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Apoiar os órfãos a viver nas suas comunidades

© UNICEF/MOZA-01586/G.Pirozzi
Pedro (de azul) espera ser reunido à sua avó, pois os seus pais morreram.

Beira e Chókwè (Moçambique) – Pedro*, de dez anos de idade, marcha confiante para saudar os seu visitantes, levando um deles pela mão para mostrar desenhos que ele fez no centro de trânsito da Cruz Vermelha de Moçambique na Beira, província de Sofala.

Pouco depois Pedro faz outro desenho de uma casa com duas figuras lá dentro. “Este é um rapaz com a mãe dentro de casa,” diz Pedro a sorrir.

Por agora, esse desenho apenas representa um sonho para Pedro porque ele não tem casa, explica António Vasco, um trabalhador social no centro.

“Depois dos pais morrerem e de Pedro ficar doente, o primo dele trouxe-o para aqui há quatro anos, fingindo ser seu vizinho. Ele estava com medo de ter de assumir responsabilidade por ele.”

Apesar do centro da Cruz Vermelha na Beira ter reintegrado com sucesso mais de 100 crianças, têm ainda 33 órfãos, a maioria devido ao HIV e SIDA, à espera de serem reintegrados com familiares ou famílias substitutas nas suas comunidades.

Entretanto, o Pedro está a receber apoio no centro. Ele estava muito doente quando chegou, coberto de feridas, malnutrido, socialmente introvertido e não estava na escola.

Os trabalhadores do centro levaram-no regularmente ao hospital de dia onde recebeu tratamento para uma série de infecções oportunistas. Dois meses atrás começou a receber medicamentos anti-retrovirais.

“Ele é muito bom a lembrar-se deles,” diz António. “Ele não percebe bem o HIV, mas sabe que tem de tomar medicamentos duas vezes por dia à mesma hora e que não deve parar se quiser melhorar.”

Pedro voltou à escola, mas está atrasado nos estudos e pode ser perturbador nas aulas. Pensa-se que uma infecção deixou ligeiros danos cerebrais.

A sua professora é nova e, ao contrário do anterior professor que estava sensibilizado para os seus  problemas, esta professora ainda não foi informada sobre a condição do Pedro. “Iremos falar com ela porque por vezes manda-o para casa se ele faz barulho,” diz António.

O centro planeia reunir Pedro com a sua avó que descobriram recentemente estar a viver na província de Tete. Irão primeiro visitála para saber o tipo de apoio que ela necessita.

Cada vez mais, são as avós em Moçambique que estão a assumir a responsabilidade pelo número crescente de crianças órfãs devido ao SIDA, agora calculado em 350.000.

“O Governo está empenhado nos cuidados de órfãos e crianças vulneráveis,” diz o Responsável pelo programa de protecção no UNICEF, Jeremy Hopkins. “Mas o apoio a nível da comunidade desempenha e continuará a desempenhar um papel fundamental para assegurar que os direitos das crianças são cumpridos, incluindo apoio para as reintegrar na escola, se tiverem desistido, acesso à serviços de saúde de qualidade, água potável e latrinas nas suas casas, aquisição de certificados de nascimento, cuidados psico-sociais e ligações com esquemas de assistência social do governo.”

© UNICEF/MOZA-01750/G.Pirozzi
Athalia Mabunda e a sua neta Eliza recebem apoio da organização Vukoxa.

Várias organizações criaram actividades para apoiar órfãos e crianças vulneráveis a viver nas comunidades em todo o país. Um centro para a reabilitação de crianças apoiado pelo UNICEF (CRIC) na cidade de Chókwè oferece cuidados de saúde, terapia de jogos, habilidades para a vida básicas bem como apoio psico-social para crianças órfãs e vulneráveis. O centro apoia também com registos de nascimento, que são essenciais para que os direitos sejam cumpridos e também no de heranças.

Os trabalhadores encorajam os pais doentes a manter caixas com recordações, tais como  fotografias e roupa, para as crianças quando eles morrerem.

Na aldeia remota de Bomofo, os  avós que tomam conta dos seus netos órfãos estão organizados numa organização local designada Vukoxa (significa terceira idade na língua local). A organização, apoiada pelo Help Age International e pelo UNICEF, trabalha com várias comunidades no Chókwè para proteger os interesses dos mais velhos e representá-los a nível distrital e provincial.

A anciã Athaliah Mabunda é um dos membros. Apesar de não ter ido à escola, ela certifica-se que a sua neta de 13 anos, Eliza, que vive com ela desde a morte da mãe, nunca falta às aulas.

Eliza, que considera a sua avó uma mãe, diz que se lembra de apenas algumas coisas da sua mãe. “Lembro-me como ela me chamava para lhe fazer papa quando estava doente.”

Vukoxa tem ajudado Eliza com material escolar, cobertores, utensílios agrícolas e de culinária e roupas. A sua pequena casa tradicional de lama e paus foi também reforçada com cimento no chão e tem agora telhado de zinco e uma latrina perto de casa.

O Director da escola local, Estêvão Nhantumbo, que trabalha com a Vukoxa e participa nas suas reuniões regulares, diz que com a ajuda dos conselheiros da Vukoxa, conseguiram reintegrar 43 crianças na escola, a maioria das quais órfãs.

Os conselheiros da Vukoxa desempenham também um papel significativo nos cuidados de saúde infantil, diz Silva Chaúque, da autoridade de saúde local.

“Os conselheiros explicam que se a criança tiver febre ou diarreia deve ser levada para o posto de saúde em vez de simplesmente tratar a criança com plantas do curandeiro tradicional. Anteriormente, cerca de seis crianças morriam todos os meses a nível do posto de saúde local,  mas este mês por  exemplo, não houve mortes porque estão a levar as crianças para o posto imediatamente, em vez de esperar muito tempo quando o curandeiro tradicional não pode curar a criança.”

* Nome fictício.

 

 
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