Os estudantes ajudam a tornar as escolas mais amigáveis
Maganja da Costa (Moçambique) – Esperança, de catorze anos de idade, está orgulhosa da sua escola até agora, em cuja construção ela e outros estudantes, pais e membros da comunidade estão a participar. As salas de aula concluídas são pequenas salas de tijolo com tectos de folha de palmeira e sem portas. O pó do pátio de recreio entra para dentro das salas, que estão parcamente iluminadas por raios de luz do dia através de pequenos buracos nas paredes que servem como janelas. Os estudantes, por vezes 60 numa sala, estão espremidos em troncos ou no chão poeirento sem carteiras. Os professores não têm mesas para poisar os seus livros. Pelo menos, as novas salas de aulas darão mais espaço aos alunos. Estão a realizar-se mais desenvolvimentos por trás da fachada básica do edifício das salas de aula na escola primária de Namurumo situada no coração de Maganja da Costa, um dos distritos mais pobres na província da Zambézia. “Não podemos eliminar todos os problemas no sistema de educação, mas podemos apoiar com algumas alterações fundamentais que podem melhorar a qualidade da educação,” diz Stella Kaabwe, Responsável do Programa de Educação no UNICEF. Ela explica como o UNICEF apoia o Ministério da Educação e Cultura na criação de “escolas amigas das crianças”, que abrangem todos os sectores, nomeadamente educação, saúde, água e saneamento, assistência social e comunicação para melhorar a retenção e o desempenho dos alunos nas escolas, mesmo nas mais pobres como a de Esperança. Cada escola estabelece um Conselho de Escola, que desempenha um papel relevante em melhorar a qualidade da educação e fornece fortes ligações com a comunidade. No âmbito do programa, os membros do Conselho recebem formação em liderança, participação e habilidades para a vida, incluindo HIV e SIDA e consciencialização sobre género. O director da escola de Namurumo, Fazilom Ofumawe, diz que os seus professores beneficiaram também de formação em questões relacionadas com saúde, e utilizam métodos de ensino participativos e centrados nas crianças. “Nós aprendemos métodos que permitem maior participação dos alunos apesar de termos turmas grandes para gerir,” diz o director da escola. “Utilizamos mais trabalho de grupo e tiramos partido do nosso ambiente rural. Por exemplo, se tivermos uma aula de Ciências Naturais levamos os alunos para fora para observarem directamente o que existe. Antes não fazíamos isto, mas agora estamos a tentar.” Uma vez que a nutrição inadequada e a fome são problemas para a maioria dos alunos, o director diz que a escola está em vias de obter um lote de terra onde possa produzir alimentos para as crianças e, se tiverem excedentes, irão vender para apoiar na manutenção da escola. A outra prioridade principal, diz Fazilom, é manter as raparigas e o número crescente de órfãos – devido principalmente ao HIV e SIDA – nas aulas. Os números indicam a disparidade de género. Na primeira classe, existem actualmente 88 raparigas e 87 rapazes, mas na quinta classe existem apenas 28 raparigas e 42 rapazes.
Para rectificar a situação, a escola baseia-se no Conselho da Escola, que tem 9 membros e 23 activistas, que fazem visitas ao domicílio às crianças que desistem. De forma a ter um acesso facilitado à todas as crianças, o Conselho certifica-se que os membros representam todos os grupos na comunidade. Esperança, que veste uma t-shirt dourada, está orgulhosa quando fala do seu papel no Conselho da Escola. “Visito sete famílias regularmente. Estes dias uma das minhas visitas hade ser a uma aluna que está grávida. Ela tem 16 anos e está na quinta classe. Eu digo-lhe que ela deve continuar a estudar como eu.” “A maioria dos alunos que visito são raparigas, e a maioria são órfãs,” acrescenta. “Elas acham difícil ir à escola.” Esperança pode simpatizar facilmente. Ela tem responsabilidades grandes em casa, sendo a mais velha no seu agregado com uma mãe viúva. “O meu pai morreu depois de estar doente por um ano quando o membro mais novo da família ainda era bebé.” “É difícil para os órfãos, em particular para as raparigas; não têm comida e roupa. E não podem fazer nada para melhorar a sua vida. As mães não as podem ajudar por serem tão pobres,” diz Esperança. Sem qualquer traço de auto-piedade, ela diz que a sua mãe só tem uma pequena machamba de mandioca. Apesar de ter um dia longo, Esperança normalmente come uma refeição por dia depois da escola. “Frequentemente tenho fome durante as aulas,” admite. O Conselho certifica-se que os órfãos têm acesso a Certificados de Pobreza da Direcção Distrital da Mulher e Acção Social, explica Maria Fátima Fanjo, membro do Conselho e mãe de oito crianças. “Nós temos órfãos, a maioria deles recebeu sacos do UNICEF com material escolar mas o número de órfãos continua a O UNICEF disponibilizou também uma bomba de água Afridev no terreno da escola e estão previstos planos para construir latrinas separadas para raparigas e rapazes. Esperança diz que o poço fez uma grande diferença na sua vida, porque não só tem acesso à água potável na escola, mas como tantas outras pessoas na comunidade circundante, ela recolhe água para o agregado do poço da escola. “São só 15 minutos a pé de minha casa, por isso às 5 da manhã quando o sol nasce eu posso ir buscar água para casa antes de ir para as aulas.” Antes da construção do poço, a maioria dos alunos utilizava água do rio, que não é potável. As latrinas são ansiosamente esperadas. A cólera custou a vida de quatro colegas de Esperança no ano passado e três estudantes já morreram este ano (2006). No entanto, a sua escola está a melhorar aos poucos. Esperança não tem intenção de desistir da escola. Quando questionada sobre o seu futuro, ela diz, “Quero continuar na escola. Talvez no futuro seja professora ou agricultora, quem sabe.” Ela ri, mostrando covinhas pronunciadas.
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