A vida das crianças a viver com HIV é transformada com o tratamento
Maputo (Moçambique) – Leo*, de catorze anos de idade, interrompe a enfermeira Maria Ronga que está à falar ao telefone. “Por favor mande os meus cumprimentos à Doutora Paula,” diz o rapaz. A enfermeira Maria transmite a mensagem de Leo antes de desligar. Em seguida, ela volta toda a sua atenção para Leo, conversando numa sala de espera solarenta decorada com cores brilhantes e cheia de mobília de crianças e cestos com brinquedos. A boa disposição, bom ar e roupas arranjadas de Leo dão a impressão de ser uma criança privilegiada. Mas a sua aparência actual desafia o seu passado. Apenas há uns anos atrás ele estava muito fraco para andar. A mãe teve de o carregar às costas para o levar para o hospital onde passou a maior parte da sua infância. No entanto, em comparação com a maior parte das crianças a viver com HIV no resto do país, ele é privilegiado porque tem acesso a tramento antiretroviral (TARV), cuidados e apoio psicológico de uma equipa qualificada e atenciosa no Hospital Pediátrico de Dia, na capital Maputo. O hospital abriu neste local em 2004 com apoio do Governo Francês e do UNICEF, mas os serviços para crianças com SIDA estão disponíveis no hospital desde 1994. A nível do país, cerca de 100.000 crianças com menos de 15 anos de idade vive com HIV e SIDA. Dois terços necessita de TARV, mas em meados de 2006 apenas 2.300 crianças tinham acesso ao tratamento. O Hospital Pediátrico de Dia oferece cuidados de pacientes externos para crianças com HIV e tem uma ala para pacientes internos onde as crianças muito doentes podem ser tratadas e monitoradas. Tem também um programa de cuidados domiciliários na comunidade para permitir às enfermeiras cuidar das crianças que estão muito doentes para ir para o hospital ou crianças em agregados com problemas sociais e acompanhar crianças a receber TARV se faltarem à consulta mensal para receber os medicamentos. “O nosso maior sucesso até à data é a nossa taxa de sobrevivência infantil, que é uma taxa de sucesso de 95 por cento após dois anos de medicamentos ARV, com apenas poucas crianças na segunda linha de medicamentos ARV (devido à resistência ou a efeitos secundários severos),” diz a Dra Paula.
“Conseguimos oferecer um pacote integrado de apoio médico, psicológico e nutritivo. Pode ser feito, mas é necessário ter uma equipa empenhada. A razão principal pela qual as crianças a receber TARV morrem é que os pais as trouxeram muito tarde.” E a razão pela qual trazem as crianças muito tarde é o que Dra Paula identifica como o desafio principal – estigma. “As crianças aceitam o seu estado seropositivo melhor do que os seus pais. Os pais é que frequentemente se recusam a aceitar que os seus filhos têm HIV.” Leo, por exemplo, fala sobre o seu estado seropositivo com à vontade mas sabe que é melhor mantê-lo segredo dos seus amigos devido a possível discriminação. O aconselhamento e apoio psicosocial para as crianças é parte central dos cuidados no Hospital Pediátrico de Dia. Artistas, que vão ao hospital duas vezes por semana, trabalham com as crianças em actividades artísticas, incluindo pinturas e escultra. “Ajuda as crianças a expressar as suas emoções que por vezes não conseguem transmitir,” diz a Dra Paula. A psicóloga Catarina Mboa Ferrão diz que o seu trabalho se tornou mais fácil agora que existe tratamento. “Anteriormente, o HIV estava associado à morte, mas agora podemos falar em vida, e estamos a ver as nossas crianças a crescerem.” No entanto, ainda é um desafio, em particular decidir quando dizer a uma criança que ele ou ela está infectado/a com HIV. Ela trabalha com os pais para avaliar quão preparada a criança está mas, em geral, é melhor que saibam mais cedo do que mais tarde. “Recomendamos que os pais preparem continuamente os seus filhos e lhes digam quando eles perguntam,” diz a psicóloga Catarina. “É mais difícil para as crianças quando sabem que lhes estamos a esconder algo.” Leo parece ter aceite o seu estado de seropositivo e está ansioso por voltar para a escola. Ele sabe porque agora é possível ir à escola. “Comecei a ficar melhor quando tomei os medicamentos para HIV; isso foi no dia 7 de Maio de 2004,” diz decididamente sem uma pausa para pensar. “Tomo os meus comprimidos duas vezes por dia às 9 da manhã e, em seguida, às 9 da noite. Os meus irmãos e irmãs mais velhos sabem da minha doença e também me lembram de tomar os comprimidos. Mas por acaso, eu nunca me esqueço.”
|