianças com deficiência,” diz Laura Machava.

Por Marie-Consolée Mukangendo

MAPUTO, Moçambique, 21 Junho 2013 - Para quem a encontre, torna-se imediatamente claro que Laura é uma criança excepcional. O brilho nos olhos, a energia irreprimível e riso aberto são desarmantes. Quando ela sorri, você não pode deixar de fazer o mesmo.        

Seu nome completo é Laura Jorge Machava e ela tem16 anos de idade. Quando Laura tinha 1 ano, uma doença a deixou com uma deficiência na fala e uma deficiência física; doença que felizmente não prejudicou nem tão pouco a sua vivacidade.

A história da Laura é triste, mas como ela faz com quase tudo, Laura põe um grande e doce sorriso nessa história. Pena ou vergonha não se encontra no seu vocabulário.

Quando eu era bebé, eu fiquei muito doente e fui diagnosticada com febre-amarela. Fiquei em coma, de baixa no Hospital Geral de Mavalane, em Maputo, diz ela. No momento em que tive alta do hospital eu estava paralisada e incapaz de tirar um som da minha boca.

Ela continua.

Meu pai faleceu quando eu era um bebé. Minha mãe sempre me incentivou a ir para a escola. Lembro-me de que ela me levava às costas, e que eu ia a todo o lado com ela. Ela estava sempre com medo de me deixar sozinha. Minha mãe faleceu no ano passado. Eu agora vivo com o meu tio António e o resto da minha família, e nós sobrevivemos graças à pequena pensão que herdei do meu pai.

Laura gosta de ir para a escola e diz que gosta de Português, Matemática e Ciências Naturais.

Eu gosto muito de ir para a escola. Ela ensina e educa as crianças. Para mim, a educação é muito importante, porque eu aprendo muito. Em troca, eu posso ensinar outras crianças, incluindo os mais velhos do que eu.

Ao contrário de Laura, muitas crianças com deficiência em Moçambique são privadas do seu direito de ir à escola. As crianças em geral, têm dificuldade de acesso a escola, e as crianças com deficiência enfrentam barreiras ainda maiores, seja por causa de sua deficiência física, ou porque as escolas são incapazes de proporcionar-lhes a devida atenção ou de fornecer-lhes os professores com formação adequada. Os materiais de ensino e de aprendizagem para educação inclusiva são muitas vezes demasiado caros para a maioria das famílias.

A Laura enfrentou alguns desafios de aprendizagem, algo que ela mesma admite. Felizmente, ela foi abençoada com um professor paciente, atencioso e solidário que a incentiva a aprender a cada passo do caminho.

Quando eu estava na terceira classe, eu era incapaz de segurar um lápis, porque caía constantemente, e por isso não pude aprender a escrever. Foi muito frustrante. Mas eu consegui superar isso, graças ao meu professor Miguel que me ensinou a segurar o lápis. Levei um ano, mas no final, eu aprendi a escrever. Ele é muito paciente. Eu gosto muito dele.

Laura é clara sobre o porquê deste atributo ser tão crucial, especialmente no âmbito da educação para as crianças como ela.

Algumas escolas não têm a paciência para lidar com crianças com deficiência. Alguns alunos não têm boas intenções para crianças como eu, e que muitas vezes somos deixadas sozinhas. Os professores devem ajudar a integrar crianças com deficiência e educar os outros alunos que temos os mesmos direitos que todos os outros, e que esses direitos precisam de ser respeitados.

Laura Machava
© UNICEF Mozambique/2013/Marie-Consolee Mukangendo
“As crianças com deficiência devem ser providas de apoio porque podemos contribuir e ajudar,” diz Laura.

Em Moçambique, um novo plano estratégico do sector viu o Ministério da Educação comprometer-se à educação inclusiva. Na prática, até agora, isso traduziu-se pelo estabelecimento de centros de recursos para a educação inclusiva em três regiões. Estes são projectados para fornecer instalações de internato para as crianças a fim de aliviar o desconforto das viagens diárias, uma vez que os pais das zonas rurais raramente podem pagar o transporte diário. Embora esses centros sejam bem equipados e com mandato para promover a educação inclusiva, o pessoal ainda carece de certo tipo de formação especializada.

De acordo com estimativas da FAMOD (Fórum de Associações Moçambicanas de Pessoas com Deficiência), do ano 2002, cerca de 1,5 milhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência no país, havendo 14 por cento de crianças com idades entre 2 a 9 anos com algum tipo de deficiência, de acordo com o MICS 2008.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada por Moçambique em Janeiro de 2012, define uma pessoa com deficiência a incluir todos aqueles que têm deficiência física, mental, intelectual ou sensorial, de longo prazo, os quais, em interacção com diversas barreiras, podem obstruir sua plena e participação efectiva na sociedade em igualdade de condições com os outros.

Mas muitas das barreiras estão em nossas mentes, ao invés de existirem no concreto. As crianças com deficiência são muitas vezes vítimas de estigma e discriminação. Elas são mantidas escondidas dos olhos do público porque elas são consideradas tabu. Em algumas crenças tradicionais, uma criança com deficiência é um castigo que cai sobre a família em virtude de alguma coisa errada por ela cometida. Laura não vê isso dessa maneira.

As crianças com deficiência devem ser providas de apoio porque podemos contribuir e ajudar. Nós não devemos ser deixadas de lado, diz ela.

Felizmente as coisas estão começando a se mover em Moçambique, e barreiras, podem lentamente com o tempo ruir. Um plano de acção nacional sobre a deficiência foi desenvolvido pelo Governo em 2006 e aprovado pelo de Conselho de Ministros, no mesmo ano. Moçambique também foi escolhido para implementar a Década Africana das Pessoas com Deficiência (1999-2009). Uma série de organizações não-governamentais estão trabalhando com a questão da deficiência, principalmente ao nível da comunidade. Mas ainda há muito a ser feito.

Para apoiar o Governo e outros parceiros, o UNICEF Moçambique lançou um projecto de dois anos, que irá apoiar os programas do Ministério da Educação sobre a educação inclusiva. O projecto também está definido para chegar às crianças com deficiência, com assistência concreta em forma de bicicletas especiais e audição e recursos visuais. A campanha de advocacia em todo o país, será lançada para aumentar a conscientização sobre os direitos das crianças com deficiência e no combate ao estigma e à discriminação.

O objectivo geral de todas estas iniciativas são para garantir que os direitos das crianças, tais como a Laura são respeitados em casa, nas escolas e em suas comunidades, e que as crianças se sintam dignas, desenvolvam uma boa auto-estima e auto-respeito. Isso em troca vai permitir que as crianças possam desenvolver plenamente o seu potencial, para cuidar de suas próprias necessidades, bem como contribuir para a sociedade como membros de pleno direito.

As crianças com deficiência e suas comunidades poderiam beneficiar-se caso todos nós nos concentrássemos naquilo que as crianças podem alcançar, e não naquilo que elas não podem.

Quando eu crescer, eu quero tornar-me uma enfermeira qualificada e cuidar dos doentes e idosos, diz ela e sorri. Espero ir para a universidade para estudar. Vou estudar muito, muito, muito, para que eu possa passar nos exames.

Video: 2 Lives:2 Miles Apart: Escola

Para mais informações, favor contactar:

Patricia Nakell, UNICEF Mozambique
Tel: +258 82 312 1820; Email: pnakell@unicef.org

Gabriel Pereira, UNICEF Mozambique
Tel. (+258) 21 481 100; Email: maputo@unicef.org

 

 

 

 

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