Vidas reais

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"O meu sonho é de estudar e nunca parar!"

grupo de Teatro do Oprimido
© UNICEF Mozambique/2012/C.Bach
A mensagem da peça que os alunos na Escola de Macunene prepararam atinge-nos com muita força. Como parte do seu envolvimento no Grupo de Teatro do Oprimido os alunos estão a trabalhar para informar a comunidade sobre tópicos de crucial importância.

A mensagem da peça que os alunos na Escola de Macunene prepararam atinge-nos com muita força. Como parte do seu envolvimento no Grupo de Teatro do Oprimido, um projecto de teatro escolar centrado em questões sociais, os alunos estão a trabalhar para informar a comunidade sobre tópicos de crucial importância. Um destes tópicos consiste em convencer a todos os pais e encarregados de educação para deixar os seus filhos concluir o ensino primário.

A história na peça que estamos a assistir apresenta uma questão comum no Distrito de Chibuto, Província de Gaza. Por causa das dificuldades em encontrar emprego localmente e a proximidade com a África do Sul, muita gente jovem opta por abandonar a escola para procurar oportunidades do outro lado da fronteira ou na capital.

Carlton Juvencio Djedje é um dos alunos que participam no projecto de teatro escolar promovido de Escolas Amigas da Criança. Gerido pelo Grupo de Teatro do Oprimido (GTO), as histórias que as crianças encenam concentram-se na saúde, protecção e questões sociais.

Carlton é albino mas actua com orgulho perante as pessoas. Ele faz parte do teatro escolar há cerca de um ano e aprecia todas as coisas que aprendeu. Ele também está convencido de que isto ajudou-lhe a concentrar-se na escola. "Antes, eu não era capaz de sentar e ficar calmo; eu estava sempre inquieto e tinha problemas. Agora, posso usar a minha energia no teatro e estudar bem. Aprendi muito com o director. Falamos sobre coisas importantes no teatro."

Ele afirma que muitas raparigas abandonam a escola porque elas são forçadas a casar muito cedo. "Quando uma rapariga se casa cedo, isto acontece principalmente porque a sua família tem dificuldades e precisa de dinheiro extra e então não tem mais volta;" afirma Carlton.

A segunda parte da peça concentra-se neste problema. Uma rapariga casou-se e quer voltar para casa e regressar a escola, mas ela tem medo do seu pai que já gastou todo o dinheiro que ele recebeu pelo lebolo.

O director do grupo teatral, João Bernardo Condzo, recorda-se de como duas raparigas de 17 anos de repente desapareceram da escola no ano passado. "É um problema muito difícil porque não há qualquer aviso antes que isso aconteça; as raparigas apenas param de frequentar a escola um dia e cortam todo o contacto com os seus amigos porque elas estão envergonhadas. É muito difícil trazê-las de volta a partir do momento em que elas desistem."

João foi seleccionado para participar na sua primeira formação teatral há cinco anos atrás. Isto proporcionou-lhe uma visão mais profunda sobre como ensinar os alunos sobre assuntos sociais e ele também adquiriu competências para orientar peças teatrais e envolver pessoas jovens na discussão. João está muito orgulhoso do seu grupo e do efeito que o teatro tem sobre os seus alunos.

"No início, os pais diziam que os seus filhos estavam a perder tempo mas quando eles viram que muitos actores passavam os seus exames finais e tornavam-se melhores alunos, a comunidade começou a apoiar o grupo. E obviamente, eles também gostavam das peças teatrais!" afirmou ele rindo.

Rozita e Sheila, duas raparigas do grupo, concordaram. "Não só somos melhores alunas, mas também somos menos tímidas agora. Quando as pessoas se aproximam para falar connosco, nós sabemos como responder. Aprendemos como nos levantar perante centenas de pessoas e como falar sobre assuntos difíceis."

João concorda. "A única forma de proteger estas crianças é de convencer os seus pais que a escola é a coisa mais importante que existe. Isto irá mudar tudo." Diz ele, referindo-se ao seu sonho de gravar a próxima peça em vídeo e disseminá-la pelas comunidades que vivem demasiado longe para serem alcançadas.

A peça que estamos a assistir contém muita comédia, mas não tem um final feliz, conforme se pode esperar de uma peça teatral escolar. Contrariamente, o rapaz que partira para a África do Sul regressa a casa sem nada, mas apenas com um par de óculos de sol e a rapariga que costumava ser a melhor aluna da turma não tem autorização do seu marido para continuar a estudar e acaba por ser uma mulher doméstica maltratada. Colocado em termos simples, a peça mostra-nos a realidade das crianças de Chibuto que não concluem com os seus estudos.

Quando todos os alunos da peça sobem ao palco novamente, as pessoas na audiência continuam com a sua respiração suspensa. Os actores levantam os seus braços com as mãos dadas para o céu e dizem em voz alta: "O meu sonho é estudar e não parar nunca!" Seguem-se aplausos e gritos de apoio, acompanhados por alguns gritos de "Sim!", vindos da audiência comovida.

 

 

 

 

Escolas Amigas da Criança: Histórias de Moçambique

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