Participación adolescente

LACVOX Red Regional de Adolescentes Comunicadores, América Latina y el Caribe

 

Adolescência: uma fase de oportunidades

Por: Grace Araújo de Carvalho

LACVOX

Brasil

 

Drogas. Alcoolismo. Gravidez na adolescência. Abuso sexual. Erotização precoce. Preconceito. Violência doméstica. Abandono escolar. Bullying. Perda de valores. Transtornos alimentares. Abandono. Exploração sexual de crianças. Educação de má qualidade. Pobreza. Um grito de socorro.

 

Quando os governantes olharão com mais atenção para os jovens? Até quando as pessoas ousarão em desrespeitar os direitos destes, que são a esperança e o futuro da humanidade?

 

Erleide Lins da Silva: “Alex de três meses nasceu em cativeiro, sua mãe com 16, se prostitui desde os 11. Até os cinco meses de gravidez teve de vender seu corpo.”

Creuza Santos de Jesus: “Já fui gente, hoje não sou ninguém.”

Trechos retirados do livro “Meninas da Noite”.

 

Adolescência: uma fase de oportunidades. É com esse tema que a UNICEF lança, nos quatro cantos do mundo,o relatório Situação Mundial da Infância 2011. Em meio a tantos problemas climáticos, ambientais, políticos e sociais que fazem parte desse emblemático início do século XXI, a situação da criança e do adolescente pode passar despercebida. Embora os meios de comunicação e as redes sociais venham contribuindo consideravelmente para reverter essa situação, a mídia é um dos principais fatores que corrompem os adolescentes. O descaso da população ainda é gritante. Você já se perguntou se aquele café que você tomou hoje não foi colhido por crianças que sofrem de exploração de mão-de-obra infantil? Ou quantas crianças e jovens, nesse momento, estão vendendo suas vidas em troca de alguns centavos humilhantes? Quantas crianças foram abusadas sexualmente ou agredidas em seus lares? Quantos jovens perderam de ter um futuro brilhante pelo mau investimento na Educação? Já imaginou que aquele menino que te rouba hoje, se tivesse recebido uma boa educação e não tivesse sofrido pela pobreza estridente, poderia salvar a sua vida, ao invés de tentar tirá-la? Uma infância saudável é a base para uma vida de progressos. O primeiro contato educacional das crianças é com a família. Crianças possuem o hábito de refletir ações dos familiares.

 

É a fase de aprendizado crucial. O acompanhamento dos pais é fundamental. “De todas as reflexões e estudos sobre infância e adolescência, se alguma coisa pode ser mais ou menos consensual é que, crescentemente, as crianças estão mais sozinhas ou mais na convivência com seus pares da rua do que no seio de suas famílias. O pai, a mãe, ou qualquer outra figura de ligação familiar está se tornando rarefeita.” Ballone GJ – Depressão na Adolescência.

Para as Nações Unidas,os adolescentes são os indivíduos de 10 a 19 anos de idades. A adolescência é uma época de fortes transformações na vida mental do ser humano, uma época de desafios que deve ser tratada como prioridade. Além disso, são mudanças de necessidades, físicas, ideológicas, comportamentais, que requerem um pouco a mais de atenção dos familiares, orientadores e em geral, do governo. A segunda década da vida dos seres humanos nada mais é que a construção da sua identidade.

A realidade muda nos diferentes continentes, mas quando se trata da adolescência, existem precariedades comuns ao que se diz respeito ao assunto. As crianças e os adolescentes brasileiros, por exemplo, sofrem constantemente com as violações de seus direitos, expondo-se à pobreza, à desigualdade social e à iniquidade no País.

 

Carolina Favero, estudante de Design do Instituto Federal de Santa Catarina, comenta sobre a realidade dos jovens de sua região: “Vivo em Florianópolis, capital, cidade turística, linda e muito bem falada em todos os lugares e na mídia. Meus poucos dezenove anos me fazem perceber as inúmeras disparidades na realidade dos jovens desta região. Numa visão generalista: os privilegiados e os ignorados. Filhos de pais influentes ou filhos de um Zé Ninguém. A questão é a seguinte: os primeiros, tudo podem. Têm acesso a o que quiserem e fazem o que lhes convém, sem medir consequências,

sem o mínimo de preocupação com quem não faz parte de seu ciclo de convivência. E o fazem não só por serem inconsequentes, mas porque assim lhes foi ensinado. Sabem que nada os punirá, e ainda, receberão um afago carinhoso de seus pais por cada besteira realizada. Por outro lado, os filhos de um qualquer aprendem cedo como funciona a vida real. Trabalham, estudam, ajudam os pais, e sabem que seus atos refletirão em consequências. Recebem uma educação de péssima qualidade, quando se fala em ensino público – sobram alunos, faltam professores qualificados, falta estrutura.”

 

“Ao invés de generalizar todos os adolescentes, podemos dividi-los em dois grupos: os que têm acesso à educação, seja ela precária ou não, e aqueles que não têm acesso.” Essa é a idéia do jovem Jhonathas Ramon Leal Fraga, estudante do terceiro ano do curso de Edificações do Instituto Federal de Sergipe. Para ele, a precariedade na educação ou a falta da mesma é um dos grandes desafios que o jovem enfrenta nos dias atuais: “Visivelmente o jovem que tem acesso à educação tende a pensar de forma diferente e ser mais forte nos tropeços e percalços da vida. A dificuldade para uma grande parcela de adolescentes é a não possibilidade de educação, ou ainda, possuir uma educação precária que, ao invés de auxiliar a mente em formação, criar barreiras.O jovem vive a construir sua própria identidade, sair em busca de seus próprios valores e modelo de mundo, demonstrando anseios e inquietações. O que define a sua busca e construção de vida é o que lhe é reservado, o que ele encontra no caminho que está percorrendo. Ao falar educação, fala-se de uma forma ampla. Uma educação que traga projetos de integração social onde o jovem possa se sentir participativo, ter um valor em meio à sociedade que não o entende. Esses projetos na escola possuem mais chances de dar certo, formando um ser preparado para o mercado de trabalho, princípio básico da educação escolar, e forte para enfrentar a sociedade e todas as dificuldades que lhe aparecera nesse caminho.”

 

O jovem Jonnathan Siqueira Ramos de 17 anos, catequista em sua Paróquia, relata uma triste realidade dos jovens de hoje: eles já não sonham. “Já tive inúmeras experiências com diferentes realidades de jovens. Há mais ou menos dois anos, embora ainda seja muito novo, participo de um trabalho para a evangelização de adolescentes, e pude notar que somente uma pequena parte destes têm um sonho de viver uma vida digna no futuro. Está claro, não importa se uma escola é menos favorecida do que a outra, os jovens perderam a doçura de sonhar e lutar por seus sonhos, contentando-se apenar com o que a vida lhe impõe a ser.”

 

Os jovens frisam muito bem o contraste social enfrentado por muitos adolescentes em todo o Brasil. Vale ressaltar as palavras dos mesmos quando se trata da educação e da falta de expectativa de vida e de sonhos. Frequentemente presencia-se a deficiência na formação dos alunos e a alarmante situação na qual se encontra boa parte da juventude. A educação abre as portas para as realizações da vida, fazendo com que de braços abertos as pessoas descubram um mundo diferente, cheio de oportunidades, de realizações e de vitórias, descobrindo que realmente podem fazer a diferença. Pequenas aves que olham ao longe o horizonte, podendo contemplar os pores-do-sol e suas vidas de outro ângulo quando aprendem a voar.

 

Todos os dias, a humanidade, especialmente os jovens, têm a oportunidade de mudar sua realidade. Enquanto uma parcela desfruta de avanços tecnológicos, bem-estar e de boa instrução escolar, outra não tem acesso à alimentação, saúde, segurança, e principalmente, educação de qualidade. Todas as crianças e adolescentes têm direitos que devem ser cumpridos. Mas isso não só depende deles.O Brasil, país com 190 milhões de habitantes, dispõe de recursos para mudar essa terrível situação, o que talvez seja escasso nessa nação, são pessoas com o propósito de mudar o mundo. Falta investimento, falta mais atenção, faltam oportunidades, falta mais educação em pleno século XXI, o século das transformações.

Enfim, até quando esperar?

 

“Sabemos que a realidade é um campo de possibilidades. E nós, humanos, somos agentes potencialmente capazes de transformar/melhorar/aperfeiçoar a realidade na qual vivemos. O passado e presente –da humanidade- tem dado prova inconteste disso. Na Educação, desenvolvida em diferentes espaços sociais (família, igreja, escola, trabalho etc.), os jovens podem aprimorar essa vocação inerentemente humana: a de mudar a eles mesmos e ao mundo/realidade que o cerca. A Educação pode servir-lhe de “bússola” para “guiá-lo” a conhecer o mundo e a conhecer a si nesse mundo. Embora não seja a única resposta para os problemas de crianças e adolescentes em todo mundo, a Educação -que incide sobre as vidas intelectual, afetiva, espiritual e social deles- é um passo firme rumo à soluções. Assim, educando-se, eles poderão, às vezes de modo irrepetível, transformar realidades”,propõe o mestre em Educação/UFBA e Pedagogo/UFBA do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe – Campus Lagarto, Fábio Kalil de Souza.

 

 

Questionado sobreo que poderia ser feito para melhorar a situação do adolescente no século XXI, e o que o mesmo poderia fazer em sua área de trabalho para mudar essas circunstâncias, o professor de física e mestre José Uibson Pereira Moraes apresenta a seguinte sugestão:“Para que a realidade mude, seria preciso uma reeducação da mídia, onde se procurasse promover valores que enriquece verdadeiramente a vida das pessoas, onde uma sociedade melhor pudesse ser construída e não que se promovam valores que enriqueçam ao capitalista selvagem. Mas pensar isso na sociedade atual talvez seja um absurdo, principalmente colocando isso pros meios de comunicação, é que eles interpretam como sendo censura. Acho isso um erro muito grande, onde a mídia passa a ser intocável. Revestida por um casulo sem valor. Diante de tal realidade, busco educar o adolescente numa formação não apenas técnica, mas principalmente numa educação de bons comportamentos e boas atitudes.”

 

A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida.

 

 
unite for children