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Entrevista com Mark Henderson, chefe da Secção de Água, Saneamento e Higiene sobre a importância da água potável

unicef mozambique
© UNICEF Mozambique/2011/Tommaso Rada

Maputo, 22 de Março de 2013 − Por ocasião do Dia Mundial da Água, entrevistámos Mark Henderson, que se juntou recentemente à equipa do UNICEF Moçambique como chefe da Secção de Água, Saneamento e Higiene para falar sobre a importância da água potável e como estamos fazendo no fornecimento dela às crianças em Moçambique.

Q: Na sua opinião qual é o ponto de situação da água e saneamento em Moçambique?
MH: Mais de 50% das crianças em Moçambique não têm acesso ao abastecimento de água melhorado. Com “melhorado” quero dizer um sistema de abastecimento, tal como tubos de canalização e bombas de água manuais, que providenciam água potável, ao contrário de rios ou poços desprotegidos, que podem estar contaminados. A situação nas zonas rurais é deveras pior, onde apenas uma entre dez famílias tem acesso a infra-estruturas melhoradas de saneamento. Nove em cada dez casos de diarreia – causa principal de mortalidade entre crianças menores de 5 anos – estão relacionados com a água insegura e condições sanitárias inadequadas. Então, a situação das crianças está longe de ser ideal, para dizer o mínimo.

Q: Quais são algumas das coisas que o UNICEF faz para ajudar a resolver este problema?
MH: Ao nível do UNICEF, concentramo-nos em melhorar a situação das crianças e famílias com acesso limitado a abastecimento de água melhorado, primeiramente daquelas vivendo nas áreas rurais e pequenos centros urbanos, através de parcerias com as autoridades do Sector de Águas do Governo de Moçambique, doadores e o sector privado. O saneamento é uma grande prioridade, também. Encorajamos todas as famílias para construir suas próprias casas de banho, mesmo sendo uma simples latrina, a fim de acabar com a defecação ao ar livre (fecalismo a céu aberto). Nas franjas mais pobres da sociedade, 93% praticam o fecalismo a céu aberto enquanto nos segmentos mais ricos apenas 3%. Outra prioridade é atingir as crianças nas escolas, a fim de melhorar o ambiente de aprendizagem e estabelecer boas práticas de higiene desde cedo. Vinte anos atrás, quando fazíamos a educação sanitária nas áreas rurais, estávamos habituados a sentarmo-nos com o ancião da aldeia debaixo de uma árvore e tentar convencê-los a adoptar boas práticas. Isso foi realmente uma abordagem ineficaz que nunca funcionou muito bem. É realmente às crianças que desejamos influenciar, pois são elas próprias os cuidadores do futuro. Na verdade, algumas raparigas e rapazes já são cuidadores, chefiando agregados familiares e cuidando de seus irmãos mais novos. Com foco nas crianças é, certamente, uma forma mais eficaz de fazer esses tipos de mudanças comportamentais.

Q: Por que um país como Moçambique, com tantos rios tem problemas de água?
MH: Há estiagem (seca), ocasionalmente, especialmente em partes do sul do país, mas é verdade que Moçambique é abençoado com uma grande quantidade de recursos de água doce, grandes rios em bacias hidrográficas de grande porte. Mas para a provisão de água de baixo custo, em particular nas áreas rurais, as águas de superfície constituem a opção preferida porque as águas provenientes de poços ou furos requerem um tratamento mínimo. Os amplos recursos hídricos de Moçambique têm de ser bem geridos. O que estamos vendo agora é uma demanda crescente da agricultura, o crescimento da população, da mineração e da indústria. Uma coisa de que Moçambique pode orgulhar-se é o sistema de gestão regional forte que tem para gerir barragens e relações com países vizinhos a montante, com sistemas de alerta prévio em caso de inundações, o que se viu em acção durante a emergência das inundações deste ano.

Q: A inundação que atingiu a bacia do rio Limpopo na província de Gaza neste ano fez deslocar 200.000 pessoas, e deixou grande destruição em seu caminho. Como isso foi tratado, e quais são algumas lições aprendidas?
MH: Como parte da Equipa Nacional Humanitária, o UNICEF liderou o Grupo das Águas, Saneamento e Higiene, coordenando e gerindo informações em torno da resposta colaborativa conjunta. E, de facto, o Grupo esteve activamente envolvido na preparação para as inundações, mesmo antes da declaração do alerta vermelho. Tínhamos reuniões com os nossos parceiros, fazendo visitas conjuntas para áreas de risco e avaliando as reservas ou aprovisionamentos preposicionados. Depois que as pessoas foram deslocadas, a resposta inicial de emergência foi o fornecimento de baldes às famílias, produtos de tratamento de água, sabão, material de construção de latrinas, como lajes e lonas. Nos campos de assentamento, ajudámos a fornecer água adequada para os moradores do campo através do transporte de água em cisternas, e apoiámos na construção de latrinas. Agora, que as águas diminuíram, concentramo-nos no regresso das comunidades às suas zonas de origem, desinfecção de poços, reparando as bombas, e ajudando as famílias a reconstruir suas latrinas. A abordagem de Grupo (cluster), que foi iniciada em 2005, ajuda-nos a levar a cabo uma resposta coordenada que possa ser posta em prática muito rapidamente. Na mesma linha, os nossos colegas do governo no sector da água também progrediram, criando um órgão semi-autónomo que faz a gestão do abastecimento de água nas áreas urbanas em todas as grandes vilas e cidades. Profissionalizar o trabalho desta maneira resultou em melhor prestação de serviços e a capacidade de responder com medidas preventivas. Durante as cheias deste ano, por exemplo, a propagação da doença foi efectivamente prevenida em Chókwè, cidade mais atingida, graças à rápida reacção das autoridades. Antes que as águas atingissem níveis incomportáveis, fez-se a remoção das bombas dos poços e depois selados, e desligou-se o fornecimento de energia, para minimizar o risco de destruição. Uma vez que as águas baixaram, as autoridades voltaram aos locais e reinstalaram as bombas reestabelecendo e operacionalizando o sistema. Esta é uma grande melhoria em relação ao ano de 2000, quando enchentes tiveram efeitos muito mais devastadores, e o sistema de abastecimento da água na cidade teve que ser completamente reabilitado. Ao todo, temos um longo caminho a percorrer no sentido de assegurar que todas as crianças e suas famílias em Moçambique têm acesso à água potável e ao saneamento. Eventualmente, nós vamos chegar lá, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

 

 
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