Vidas reais

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A melhor presença possível na vida das crianças com HIV

Dra Bernadina Goncalves
© UNICEF Mozambique/2013/Patricia Nakell
"A melhor coisa para as crianças é o tratamento que começa o mais cedo possível. Mas também o é, o apoio incondicional e amor dos pais e encarregados de educação," diz a Dra. Bernardina.

Por Patricia Nakell

Maputo, 27 de Março de 2013 – Ninguém deveria ser criticado por não se aperceber da presença de Bernardina Gonçalves. Seguindo na cauda do grupo de dignitários internacionais que visitavam o Centro de Saúde da Polana Caniço naquela manhã, a pediatra ficou alguns passos atrás, com um sorriso no rosto, e suas mãos recatadamente cruzadas ao peito.

Mas, sob o comportamento modesto, ela é uma profissional altamente qualificada com o que certamente deve ser uma das profissões mais difíceis do mundo. A Dra. Bernardina é uma pediatra que trabalha com crianças com HIV nos arredores de Maputo, num país onde 11,5% das pessoas entre os 15 a 49 anos de idade são portadoras do vírus, e onde o tratamento não se encontra sempre disponível para todos.

Só no ano passado, a Dra. Bernardina havia cuidado de vários pacientes doentes, desde recém-nascidos até crianças com 5 anos de idade. Alguns desses pacientes têm o apoio constante de uma família amorosa, medicação adequada, alimentação e uma vida quase normal. Outros são menos afortunados.

No entanto, é sobre o lado positivo que a Dra. Bernardina prefere falar.

"Um dos melhores dias da minha semana é quando eu visito o Orfanato da Casa da Alegria, diz ela, “com os olhos brilhando de emoção. "Eu tenho uma ligação muito forte com as crianças de lá. Nem todos elas são seropositivas, mas alguns dos adolescentes mais velhos são meus pacientes desde que eram crianças. "

Na verdade, alguns deles estão na clínica hoje, para fazerem uma apresentação cultural para os visitantes, e logo que terminarem as canções e danças, vão correndo para rodearem a Dra. Bernardina, conversando com ela e segurando sua mão. Ela é toda sorrisos e a ligação entre eles é, obviamente, forte.

A Dra. Bernardina pacientemente acompanhou a delegação à medida que esta passava de um quarto para o outro, embora ela devesse ter uma pilha de trabalho esperando por ela. A visita parecia de rotina, mas assim não era realmente. O presidente do Conselho de UNITAID estava no país para inaugurar o uso de novos e modernos equipamentos para diagnóstico que irão diminuir o tempo de diagnóstico de bebés com HIV, e que podem melhorar muito as probabilidades (de sobrevivência) dos pacientes mais jovens.

Dra Bernadina Goncalves
© UNICEF Mozambique/2013/Patricia Nakell
"Eu tenho uma ligação muito forte com as crianças do Orfanato da Casa da Alegria", diz a Dra. Bernardina Gonçalves, pediatra e especialista em HIV.

"Quanto mais cedo nós temos o diagnóstico, mais cedo nós podemos começar o tratamento anti-retroviral", diz ela, "e o tratamento imediato pode fazer uma enorme diferença para a longevidade e qualidade de vida, especialmente para as crianças." Para os mais jovens, é até uma questão de vida ou de morte. Sem tratamento anti-retroviral, metade dos bebés seropositivos morrem antes de atingir a idade de dois anos.

Algumas famílias levam seus filhos para testes, mas nunca mais voltam para saber dos resultados. A maioria vem tarde, quando a criança já adoeceu por muitos meses, possivelmente depois de consultar um curandeiro tradicional.

"Isto está a tornar-se melhor", admite a Dra. Bernardina. "Graças ao trabalho de comunicação, através de rádios comunitárias e TV, as famílias começaram a entender a importância de levar as crianças para o tratamento rapidamente."

Lidar com esta doença requer uma visão holística, ela insiste. Momento conveniente e o tratamento institucional apropriado são importantes, mas a atenção domiciliar é quase tão crucial, diz ela.

"Às vezes, as crianças estão sendo cuidadas por avós idosos, que se esquecem de consultas médicas ou quando devem tomar os comprimidos. Ou eles são muito pobres para pagar mais do que uma refeição por dia, e as crianças precisam comer várias vezes ao dia com a medicação. "

Mas além dos desafios óbvios de viver com uma doença potencialmente mortal, há a carga emocional da infecção que afecta as crianças.

"Em alguns casos, as crianças só se dão conta e apreendem sobre a sua infecção quando se tornam adolescentes, com o que seria uma coisa difícil de lidar, mesmo para um adulto maduro. Mas para esses jovens, eles não entendem o que eles próprios fizeram de errado, ou como lidar com seus medos. Os adolescentes podem não entender por que eles precisam continuar a engolir 8 ou 9 comprimidos grandes todos os dias para o resto de suas vidas, especialmente se eles estão se sentindo bem. Eles podem estar experimentando o seu primeiro amor. Tudo isso complica as coisas para eles."

A melhor coisa para as crianças é o tratamento que começa o mais cedo possível, de imediato, ela diz, mas não é o suficiente.

"O apoio incondicional e amor dos pais e encarregados de educação é tão importante para o bem-estar de crianças com HIV", diz a Dra. Bernardina.

Vê-la como ela interage com os órfãos da Casa da Alegria, que não têm família própria, é claro que a Dra. Bernardina Gonçalves torna-se a melhor presença possível nas suas vidas como se poderia desejar.

Leia mais sobre os novos e modernos equipamentos de diagnóstico para HIV em Moçambique, um projecto conjunto entre a UNITAID, UNICEF, Clinton Health Initiative e Médecins Sans Frontières

 

 
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